Pede a palavra, meio a quase dois mil participantes, o representante de uma organização ambientalista não governamental Italiana. Cercavam-no, representantes de outras entidades inglesas e alemãs, que formavam um bolinho, meio ao repleto auditório e interrompiam na exata hora em que eu deveria falar.
Cedida a palavra, passou a ler um manifesto contra a minha presença e de meus companheiros no Foro Ibero Americano e principalmente na Universidade de Salamanca, berço da cultura da Espanha, onde acontecia o encontro. Acusavam-nos de sermos os grandes responsáveis pela destruição da natureza e por trazer desgraça e morte às comunidades indígenas, como ocupantes ativos e rebeldes à lei na Amazônia. Mal-estar geral!
A partir do momento em que leram aquele treco, até assustado, fechei toda a apostila impressa da conferência que havia preparado. Estudada, metódica e didática palestra, se acabava sem começar. Falaria de improviso e usaria o tom em que fora colocado o “educado” pré dialogo.
Contrariado, não cheguei a manifestar-me. Antes que o fizesse, o reitor de Salamanca, que presidia naquele instante a mesa, rompeu o barulho do silêncio que se formara. Começou dizendo, haver notado o radical comportamento de conservacionistas, ambientalistas e membros do Conselho Indigenista Missionário brasileiro ali presentes. Havia percebido que sequer, aproximavam-se de nós, ainda que muitos, em tais organizações, preferissem se achegar para troca de ideias, questionamentos e esclarecimentos de questões. Constrangidos não o faziam. Por quê??
Esse homem atalhara-me a palavra para uma brilhante resposta, que jamais eu esqueceria. Evidentemente, envaidecia-nos muito ser alvo da defesa do Magnífico Reitor. Não que fosse direta à minha pessoa, mas, por fazermos parte confirmada e desejada, naquele sacrossanto e milenar lugar.
Em nome de Salamanca, disse ainda, lamentar, que tivessem lido tal protesto em recinto do mais antigo foro educacional da Europa; logo ele, muito bem conhecido mundo afora por seu passado como possuidor de páginas históricas, pautadas sempre na manutenção dos direitos individuais. Mais ainda, com a democracia, mantendo oportunidade para divergências, inclusive com frequente audiência do contraditório. Tanto assim que, ali mesmo, teria estado Cristóvão Colombo, que deixou ao anonimato todos aqueles que o questionaram e o repudiaram, saindo de lá para entrar na história. Que ninguém jamais falara ali antes que a Universidade, no mínimo, cuida-se de verificar o valor da dignidade pessoal de quem quer que ali fosse para usar da palavra, mormente convidado. Que houvesse opiniões contrárias contra quem ou o que fosse, mas, que eu e as pessoas que ali se encontravam comigo, assim como eles que nos repudiavam, haviam sido responsavelmente reconhecidos pela Universidade como de boa fé e como tal, todos merecedores do convite para transmitir posições de vida, políticas e profissionais aos presentes. Concluiu dizendo, que por ventura, aqueles que pensassem assim, poderiam se retirar!
Completo silêncio. Seria necessária a emoção do momento, para melhor explicar e entender o maravilhoso e especial ato de defesa para nós todos, de uma instituição histórica como aquela.
Com o retorno da palavra, comecei bem por aí.
Agradeci a honra com que me deferiam Salamanca e mesmo os escribas leitores do tal manifesto, que, dirigindo-se àquele santuário para ler algo contra minha pessoa, até então inexpressiva no contexto geral, acabavam premiando-me, permanecendo no local para ouvirem o que eu iria dizer.
E ninguém se retirou…. Dissertei mais de hora sobre nosso país, nossa gente, nossos problemas. Enfoquei a realidade em que vivíamos, da qual não podíamos fugir nossas necessidades e o que pensávamos em como arrumar as coisas e resolver sem radicalismos as questões. Que poderia parecer diferente de outros países, mas era sempre a nossa forma, nosso jeito. Alguns com responsabilidade, outros até que, administrados com ar de indolência ou omissão, junto a muita inabilidade política, mas, como disse, do nosso jeito.
Quedei-me mais outra hora, a responder perguntas. Ao final, aplausos e como…
Lembro-me de que, ao retornar para casa, a mulher perguntou-me como eu havia me saído. Apenas respondi: –Não me “saí”; entrei em cantinho da história; vou guardar estes sapatos; pisei onde pisou Cristóvão Colombo!!!
E até hoje, como muitos dos grandes pequenos inteligentes também falam mal dele, por que não de mim? Sempre me sentirei consolado e em boa companhia…