Li, uma certa vez, que: O que distancia, hoje, as pessoas, não é a distância física, mas sim, o silêncio. Isso me fez refletir sobre o próprio silêncio e em que situação ele nos distancia das pessoas. Muitas vezes, queremos estar em silêncio, ora para um momento de reflexão, ora para estarmos sozinhos mesmo. Contudo, entendi muito bem o distanciamento que esse silêncio nos traz.
Certa noite, eu estava sozinho em meu quarto, olhando para o teto e refletindo sobre a vida, o trabalho, família, amigos etc. Não queria que nada me atrapalhasse naquele momento. O instante era sublime e muito íntimo, pois eu estava conversando comigo mesmo e não queria que a conversa fosse interrompida por nada e nem por ninguém. Porém, um sentimento foi me tomando aos poucos e me trouxe a necessidade de compartilhar aquilo com alguém, mas não qualquer pessoa, mas sim um ser com um bom diálogo.
Foi quando olhei para lado e vi o meu grande amigo e escritor Braulino Magno, mas não em pessoa, e sim em forma de livro, ou seja, o seu recém-lançado livro (A Janela por onde entrava o sol) estava ali, bem perto de mim, desejoso para conversar comigo, como se ele estive me convidando, para em silêncio, ficar com ele.
Aceitei o convite e me pus a folheá-lo para poder ouvi-lo melhor, mesmo em silêncio. Pasmem! Ele me contou muitas coisas, me reportou a uma época que me reavivou lembranças de outras épocas que não voltam mais. Andei por ruas de cidades interioranas que eu ia quando eu era apenas um menino. Me trouxe a magia das crenças passadas de geração a geração. Coisas contadas por nossos pais e avós, as quais, hoje, não acreditamos tanto, mas que não deixam de ser partes de nossas vidas.
Bem! A Janela por onde entrava o sol, este livro sensacional, travou um papo muito interessante comigo. Ele, de fato, foi a janela por onde, naquele momento, entrou o sol. Esse sol que era ele por si só, que iluminou aquela noite e clareou o instante. É como se fizesse menção ao fato de que a claridade não é permanente e o que vemos é dimensionado apenas pelo nosso olhar.
Tudo ali, naquelas páginas, estava vivo e latente, mesmo sem dizer uma palavra, dizia muito, pois dentro daquelas linhas estavam ideias e sentimentos, que iam do amo à dor, da vida à morte, da alegria à tristeza em um mix de metáforas e antíteses de mãos dadas com a personificação dos próprios sentimentos em uma linguagem peculiar e concisa, me submetendo a uma espécie de desnudamento intenso em cada ponto de nossa conversa, a qual, me levou a uma observação surpreendente das coisas que vivo e observo nos outros, me fazendo entender que talvez o maior dos mistérios seja não perceber que estar vivo não deixa de ser uma hipnose em algum momento.
A conversa estava excelente, ninguém estava ali para atrapalhar aquele momento único e muito propicio. Me posicionei de forma que o papo fluía de maneira que parecia que até o tempo parou, em silêncio, para nos ouvir dentro de uma densa concisão filosófica. Densa porque contém muito mais do que aquilo expressado em suas linhas, deixando em mim um eco persistente de uma mensagem que se prolongava para além da narrativa. Filosófica por ser carregada de indagações metafísicas e existenciais. E até de constatações fenomenológicas, com certas especulações tal como: O Ser é o verbo mais perto do nada?
Aquelas páginas e eu conversávamos sob a batuta de uma simbologia totalmente especulativa, sem querer dizer que o autor, o qual proporcionou aquela conversa, não seja também lírico em suas narrativas da alma e do âmago. “A Janela por onde entra o Sol” logra alcançar uma difícil combinação: ser cerebral e lírica num só tempo.
Em um determinado ponto da conversa, me pus a indagar se ali, no meio daquilo tudo, digo: Da narrativa, eu me encontrava em meio verdades ou não? Apesar de saber ser a obra fictícia, porém entendo que o real e o fictício coexistem entre si. E isso me trouxe à mente um poema de Roberval Pareyr: “O exercício da mentira – (por que tamanha maldade?) – concedeu-nos – que loucura! – o exercício da verdade.”
Nesse momento da conversa aprendi que: A descida ao âmago do ser, em busca de uma melhor compreensão da vida e do sofrimento humano, se dá sem que o autor (Braulino Magno) se afaste dos seus semelhantes, como se andasse (como no conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade) de mãos dadas com seus semelhantes, cúmplices da existência: “Dores, às do mundo, tenho-as comigo: um sabor profundo de humanidade.” O autor não se põe como uma pessoa particular, mas sim como todos nós.
No decorrer da conversa, pude me deparar com “A suave face da criatura” um ponto crucial da conversa. Crucial, pois determinou a continuação daquele momento tão profícuo e inovador. Pois havia pouca paisagem a comtemplar naquela noite que, a cada página, abria-se em outra noite maior em um ritmo veloz quase de tirar o fôlego, nos mostrando que a noite escura da alma jamais vem sozinha, mas com um assombro mais intenso, montado ou não em seus cavalos ou em seus camelos imaginários. E por aí vai num galope alucinante com a vida, galopando e pulando os insondáveis abismos existenciais.
Dentro da conversa, pude ouvir o ladrar dos Cães da noite advindas das Galerias cheias de Janelas por onde entrava o sol, a ver no mar Jonas e a Baleia, até tentei entender as Letras para Lindanor e seguir Dédalo em sua trilha naquela Estranha Caçada, sendo eu um Sentinela das Histórias impensadas da Solidão. Porém, de súbito, algo me interrogou. “Que máscaras deixei nos becos da infância?” Pois não há como não voltar àquela época em que as histórias eram nos repassadas de forma que fortaleciam algumas crenças que hoje, quase não existem mais em nosso cotidiano.
Bem, O silêncio me trouxe um bom diálogo com um amigo e suas narrações. Um livro é sempre uma boa companhia em meio a tanto silêncio. Uma conversa imerge dentro do interior de nosso próprio interior. Mas que faremos nós quando o silêncio nos chamar os nomes, convocar-nos ao anonimato de nós mesmos? Que faremos quando as mil verdades nos deixarem só ante a verdade de estarmos sós e nada sermos?” Porém, desses mergulhos abismais, Braulino Magno em “A Janela por onde entrava o sol” parece retornar tranquilo e com mais compreensão das coisas intensas e breves mundo.
Eu poderia continuar falando da conversa que tive nessa noite, inclusive de alguns pontos inéditos que fecham esta noite, mas paremos por aqui. E torço para que, mesmo no escuro, o leitor se deixe guiar pelas narrativas do autor. Ele desvenda os caminhos e sabe aonde quer chegar.
Jorge A. M. Maia
UM PAPO EM SILÊNCIO
