Ele estava morrendo de saudades da sua namoradinha de infância que deixara em Macapá, no movimentado bairro Novo Buritizal, apelido eufêmico do periculoso bairro Congós.
Mal conseguia conter a ansiosidade em contar as novidades do seu espetacular mundo novo e os sonhos para o futuro. Afinal, Claudinha foi sua primeira e única namorada. Amavam-se perdidamente.
Era o único fator que lhe tirava concentração nos estudos de engenharia. E nos seus devaneios de jovem promissor, sonhava se formar, ter um bom emprego, receber a mão da sua princesinha vestida de branco com véu e grinalda no altar da bucólica Capelinha do Convento dos Frades Capuchinhos, dar-lhe filhos e um lar feliz.
Por volta de meia noite, após um rolê na orla da outrora pacata city, Gugu parou o carro emprestado do pai na frente da casa de Claudinha, incautamente.
O carro aos poucos foi ficando com os vidros todos embaçados, ao som de uma música romântica. Embora parado, o veículo tremia como num terremoto no grau 8 da Escala Richter.
Aquilo chamou a atenção de Johnye “Saruê” e sua quadrilha. Por vários assaltos recentes, havia mandado de prisão contra Saruê e seus dois “parças” “Todo-Duro” e “Tiziu”, bem como mandado de busca e apreensão contra a delinquente juvenil Ana do Rosário, a Xuxuca, que na flor de seus 15 anos era a isca da gangue.
Todos eram foragidos desde o tempo do ANINGA, o antigo Centro de Custódia de Menores da FCRIA, onde se conheceram e uniram esforços para as empreitadas criminosas. E pretendiam roubar um carro para fugirem para Laranjal do Jari, residência de origem da maioria deles.
O casalzinho de pombinhos foi presa fácil: Johnye “Saruê” bateu com a cartucheira de cano serrado no vidro do carro e renderam os dois. Amarraram ambos ainda nus no banco traseiro com os cadarços dos próprios tênis e saíram em alta velocidade rumo à rodovia Duca Serra.
Quando atravessavam a Lagoa dos Índios, os malacos pararam o veículo e posicionaram Gugu junto ao guarda-corpo da ponte e efetuaram um disparo na nuca. Gugu caiu inconsciente sobre o aningal, vegetação úmida característica daquele bioma e foi encontrado vivo por pescadores de manhã.
Gugu teve sequelas cerebrais irreversíveis e o seu sonho de ser engenheiro robótico ficou como longínqua reminiscência dos seus sonhos juvenis e de seus pais.
Não atiraram em Claudinha ali simultaneamente porque Saruê, ao olhar aquele rosto extremamente lindo apesar do semblante desfigurado pelo terror, com um corpo mignon escultural bem talhado e de longos cabelos negros que se espalhavam pelas suas costas até as nádegas perfeitas, sentiu surgir em si os mais primitivos instintos bestiais ao se inebriar com os encantos da ciã-katuá*.
Ora, já que iria matá-la, porque não saciar sua concupiscência carnal antes? Ali não dava, naquela rodovia movimentada passavam muitos carros. Rumaram então para o bairro Goiabal, que tem esse nome porque ali jazem as ruínas de uma antiga fábrica de goiabada, local ermo e escuro à época.
E lá estupraram a pobre Claudinha de todas as formas possíveis, um a um, em conjunto ou alternadamente. A perícia médica encontrou esperma no introito vaginal, colo do útero, tubo retal e esôfago compatível com o DNA dos três estupradores, com laceração múltipla dos esfíncteres anais e rasgadura do períneo, formando uma cavidade única com o ânus.
Xuxuca posteriormente confessou ao promotor de justiça que Claudinha clamava por piedade aos seus algozes para que a matassem logo, pois não suportava mais as sevícias.
Após satisfazerem suas lascívias, aquelas bestas-feras párias da sociedade efetuaram um disparo de cartucheira com o cano encostado na garganta da jovem, queimando a sua tez morena (Mina de Hoffman) e encravando a bucha do cartucho na sua traqueia. E a massa encefálica e fragmentos ósseos do crânio espalharam-se pela relva.
Após, a corja empreendeu fuga com destino a Laranjal do Jari. Na pressa e por imperícia, o condutor Saruê capotou o veículo na perigosa estrada de chão da BR 156. Infelizmente, saíram todos ilesos do veículo. Era para todos terem ficados tetraplégicos, no mínimo.
Esse acidente propiciou à polícia identificar os autores porque pediram carona a um caminhão pau-de-arara de agricultores que vinha logo atrás retornando da feira do produtor.
Algum tempo depois, na recepção da Promotoria Criminal compareceu um senhor querendo falar com o promotor de justiça que ofertara a denúncia-crime imputando sete tipos penais qualificados (roubo-latrocínio, estupro seguido de morte, porte ilegal de arma de fogo, formação de quadrilha, corrupção de menor, condução de veículo sem habilitação e danos), que somados davam mais de 60 anos de prisão. Embora sem agendamento, ao tomar conhecimento de que se tratava do pai da vítima Claudinha, o promotor o atendeu no gabinete.
-Doutor, nem que seja a última coisa que eu faça na vida, nem que eu apodreça na cadeia, mas meu desejo é matar um por um.
