Ocupamos a liderança (!) no número absoluto de homicídios, mesmo não estando em guerra: cerca de 10,4% dos casos do mundo ocorreram aqui, segundo dados da ONU, tendo como referência o ano de 2021.
Parece que ninguém se importou com isso. Será que estamos tão anestesiados na nossa cidadania a ponto de não sentir indignação ou reagir, cobrando dos governos? O quanto isso impacta nas nossas vidas, no comércio, na indústria e no turismo?
Com 7 mil quilômetros de praias, a Amazônia e outros belos lugares, o nosso imenso país recebeu 3,63 milhões de turistas no ano de 2022, número inferior ao da Argentina (3,89 milhões), da Colômbia (4,40 milhões), da República Dominicana (7,16 milhões) e do México (38,33 milhões), conforme dados divulgados pela OMT – Organização Mundial do Turismo (Nacional Geographic, 11.8.2023). Esses são números sobre países das américas, mas há outros dados representativos, para comparação: o Egito recebeu 13 milhões de pessoas em 2019 (dadosmundiais.com) e a Grécia 28 milhões em 2022 (Publituris, 22.2.2023).
A violência deve ser um fator importante a ser considerado, mesmo que alguns turistas não deem tanto valor a isso e escolham outros destinos pelo preço das viagens e proximidade (particularmente entre europeus e os vários países da Europa).
Impressiona que a nossa população seja de 214 milhões de pessoas, enquanto no mundo há 7,8 bilhões e, mesmo assim, no Brasil tenham sido assassinadas quase 50 mil pessoas em um ano, enquanto no mundo todo foram 500 mil. Temos média 4 vezes superior à global. Esses dados precisam ser comparados com outros e escolhemos o Paquistão e a Indonésia, por ter populações apenas um pouco maiores do que a nossa: o primeiro teve 9 mil casos de homicídios e o segundo 1.292 (em 2016). É bem verdade que, para alguns crimes, há pena de morte nesses países, fator que pode inibir a violência. De toda sorte, grandezas sociais e culturais distintas podem ou não justificar as causas desses números.
Independentemente disso, os quantitativos são marcantes.
Como nos acostumamos a isso, a ponto de estar indiferentes aos números, aos fatos e ao que representam? Como achar natural que as coisas tenham saído do controle, simplesmente admitindo ser “normal” essa violência e o fato de haver áreas perigosas nas cidades, só reagindo a casos concretos e não nos indignando com a violência em geral e os seus ciclos nefastos, a sua relação com a corrupção e o quanto afeta a vida das famílias e a segurança dos nossos filhos e dos trabalhadores, o comércio e a indústria em geral e o turismo,?
Qual o valor da violência? Para exemplificar, estudo da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo indicou que a criminalidade, apenas no Rio de Janeiro, provocou queda (perda) de 29% do total de 2,291 bilhões do faturamento do setor (PortaldoComércio.org.br, 30.10.2017). Projetando-se a realidade para o país se percebe que há muito dinheiro envolvido, ou seja, não recebido e, portanto, desperdiçado.
Quanto a violência interfere no cotidiano? O crime que faz vítimas fatais não pode ser visto como algo normal nas nossas vidas. Além disso, é crível que a questão estaria além dos números, já que o ponto de interesse e de necessário ajuste está na desejada normalidade das nossas existências. 50 mil vítimas representam o mesmo número de famílias atingidas e um número maior de familiares e amigos. Quantos destinos marca! Quantos mais haverão de ser vítimas de homicídios para que a sociedade se insurja e os políticos reajam?
Noutro foco, secundário em relação a isso, pela sua relação com a economia e a vida financeira do país e os reflexos diretos no comércio, a violência deveria integrar não apenas as páginas policiais, como, também, as relativas à economia, pelo que ocasiona nas famílias e nas empresas, nas cidades e no país.
Talvez precisemos enfatizar que as pessoas se informam antes de viajar, buscando informações sobre locais, comida, vida social, hábitos locais e violência. Sabem que o Brasil tem números significativos de violência e lidera o ranking mundial de homicídios. As pessoas também se informam sobre a localização de locais que precisariam visitar, como mercados, lojas, consultórios, bairros, oficinas e toda sorte de prestadores de serviço e de comerciantes.
