O que incomoda faz morada. Sentença, de tal modo, tumultua a insatisfação no íntimo do ser, mas se comprova cientificamente, nas mais diversas áreas do comportamento humano. Seja pela repetição ou pela aceitação indiscutível, fica-se refém das falas soberanas.
Enquanto ordenam as verdades sobre a humanidade e as voltas que a Terra dá, cada mortal se socorre à zona de conforto pessoal, ajustando-se àquilo que não enfada ou chateia. Deveras, o que se construiu como torre forte da verdade não se destrói num simples despertar nacional. O homem desperto carece de outro domínio: o da coragem.
O bom ânimo, por seu turno, não é só promessa divina, é alento à vida humana, desde os primórdios. O ser deliberadamente determinado traz ameaça e, a depender da firmeza de desígnio, morre pregado na cruz. Nada de novidade.
Enquanto, a desordem e o caos admitem grande crescimento socioeconômico, requerem, antes, enorme sacrifício populacional. Durante um e outro momento desses, quando a rotação terrena troca de ritmo e de mãos, importa o questionamento dos motivos reais.
Outras questões acompanham tantas inquirições: o significado de cada narrativa e o sentido delas no mundo do indivíduo. Propagar, repetir, reproduzir na fala o que se ouve não vai além de adestramento, alheamento, dissociação induzida.
Evocar, de antemão, o que transmitem, em mensagens audiovisuais à vida individual, corrobora com a total ausência de autodomínio dos donos daqueles sentidos desprevenidos e, quando menos se espera, as informações reiteradamente repetidas por eles tomaram espaço em sua massa encefálica, determinando seu sentir e seu agir.
Conhecer, pois, dos fatos passou a ser tarefa árdua, investigativa, sucessiva e delongada. Quem, atualmente, se demora em “concordar com uma verdade” e partir ao ataque por ela? Não à toa, a construção da mensagem carrega a maior importância da existência, já antecipada em João 1:1 – “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”.
Sem abordar os aspectos doutrinários religiosos, mas admitindo que, em toda a Bíblia, erguem-se inúmeras consequências da mensagem falada, não há como desprezar ou se esquivar de reconhecer que o maior poder humano é a comunicação.
Então, de qualquer meio, sob qualquer motivação e em todas as situações, o que se comunica tem causa e finalidade. Assim, o mais inocente de todos os viventes pode negar, todavia nunca conseguirá abster-se de senti-la, posto que ela jamais passará sem seus efeitos.
Numa acuidade rasa de quem observa, a tarefa de filtrar, de investigar, de questionar, de despersonalizar, de neutralizar a fala passou de demodê à coisa de extraterrestre. Por certo, os livros e o dicionário permanecem desprezados. É bandeira de domínio de poder: o distanciamento deles contribui positivamente à domesticação inconteste. Exatamente com esse fim, o efeito papagaio tem trazido mais status e adeptos, hoje, eleitores.
O que, no início, poderia dar-se pelo conhecimento dos inúmeros sinônimos de cada vocábulo, seguido, ao estudo sobre a construção dos significados desses arranjos e, logo na sequência, à justaposição ou ao confronto dos mesmos, à cada momento da formação histórica de um povo, foi substituído pelas breves e massivas narrações midiáticas.
O intuito deveria ser continuar a marcha pelo conhecimento sobre as falas. Pode ser que a busca por fatos acontecidos custe alguns dias, para, enfim, se formar uma reles opinião. E pode ser, ainda, que se descubra novos fatos históricos que alterem por completo aquela opinião, mas isso é o nobre e solitário zelo pela verdade dos fatos.
E, por isso, pela real descrição dos eventos, comunicar está, sem sombra de dúvidas, no pódio da existência, no degrau um de tudo o que o homem faz de maior grandeza, para a evolução ou a destruição de sua espécie, embora se busque, desde os primeiros ensinamentos educacionais retóricos, reduzir seu valor. É, sem hesitação, pela comunicação que acontece a construção da emoção e, pela emoção, a efetivação dos anseios social e particular. Senão, que seja analisada a cronologia seguinte:
Ao feto, no ventre, o que se comunica, converte-se em primeiras sinapses, que o conduzirão às emoções primárias. À criança, no convívio familiar e na escolar, às crenças-base, que formarão o caráter. Ao adolescente, no desbravar das regras, a consolidação dos princípios, que definirão escolhas e resultados. Ao adulto, nos eventos mais atualizados, a síndrome do papagaio digital.
Fatalmente, as falas incorporam emoções, crenças, valores e princípios humanos. É por essa premissa que o que incomoda faz morada, porque sinaliza incongruências e desistência de si, habituadas à repetição e à aceitação indiscutíveis e copiadas do pássaro conversador de voz altiva.