A matéria foi noticiada em 25 de maio, pela Deutsche Welle, empresa pública alemã do ramo da comunicação. Pela mudança histórica de paradigma, a energia nuclear passou a ser vista como fonte sustentável e aliada no combate ao aquecimento global.
Entretanto, enquanto se adota o posicionamento acima, continuarão armazenados por 1.500 (mil e quinhentos) anos as caixas de chumbo, que contém os documentos manuseados por Marie Curie, que recebeu o Prêmio Nobel por 2 vezes (em 1903, de Física; em 1911, de Química, pela descoberta de novos elementos químicos e dos princípios fundamentares da Física atômica e a radioatividade).
Todos os documentos, roupas e objetos usados por ela estão isolados nas tais caixas de chumbo. O seu corpo também foi sepultado em caixão desse metal, com cerca de 2 cm de espessura, uma vez que átomos radiotivos continuam a sair – e não podem escapar para o meio ambiente…
O prazo de 1.500 anos é o considerado suficiente para a total desintegração dos átomos do novo metal por ela descoberto: o rádio. É dele que deriva a palava radioatividade.
O local onde morava e fazia pesquisas é casa cercada por alto muro, arame farpado e câmeras de vigilância. A radioatividade ali é elevada e o será pelos próximos séculos. No local não funcionou usina nuclear e não se manuseava ou produzia volumes imensos dos materiais radioativos. Assim, uma casa, um laboratório, um corpo, papéis, anotações, microscópios e outros equipamentos de pesquisa estão isolados, pela radioatividade neles ativa pelos próximos 15 séculos!
Nesse rumo, já está evidenciado o imenso contraste entre tal exemplo e a matéria que dá título a este texto. Se a tal fato acrescentarmos os catastróficos acidentes com as usinas de Chernobyl (na antiga União Soviética), Three Mile Island (EUA) e Fukushjima (Japão), ficará mais claro o significado danoso da radioatividade, para o meio ambiente.
A esse respeito, convém lembrar, ainda, que a Finlândia constrói imensa “tumba” nuclear, que se espera durar 100.000 (cem mil) anos! Parece incompreensível que material nuclear fique lacrado em enorme “tumba” por cem mil anos, enquanto partido finlandês entende que o meio ambiente sofreria menos com a energia nuclear do que com o aquecimento global.
É crível a suposição de que toda a vida na terra possa estar cozida muito antes dos 100.000 anos acima referidos! É axioma sem solução.
Foi dito que o Partido Verde da Finlândia alvitra modificar normas para agilizar a aprovação de pequenos reatores nucleares, menores do que as tradicionais grandes usinas e, por isso, supostamente mais seguros. Consta, também, que aquele é o primeiro Partido Verde no mundo a deixar de lado a histórica bandeira de luta contra as usinas e a energia nuclear.
Salvo melhor juízo, uma causa é valor absoluto e inegociável. Sem ela, ideais deixam de se sustentar e, com o tempo, o vazio vem…
Ademais, aquela decisão contraria o posicionamento de outros países da União Europeia. A Alemanha já possui plano de desativação de todas as suas plantas nucleares até o final do ano (decisão tomada em 2011, após o acidente ocorrido no Japão, na usina de Fukushima). A Bélgica também tem esse objetivo, até 2035.
Em sentido contrário, o mundo segue o seu caminho: EUA, China, França, Inglaterra, Índia e Rússia continuam dependendo das usinas nucleares – e produzindo e consumindo muito gás e carvão.
A questão de ser a favor ou contra exige que antes se conheça certos mecanismos. Aqui, não cogitaríamos dos fundamentos técnicos e próprios dos especialistas, cientistas e pesquisadores. A estes a nossa homenagem e profundo respeito. A abordagem feita neste texto é superficial e leiga, considerando apenas os previsíveis danos ambientais.
A respeito da sobrevida dos dejetos nucleares, convém registrar que qualquer catástrofe pode nos afetar por milhares de anos e, assim, não poderia haver algo com maior potencial danoso ao meio ambiente!
O aumento do consumo do carvão pelos EUA e China, em plena COP 26, causa efeitos imediatos e são menos danosos a longo prazo. A poluição por derivados de petróleo e carvão também não durarão milhares de anos ou causariam tantas mutações genéticas, como as ligadas aos danos nucleares. Aliás, os danos visíveis (das minas de carvão etc) parecem menores e menos dolorosos ao sistema do que aquele que se produz no mundo invisível…
As questões ligadas ao meio ambiente despertam paixões. Isso é compreensível, pois falar do meio ambiente nos inclui. O ser humano está no meio de tudo isso e é a espécie que mais mexeu na natureza, destruindo biomas, alterando a química das coisas, produzindo plástico e novos compostos e poluindo tanto.
A realidade cobra preço alto e conceitos clássicos vem sendo flexibilizados em outros seguimentos, com os EUA liberando o plantio de lavouras em terras de reservas ambientais e a Alemanha destruindo floresta de 12 mil anos, para a extração de carvão. A fome satisfeita hoje parece significar o prato vazio de amanhã. Seria algo dissonante e até quase engraçado, se não fosse trágico. Noutras palavras, para se mitigar a fome de hoje se afetará as reservas de conservação da natureza, nossa salvaguarda para o futuro.
Isso nos faz pensar se, então, o mundo não defenderá a destruição da floresta amazônica para que lá se plante no futuro. Absurdo seria, mas se os EUA já plantam em áreas de conservação… O fodo não estaria na ação em si, mas no fato de se advogar a defesa intransigente da floresta e da Amazônia nas mãos brasileiras, ao passo que tudo seria diferente sob hipotética pseudo Pansoberania, na qual a regência da região estaria com outras nações (aquelas mesmas citadas e que tanto poluem e poluíram…). Com isso, se e quando dominarem a região poderão fazer o que os EUA e a Alemanha fizeram e fazem com as suas áreas de conservação e florestas.
Parece que estamos vivendo o ocaso da humanidade, olhando apenas para o hoje e deixando para lá o que poderia vir a ocorrer em 100, 200 ou 1.000 anos. Soa como o fim da odisseia humana e a trilha sonora nacional já foi composta (ouço a melodia).
Por fim, precisamos dos partidos e das suas causas. A população habitua-se à face e ideal de cada partido e vota (ou deveria votar) conforme as diretrizes programáticas. A partir do momento em que os partidos começam a perder aspectos essenciais das suas lutas e bandeiras políticas, flexibilizando pontos de vista que ao eleitor soam como orgânicos, suas faces começam a se misturar com outras na multidão. Isso não é bom.
Os partidos são guardiães da democracia e as suas causas distintas formam rede que protege o todo. A discordância é salutar para o aprimoramento do pensamento crítico e evolução da humanidade. Com ela e por ela, saímos da zona de conforto e crescemos como seres humanos.
Os partidos são a vida do tradicional sistema e as clássicas convenções fortalecem os compromissos e a proteção dos portões. Se estes forem abertos, não mais se fecharão e, por ali, escoarão o que ainda nos resta de valor, acima dos preços das coisas…