Guarde, Natalina, guarde o agasalho alvo no fundo do baú onde estão as roupas de cama, ou na última gaveta da cômoda. Quando a saudade do marujo apertar, você pode se abraçar ao casaco esperando sentir cheiro de mar e de aventura. Você lembrará das bugigangas que ele trazia, enchendo a casa de alegre agitação.
Não ceda aos ressentimentos da mãe que pensa em doar o casaco para as Santas Missões. A roupa, tão alva, nas mãos dos missionários iria parar sabe-se lá em que lugar do mundo, quem sabe enchendo-se de nódoas de sangue seco, de marcas da lama de algum campo de batalha.
Faz tempo desde a última vez em que o pai chegou de viagem carregado de presentes. Não mais voltou, nem se sabe se voltará. Se isso acontecer, Natalina, você irá inebriar-se com a visão daqueles olhos verdes cheios de luz, e ele amará saber que, ao guardar o casaco de brim branco guarnecido de botões de metal dourado, a filha nunca perdera a esperança de que o mar lhe devolveria o pai.
-“Seu Azevedo, o senhor não pode mais beber desse jeito. Você vai acabar se matando.”
Azevedo nascera feio, crescera feio, envelhecia feio. Magrela, dentes de limpa-trilho, óculos pesados com lentes de fundo de garrafa, seu andar era diferente, modo que felino: parecia um gato com as patas traseiras aleijadas. Ainda assim aquele andar felino justificava o apelido de Gato Velho.
Em criança, lera todos os livros de Tarzan editados pela Terramarear. Amarrava cordas nas árvores do quintal, nelas balançando-se como se fossem cipós. Treinando daquele jeito, esperava ficar pronto para mudar-se para a África e lá ocupar o trono de Rei das Selvas.
Para a África, Azevedo nunca foi. Foi para o Marajó assumir o posto de bancário a que chegara aprovado em concurso público.
O banco ficava numa região de pecuária onde abundavam campos naturais.
Sem matas para virar Tarzan, o Gato Velho decidiu virar caubói. Primeiro passo era aprender a montar.
De cliente fazendeiro, conseguiu emprestado um cavalo de lida, com sela e arreios. Encheu a cara para criar coragem, escanchou-se no animal e nele desembestou campos afora.
No meio do nada, a todo galope, o cavalo tropeçou na torroada, o chão esturricado mais duro que cimento. Azevedo foi atirado longe. Quebrou braço e perna. Fratura exposta, coisa feia. Desmaiou. Foi encontrado noite alta no meio do mondongo seco.
Recambiado numa carroça puxada a búfalo, passou a noite em casa, em meio a dores atrozes. De manhã, foi mandado para a capital num avião monomotor fretado pelo banco.
De licença, passou a encharcar-se cada vez mais de álcool.
O médico já mandara o recado:- “Não pode mais beber desse jeito”. Gato Velho não deu a mínima e continuou bebendo rios de cachaça. Não deu outra: morreu de cirrose. Dizem que morreu feliz.
Mãe, venda meu violão Di Giorgio clássico. Acompanha estojo duro, dois jogos de cordas e um álbum com letras e músicas cifradas.
Helena não me quer mais. Me colocou para fora de casa. E não foi nem pessoalmente: deixou recado escrito na mesa da sala. Dizia que a casa era dela, que ela não estava disposta a ser a formiga, que não aceitava que eu fosse a cigarra.
Minha vida é a música, mas sem Helena me sinto sem vida.
Não me saem da cabeça aqueles versos do Chico Buarque: – Como / Se na desordem do armário embutido / Meu paletó enlaça o teu vestido / E o teu sapato ainda pisa no meu…
Cigarra tem mais é que cantar. Mas como cantar sem vida?
Venda o Di Giorgio, mãe, Com o estojo duro e acessórios deve dar alguma grana.
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.