Cresci, não se assuste, de mãos dadas com o vento a mergulhar em riachos e cachoeiras, recolhendo-me nas noites frias para me aquecer no salão iluminado pelo crepitar das brasas de nós de pinho – refúgio e abrigo.
Observo e reflito, agora, cá, distante da infância e seus folguedos, sobre os descaminhos das gentes de todas as terras. Descaminhos multiplicados pelos desvios arquitetados pelos amantes do poder… Estes desvairados contumazes cada qual por sua vez finca uma bandeira em terra pública e declara Deus e os demais homens como de sua propriedade. Tolos.
Onde Deus está? Onde tu estás? Onde eu estou?
Perguntas e mais perguntas. Lembro-me de ter ouvido a expressão “felizes os que fazem perguntas”. Abençoados os que buscam respostas e respostas para as respostas. E é nesta busca constante que meus pensamentos elevam meu olhar para o firmamento neste final de tarde. Suave final nas notas, não do vinho, mas, do ar quase frio e dos raios de sol de um agosto bem ao gosto de passeios pelos caminhos dos bosques.
Ah, como está intrigante e instigante o céu. Sabe, aqueles tons que em tons e sobre tons se dispersam e conversam entre si criando uma paleta mágica de azuis não descritíveis, não replicáveis, e de cinzas controversos a pontuar versos e versões de nuvens leves em encontros breves e espaços ocos.
Então lembro-me do que li, logo aqui, no início da semana, em uma entrevista do filósofo sul-coreano alemão Byung-Chul Han: “Fazer like [nas redes sociais] é rezar digitalmente. Só que já não pedimos perdão, pedimos atenção.”
O que nos leva a tal defasagem afetiva? Por que tamanho vazio na solidão das multidões?
Seriam os diálogos interrompidos ou as conversas canceladas para não darmos voz ao contraditório, ao pensamento diverso, as facetas múltiplas de uma mesma narrativa na tentativa de transformar a fábula da vida em página a ser contada apenas por uma voz?
O modal dominante é odiar, é a indiferença, a descrença, a conveniência insuflada do mais autêntico egoísmo. Nesta ebulição de sentimentos falta o lume que agrega e aquece, talvez a mais linda prece, uma voz humana, muitas vozes humanas audíveis. Um Deus sem dono, sem prisões de templos ou proprietários instituídos.
Amar é um ato reverso na trilha das estratégias reversas, nestes tempos em que amar pessoas é ridículo. Assim, muitos têm dito. Desdito. Desdigo. Contradigo. Amar é ser livre.