As cenas gravadas por Goya em “Los desastres de la guerra” mostram que ela é uma abominação, a expressão do Mal com seus inesgotáveis detalhes sórdidos. O horror está condensado na série de Pinturas Negras que decoravam a Quinta del Sordo — apelido dado pelos vizinhos ao artista em seus anos finais —, como a que retrata “Saturno devorando a un hijo”. Ainda hoje sinto o impacto que tive ao entrar na sala do Museu do Prado a elas reservadas.
Minha amiga Hélène Carrère d’Encausse, secretária-perpétua da Academia Francesa, escreveu, em Le Malheur Russe, que na Rússia os assassinatos políticos só cessam quando são substituídos pela guerra. Lá o mecanismo do poder pela violência é a regra iniludível. O quadro de Goya poderia exprimir dois episódios que marcam em vermelho — ou em negro? — a História da Rússia: os homens que fizeram o renascimento russo, Ivan, o Terrível, e a adesão da Rússia ao século das luzes, Pedro, o Grande, mataram os primogênitos com as próprias mãos.
Há, por isso, uma diferença entre a guerra desta semana e as também horríveis e monstruosas guerras que se espalham pelo mundo, inclusive a nossa própria guerra incivil — pois nossos números são maiores do que os da maior parte delas. A diferença é seu potencial de estender-se ao resto da Humanidade. Já nesse momento em que o Ocidente deflagra, contra a ofensiva armada e arbitrária, o desligamento econômico da Rússia, o mundo globalizado fratura-se e pagará todo ele as consequências indiretas, sem falar do desmonte direto que sofre a sociedade russa.
Mas o que não podemos tirar da cabeça é o descontrole da fera humana quando acuada. Lembro apenas que dois homens, a quem muito se deve o fim de um período de barbárie, Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, lançaram as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, matando mais de 250 mil pessoas.
Como dormimos tranquilos sabendo que mais de seis mil bombas nucleares estão à disposição de um homem — longamente treinado pela KGB a obliterar qualquer sentimento — que vê sua decisão de esmagar um vizinho trazer os custos da guerra a seu próprio país? O uso dessas bombas, mesmo parcial, pode provocar consequências que vão das contaminações radioativas, da fome nuclear, do inverno nuclear até ao holocausto nuclear, a extinção da vida na face da Terra: ninguém, nem mesmo os criadores dessas máquinas de destruir, sabe quais são suas consequências reais. Sabemos apenas o que aconteceu nas duas cidades japonesas e nas usinas de Chernobyl e Fukushima, nada de bom.
Multiplicam-se, felizmente, as iniciativas pela paz. Testemunha e estudioso da História, sei que não é fácil. Raramente vi a paz chegar antes de acontecerem os desastres da guerra. Do homem ser a besta do homem. Das vidas serem ceifadas com absoluta crueldade.
Esperemos que a paz chegue rápido. Se não, que chegue devagar. Mas que chegue, porque, sem a paz, virá o dia em que não saberemos o que aconteceu: estaremos todos mortos.