Em um dia como outro qualquer, levantei e fui dar uma olhada na rua, aproveitei a oportunidade e fui até a feira que fica perto de minha casa. Fui a pé para sentir melhor o dia, por sinal, estava com um clima diferente. Entre umas buzinadas e outras, olhei Fuscas, Corolas, Gols que passavam por mim, enfeitados com adesivos que levavam fotos, números e cores dos candidatos a vereadores e prefeitos da cidade onde eu moro.
Me assustei quando alguém, que não faz parte do meu “métier” de amigos, veio em minha direção sorrindo e me chamando de amigo, me oferecendo um abraço. Naquele momento, eu meio assustado, me senti até importante, pois alguém muito bem-vestido, desceu do seu SW4 e veio falar comigo, me chamando de “meu amigo” e perguntando se estava tudo bem. E assim como ele, outros que o acompanhavam tinham a mesma atitude que ele.
Respondi que estava tudo bem. Mas logo em seguida, ele, apertando minha mão, me disse: – Conto com o seu apoio para transformarmos este lugar em um grande município. Pensei comigo mesmo: – captei, amado mestre. Se tratava de um candidato a prefeito e alguns outros a vereadores. “Homens preocupados com a cidade e seus moradores”, “homens educado e atenciosos”, “homens sorridentes e cheios de vontade de ajudar alguém”, características dos candidatos em época de eleição.
Percebi que muita gente que estava ali, na feira, acompanhava os políticos para onde eles iam. Uns tentando uma palavrinha com eles ou deles, outros os abraçavam e pediam votos para eles. Já dentro da feira, eles iam falando e tratando bem até os cachorros que ali se encontravam. Não é para menos, afinal de contas, eles precisam da atenção desses “amigos” nas urnas.
Alguns desses eleitores mais entusiasmados, seguravam bandeiras e gritavam para tentar abafar alguns adversários na calçada do outro lado da rua. A sarjeta, forrada de santinhos, escondia os perigos de um pé acabar torcido dentro dos buracos ou boca de lobo aberta sem nenhuma proteção. Enquanto isso, alí na feira, os candidatos distribuem beijos em crianças e promessas para adultos sem saber se poderão cumpri-las.
E por falar em promessas, por alguns momentos, me veio a sensação de eu estar no meio do Círio de Belém ou propriamente dentro da Basílica de Nazaré, pois eu nunca tinha visto tantas promessas por metro quadrado em minha vida. Eu chego a acreditar que até os santos duvidariam dessas tantas promessas. Esses gênios da lâmpada estão prontos para olhar esses pobres eleitores e dar a eles o pedido de três ou mais desejos, como se eles tivessem a chave mágica para mudar tudo facilmente, porque esses que estão no poder não pensam no povo, mas eles, sim, estão com o povo.
O mais interessante é que ressaltam todo o tempo a importância de lutar, de participar de maneira organizada da reivindicação por seus direitos. Deram o exemplo da coleta de lixo, feita por uma empresa de maneira esporádica, e que só veio ocorrer após várias denúncias em páginas do Instagram que reverberaram suas demandas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a percepção dos que já estão lá dentro sobre os concorrentes. A atitude do prefeito, ao asfaltar e iluminar a cidade, atendendo a uma demanda real da população, reverbera mesmo depois dos seus quatro anos, “fechando” os votos praticamente de uma parte da população todo nele. Porém, uma boa parte da população demonstra o descontentamento com a atual gestão, a falta de remédios e médicos nos postos de saúde, a dificuldade de matricular o filho especial numa escola e ter o acompanhamento adequado, a ausência do poder público e o descaso do atual prefeito com a educação até agora, às vésperas da eleição.
Não se enganem, o povo não é besta, só quer viver bem, feliz, com dignidade, sem ter que ter que ir a Belém ou andar quilômetros para conseguir um leito hospitalar ou um exame de urgência, e até mesmo, materiais escolares ou de higiene adequados, pois escolas novas podem ser encontradas pela cidade, mas os professores têm que gastar de seu próprio bolso para rodar provas ou materiais para seus alunos. como me contaram.
Pois bem, já era meio-dia e lógico que os amigos sentem fome e precisam almoçar. Com o povo? Não. Com os populares comem pastel e bebem caldo de cana. O almoço, porém, é em uma churrascaria com os aliados do prefeito e poucos convidados. Ali, debatem estratégias de final de campanha e outras artimanhas políticas. Assim, me contaram.
Escutando a gente aprende, troca experiências, e ajuda a organizar mais e melhor as pessoas. A graça da campanha eleitoral é essa, sentir e ouvir com muito carinho e atenção o sentimento de cada um e cada uma que vive onde vivemos. Afinal, somos todos parte das nossas cidades e do nosso povo.
OS AMIGOS DO POVO
