Não é preciso ser nenhum especialista em análise fílmica para inferir que trabalhar a temática de um multiverso no enquadramento da cinematografia é tão arriscado quanto ousado. A premissa de tentar conectar universos independentes através de um fio comum requer diligência, preparo e uma dose de excentricidade. Felizmente, para os amantes da narrativa bem estruturada de DARK (Baran Bo Odar) e aqueles que esperavam um pouco mais da introdução multiversal no UCM (Universo Cinematográfico Marvel), ‘’Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo’’ se mostra um verdadeiro presente; com um roteiro audacioso, fotografia estonteante e narrativa extremamente coesa, o filme se mostra um verdadeiro Multiverso da Loucura.
A história começa com Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma imigrante chinesa de meia-idade se desdobrando para pagar as contas, infeliz com o próprio casamento e com sérios problemas de relacionamento com a filha. Nem de longe esse é o perfil de alguém destinada a restaurar o equilíbrio multiversal; mas quando uma ameaça interdimensional surge, ironicamente, ela descobre ser a única capaz de salvar, não só o seu, como também todos os outros universos. A tão conhecida fórmula da jornada do herói se reinventa nas mãos de Dan Kwan e Daniel Scheinert, e se desdobra através de cenários e personagens fascinantes.
Um primeiro ponto interessantíssimo a se ressaltar nessa análise é a composição das personagens asiáticas. Ao longo da trajetória de produção cinematográfica em Hollywood, personagens asiáticas foram, frequentemente desumanizadas ou mal aproveitadas – como quaisquer personagens não-brancas, em geral – especialmente as femininas. Dentre os estereótipos e narrativas comuns que as cercam, a hipersexualização, o silêncio ou uma cor de cabelo extravagante para simbolizar tamanha exoticidade e mistério, ou sua redução a máquinas letais prevalecem. A preocupação em construir camadas, humanizar, de fato, essas representações no cinema norte-americano, foi de mínima a zero.
É uma surpresa muito positiva poder ver em Evelyn e Joy (Stephanie Hsu), mulheres tão repletas de nuances emocionais, questões internas e existenciais, que se consubstanciam e produzem tanto sentido. Enxergar em Waymond Wang (Ke Huy Quan) um homem inteiramente atravessado pela sensibilidade e o amor. Suas narrativas são tão completas e fechadas quanto a do todo que as cerca; cada universo é singular, coeso e integralizado. Sem pontas soltas ou exageros retóricos, o roteiro constrói cenários e personagens que encontram sentido em si mesmas.
E por falar em cenários, o segundo ponto de destaque é a estética multicolorida, festiva, excêntrica e vívida, que casa perfeitamente com esse roteiro e a própria proposta da bagunça multiversal. É em meio a confetes metálicos, olhos esbugalhados, bagels, elementos típicos da cultura chinesa y otras cositas más que a história se vivifica. Naturalmente, a combinação de tantos elementos extravagantes não poderia deixar de conferir um ar muito divertido ao filme, reiterado pelas diferenças das próprias personagens.
Fazer um conjunto tão inicialmente caótico e bagunçado convergir para um final grandioso, ainda mais em um ritmo tão fluido, requer profundo conhecimento cinematográfico e aplicação magistral. Kwan e Scheinert se mostram diretores e roteiristas primorosos ao conduzir o verdadeiro Multiverso da Loucura de 2022, amparados por um elenco asiático-americano poderosíssimo, que preenche suas personagens com verdade e sentido próprio. Não seria exagero nenhum afirmar que ‘’Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo’’ é um verdadeiro espetáculo visual, corroborado por uma narrativa sólida, cheia de ação, romance e drama, que explora o multiverso com eficácia, humor e, acima de tudo, vida.