Quem de nós, nesses dias, não se indignou com notícias sobre o quadro explícito por ruas da cidade maravilhosa, com grupos atuando e vitimando pessoas e, também, claro, o belo simbolismo do cartão postal de Copacabana? Imaginemos o Réveillon… Mas o Rio não está sozinho nessa, pois há notícias sobre violência a turistas no Pelourinho e nos arredores de outros pontos turísticos pelo Brasil.
Quem ainda estranha movimentos em São Paulo, que se espalha por ruas e ruas e causa abalo na rotina e sensação de segurança da cidade?
Quem caminha tranquilo pelas ruas das grandes metrópoles ou se sente seguro quando precisa parar no acostamento de uma estrada, para trocar o pneu furado?
Além da violência em si há o império de percepções negativas para a vida social, o turismo e outras atividades, como as sensações de medo, de vulnerabilidade, de impotência e de roleta russa sobre ser ou não a próxima vítima.
A verdade é que estamos nos tornando complacentes, com o coração puro demonstrando benevolência, amabilidade e compreensão dos fatos, enquanto, silenciosamente, colocamos grades e cercas em nossas casas e apartamentos e vidros blindados nos carros, talvez não nos importando tanto mais com furtos de celulares e bicicletas se a vida nossa for preservada. Algo como “furta mas não mata”. Há quem tenha celular “para andar na rua” e um melhor, para outros usos, uma atualização do “dinheiro do ladrão” que se levava nos bolsos.
Além disso, há coisas que simplesmente não conseguimos explicar aos turistas, como ocorreu com duas suíças que levamos para passear pela cidade e que estranharam como o carro balançava, se referindo aos tampões desnivelados nas ruas da cidade. Pequenos eventos podem não fazer sentido para nós, mas faz para quem nos visita.
Imaginemos, então, o impacto dos frequentes arrastões em praias e assaltos que têm ocorrido quando se realizam eventos musicais de grande porte. Qual a repercussão disso mundo afora, seja por matérias em jornal ou por mensagens compartilhadas por aplicativos de celular?
Há, também, outras formas de violência, como aquela do desemprego, da fome, da miséria, do despejo, da falta de estrutura, da carência de vagas em escolas, creches e hospitais. Também há a que atinge as lentes das máquinas fotográficas e que é de natureza visual ou paisagística: são fios embolados e dependurados nos postes, que enfeiam paisagens de cartão-postal. Ainda há outras situações sem justificativa, por serem de longo prazo ou frequentes, como a falta de pedras em calçamento de ruas, os desníveis das calçadas, a sujeição a pagar a guardadores para estacionar em locais públicos e gratuitos, o atraso nos ônibus e trens, os pedintes nos sinais e outras coisas com as quais nos acostumamos mas que podem ser interpretadas como “o que é e o que nunca deveria ter sido”, além de outros graves e ainda persistentes tipos de violência, como a discriminação, os crônicos problemas de moradia, educação, emprego, saneamento básico, etc. Mas, aqui, no texto, focamos nos homicídios! Com relação a esses, todos são vítimas em potencial, moremos em comunidades ou não, em bairros urbanos ou afastados, em casas ou apartamentos, em quartos compartilhados ou mansões e em cidades imensas, médias ou pequenas.
Precisamos tapar esses ralos que drenam a nossa confiança, os nossos sonhos, a nossa esperança, a nossa paz, a nossa segurança, a nossa economia, a nossa posição nos negócios e a garantia de progresso aos que investem e empreendem e aos consumidores. Precisamos curar esse câncer que gradativamente se espalha e que nos macula mais e mais a cada dia. Necessitamos corrigir o rumo das coisas antes que cheguemos a ponto de não retorno, passando a ser vistos como país que seja refém do narcotráfico e do crime organizado. Temos que valorizar as pessoas, cada existência, cada um, pois todos somos potenciais vítimas desses homicídios que ceifam vidas e criam essa incômoda situação de insegurança. Cada vida importa! Precisamos diminuir os números de homicídios e assegurar a sensação de paz e segurança e proteção. Nosso povo merece e o Brasil precisa. Antes disso, porém, é preciso que percebamos o tamanho do problema e nos indignemos, pois nenhuma mudança ocorrerá com silêncio e faz de conta.