-Não faça isso, meu senhor. Não suje suas mãos de trabalhador honrado, um dos mais conhecidos barbeiros da cidade, com esse sangue de pior qualidade. Esse tipo de gente não costuma durar muito. A justiça dos homens está sendo feita.
-Doutor, se esses marginais saírem da cadeia, eu serei preso no lugar deles nem que eu cumpra 30 anos pendurado nas grades. Não acredito na justiça, pois a rua está cheia de bandidos soltos, enquanto nós cidadãos de bem estamos presos dentro das grades de nossas casas.
Os operadores legais sabem como termina a história desses jovens facínoras: morrem precocemente a troco de nada, nas facilidades da esfera social do submundo do crime.
Mas é inegável que é preciso por um ponto final no festival de barbaridades cometidas por esses criminosos, que são um atentado para a segurança da população.
E como se viu no tom revoltado daquele pai, a liberdade desses indivíduos é sério risco à vida deles próprios, porque a sociedade de bem, cansada da violência contra si, deságua na sede de vingança privada porque essa mesma sociedade não tem uma resposta adequada dos poderes constituídos.
Vejam que todos aqueles infratores tinham passagem pelo sistema educacional menoril, forçando-nos reconhecer a falência do sistema. A pena privativa de liberdade e as medidas socioeducativas não reeducam, não ressocializam e não reintegram o preso ou o menor à sociedade.
Na verdade pervertem, deformam e corrompem. E eles retornam ao convívio social piores que dantes, pois é voz corrente que os órgãos de custódia estatais funcionam como uma pós-graduação do crime.
É como nos hospitais públicos: você entra com uma gripe e sai com infecção hospitalar generalizada (septicemia), tuberculose, pneumonia e o escambau (rss, perdão pelo humor negro).
A política do Estatuto Mirim (ECA) não é um sistema de impunidades, pois as medidas socioeducativas embora não se traduzam em penas, tem o condão de restringir a liberdade do menor infrator se se tratar de ato infracional grave. E todas as técnicas e atividades são empregadas nas entidades infanto-juvenis, assim como no sistema prisional dos imputáveis.
Mas quando em liberdade, esses sicários aparentemente recuperados retornam ao seu habitat primitivo, se reinserem naquele ambiente promíscuo das drogas e da falta de emprego e de oportunidades sociais e aquilo se torna uma roda-vida infinita perversa.
Dito e feito: por excesso de prazo na instrução criminal da nossa quelônica justiça, os maiores Saruê, Tiziu e Todo-Duro foram colocados em liberdade provisória.
Tiziu e Todo-Duro foram mortos alguns dias depois em confronto à bala com o BOPE, após matarem impiedosamente o dono de um mercadinho que sequer esboçou reação ao assalto, lá na Ponte do Copala no igualmente inseguro bairro do Muca.
Eis que algum tempo depois, o promotor de justiça criminal recebeu um inquérito de homicídio com um pedido de arquivamento do delegado, pois este não encontrou indícios de autoria daquele crime bárbaro, em que pese as exaustivas investigações.
Quando folheou o caderno inquisitorial, verificou que o cadáver era de Johnye “Saruê”. E ficou estarrecido com brutalidade da forma de execução: Saruê estava todo retalhado e degolado, com a genitália cortada enfiada na boca.
Um detalhe intrigou o titular da ação penal: os cortes eram de precisão cirúrgica. O instrumento usado ou foi um bisturi ou foi uma navalha!
Navalha? Hummmm… ahááááá!
No sábado de manhã, o persecutor penal foi ao salão de barbearia onde trabalhava o pai de Claudinha, conhecido pela alcunha de “Navalha”, localizado num histórico Mercado de Macapá.
Sua intenção era cortar o pouco cabelo que ainda lhe restava na calva e conversar amenidades com o barbeiro para “verificar o pulso” e observar a reação daquele pobre pai e suspeito número um ao saber da notícia do triste fim de Saruê. Porque a conduta pós-crime do suspeito conduz a indícios relevadores importantes.
Não foi possível cortar o cabelo porque o salão estava cheio demais.
“Navalha” falou ao promotor para voltar lá pelas 17 horas, horário que certamente teria pouco movimento. Entretanto, como havia compromissos naquela tarde, o promotor declinou.
Ao se despedir pelo lado de fora do salão através da porta de vidro, o Promotor deu um tchau acenando com a mão. “Navalha” acenou de volta, segurando na mão a navalha suja de espuma com a qual fazia a barba de um cliente. E fez com a navalha um sinal transversal horizontal no próprio pescoço, esboçando um sorriso sinistro senão maroto no rosto.
E aquele promotor de justiça, que carregava inconscientemente uma dor aguda no peito por ser um elo da corrente da justiça que não foi capaz de condenar aqueles cruéis e frios latrocidas, concordou com o Delegado presidente do inquérito do homicídio de Saruê: realmente esgotaram-se as investigações e não havia indícios de autoria.
Guardou consigo suas convicções e optou pela ética em não relevar o sentimento de vingança latente que lhe havia confidenciado aquele infeliz pai e sepultou junto com Saruê o inquérito em cujo bojo continha sua sentença definitiva da sociedade.
Foi uma das poucas vezes que aquele promotor prevaricou nas funções, também com um sorriso sinistro senão maroto no rosto.
(*) Menina bonita, em tupi-guaran