A semana que passou revelou, mais uma vez, que a luta da extrema direita continua. Embora a horda de radicais tenha sido expulsa da frente dos quartéis, logo após as criminosas invasões das casas dos três poderes em Brasília, as redes sociais não tem arrefecido o movimento daqueles que acham que a melhor coisa que teria acontecido para o Brasil seria um golpe de estado com Bolsonaro na presidência. Para alguns descrentes, isso era apenas uma utopia dos insanos políticos. Contudo, após a derrota de Rogério Marinho no senado, o senador Marcos do Val declarou que o plano era real e que fora convidado para participar de uma das ações em reunião com o ex-deputado Daniel Silveira e com (pasmem!) a presença do ex-presidente Bolsonaro. O caso é gravíssimo!
A coerência recomenda que nenhum brasileiro com a mínima racionalidade fique surpreso com o fato narrado pelo Senador Marcos do Val. Seja qual for sua intenção, ele apenas teve a coragem de tornar público, como um de seus entusiastas, a proposta de golpe que permeou todo governo Bolsonaro desde o primeiro dia. O ex-presidente sempre deixou claro que a teoria de Montesquieu lhe causava insuportável incômodo. Era avesso à ideia de que um governo legitimo e bem estruturado deveria um corpo de leis, e o poder estatal deveria ser separado em três esferas, muito embora, num cinismo gigante, bradasse como um cão bravio que sempre jogaria “dentro das quatro linhas da constituição”, num blefe só assimilável por quem acredita nas estórias da carochinha ou por quem esteja ao seu lado.
O momento que o Brasil passou foi difícil. Suas sequelas ainda avultam como restos de incêndio. Aliás, não teve a preocupação que deve ser deferida quando o próprio estado está ameaçado. As forças Armadas revelaram que parte de seus quadros se deixou contaminar pelo discurso político de quem queria usá-la para um projeto de poder sem eira nem beira, contrário aos interesses legítimos da nação. Observou-se o protagonismo político de militares na sua pior versão. O judiciário também se banalizou como ente criado apenas dizer o direito no caso concreto, com seus órgãos se envolvendo em bandeiras políticas. O Ministério Público também se embebedou na digladiação política, perdendo seus contornos constitucionais. O ex-presidente e seu time conseguiram ruir os frágeis pilares da democracia brasileira, tornando banais pedidos explícitos de golpes em frente aos quartéis.
O que se espera é que o óbvio que foi dito pelo senador Marcos do Val, se transforme em combustível imarcescível para combater os trogloditas entusiastas do golpe de estado. A sorte do Brasil é que o time de golpistas tem aspectos de elenco de espetáculo trapalhão. Seu mentor intelectual era Olavo de Carvalho, cujo desserviço ao mundo intelectual é de uma robustez ilimitada. Da ala militar, vieram quadros como Heleno, Pazuello, Marco Aurélio e tantos outros. No assessoramento político tinha Daniel Silveira e os filhos do presidente. Com esse time, o golpe tinha tudo pra dar errado, como, de fato, deu. O problema é que quase levam o Brasil junto e criou séquitos dispostos a tudo. O bolsonarismo não está morto e, como num incêndio, o trabalho de rescaldo deve ser bem feito.
O fantasma do golpe e o trabalho de rescaldo
