Um dos cancelamentos sociais mais frequentes são comentários homofóbicos, racistas, machistas e ofensivos à comunidade LGBTQIA+. A repulsa social a esses comportamentos é uma verdadeira revolução comportamental que deixa em polvorosa as gerações antigas, acostumadas à pratica de comentários sem freios, e as novas gerações, cujo filtro é mais ajustado, contudo ainda pratica excessos puníveis. A sociedade tem sofrido mudanças radicais em curtos lapsos temporais de reprovação a ações ou omissões do corpo social. Se antes era livre e normal a chamada crítica acerba a comportamentos socialmente contestados, hoje o filtro social diminuiu sensivelmente e tornou-se instrumento de reprovação àqueles que não se adaptaram aos novos tempos.
O cancelamento social tem consequências danosas para seu protagonista. Vai desde a leve repulsa social até a exclusão total com consequências nefandas para a vida cotidiana, inclusive no seio intrafamiliar. Esse fenômeno recomenda que todo indivíduo revise seus comportamentos sociais para adequá-los as novas exigências. Não há perspectiva de que esse fenômeno retroceda. Ao contrário, como todo costume, tende a se transformar em norma social e até mesmo norma jurídica, cuja consequência é receber a tutela do Estado. Todavia, o cancelamento social tem uma efetividade mais aguda que a própria coerção estatal. Ela brota das massas, de forma avassaladora, destruindo sem piedade a reputação de sua vítima.
O cancelamento social é um julgamento cruel onde não há a oportunidade da ampla defesa e do contraditório, muito menos do devido processo legal. É uma punição expedita, severa e dotada de um grande poder de inflição de dor e sofrimento psíquico. Para o filósofo Filipe Campelo esse fenômeno representa, de certa forma, um retrocesso social, com a volta da veterana lógica persecutória e punitivista dos julgamentos medievais, onde prevalecia a visão de mundo de cada um. Portanto, há uma advertência implícita a todos de que o cancelamento social é fenômeno com forte odor de retrocesso que repugna toda a evolução social e jurídica do julgamento das condutas sociais.