Hotel Vanja, Belém do Para, numa madrugada de qualquer dia que se me permite a memória, do mês de maio de 1969. No salão refeitório, um senhor de idade, não muita, aguardava o despertar dos sonolentos paraenses, para abrirem a cozinha e servirem o café.
Não parecia nem de longe ser o grande magnata norte americano, Daniel Ludwig. Eu próprio o cumprimentei com aceno de cabeça sem a menor noção de quem seria. Não sei se pelo comprimento ou pela solidão do momento, convidou-me a sentar com ele enquanto aguardávamos os dorminhocos.
Não havia entendido bem seu nome, apenas o “Deniel”, mas o papo foi rolando com agrado, até que…
Adentraram dois pilotos fardadinhos impecáveis, comunicando que o avião estaria pronto para seguirem viagem. E era se me lembro, um velho DC-3 ou Curtiss Comander. Ele apenas disse a eles que se sentassem por ali e também aguardasse o café. E nós no papo de Brasil América, América Brasil, mas aí eu já estava bem desconfiado de quem era o gajo.
Breakfast tomado, nos levantamos, seus aviadores, num puxa saquismo desgraçado dizendo que lamentavam chover e Belém ainda não ter “fingers” de embarques. Ouviram na bucha, uma seca resposta: “este país ainda tem coisas bem mais sérias a gastar nessa região que tais confortos”.
Pensei comigo, esse é dos meus…
Saímos e ele ainda fez questão em deixar-me no aeroporto da aviação geral de onde eu seguiria em avião próprio para Manaus, e se foi para Val-de Cans. Despediu-se dizendo meu nome e convidando para um inauguração que viria a frente, de uma Usina ou algo assim. Outra vez o achei dos meus…
Atracado em meu destino, passei a procurar ler tudo que havia e era possível, sobre aquele magnata americano. Não havendo computadores muito menos a fofoqueira internet, parti para a Reader’s Digest, conhecida como Seleções. E não é que encontrei uma pérola de seu comportamento.
La contava que estando em seu escritório nos States, foi avisado da insistência de um idealista em ser recebido por ele. Se nomeavam “idealista” por não terem à época, o moderno meio de se ganhar dinheiro fundando Ongs. Essa pilantragem veio bem depois.
Mas, voltando ao chato insistente, ele por fim o mandou entrar e pacientemente o ouviu proferir a pergunta de como se sentia sendo um homem de riqueza tão farta, quando milhões passavam necessidades mundo afora. Segundo relato das Seleções, não deu outra. Mandou chamar seus contadores e que dentro dos tais milhões que diziam ele possuir, dividissem pelos também milhões citados da pobreza.
Vindo o resultado verificou que tal divisão daria um dólar e vinte e cinco centavos a cada um. De pronto o falcão americano meteu a mão no bolso sacou o valor e entregou com “elogios” ao questionante dizendo que pegasse a sua parte e se fosse a procura de trabalho.
Algum tempo depois chegou-me o convite para comparecer a anunciada inauguração no famoso projeto Jari. Não me recordo se seria da Usina termoelétrica ou da instalação da fábrica de celulose que viera navegando desde o outro lado do mundo, das ilhas japonesas. Isso depois do homem trazer dezenas de engenheiros florestais finlandeses e plantar não sei quantos milhares de arvores para melhor serventia a produção de papel.
Tudo isso após ter que corrigir erro de equipamento inadequado a seus investimentos. Os tratores Caterpillar D-9, excessivamente pesados aos solos amazônicos, onde afundavam sem parar. Um prejuízo danado.
Mas, fui lá assistir ao sucesso daquele Titã. Também lá estaria nosso Presidente da República e seu séquito. Gente, as pencas. O que me fez gastar uns litrões a mais de gasolina voando no circuito para cumprir o rito aeronáutico de preferência e segurança do senhor Presidente.
Entretanto valeu, o senhor Daniel ao ver me pelos fins da fila chamou-me ao cumprimento e dizendo meu nome. É, valeu de novo.
E não é, que em vista de um projeto de tamanha envergadura e sonho de um milionário que poderia tranquilamente dele prescindir, presenciei e ouvi de um marujo almirante comandante do não sei o que baixo Amazônia, chamar o carrancudo, não sorria, presidente e apontar num dos banheiros uma porcaria de pasta de dentes marca Crescent (nunca esqueci esse nome) e dizer que precisavam verificar se aquele item de consumo teria entrada legal no Brasil? Nada me veio a cabeça que não um “puta que pariu”. Isso aí vale a pena escrever assim, foi o que o impacto causou “in my mind”.
Bem mais tarde, perante a recusa do governo brasileiro em não consolidar o fabuloso investimento legitimando com entrega dos títulos de propriedade das terras ocupadas, ajuntando-se também em função disso a recusa de seus acionistas minoritários de investirem numa indefinita propriedade, o ex companheiro do paraense café matutino de priscas eras, vendeu tudo pela significativa quantia de um dólar. E foi-se embora deixando para traz: A…
Fazenda São Raimundo, que era então a maior produtora de arroz, acho que no mundo, coisinha pouca de 380.000 sacas por safra. Somando ainda a novidade em se criar um famoso peixe da Amazônia em cativeiro. O guloso pirarucu.
Amapaenses e gente do Norte, deveriam imaginar como estariam todos se projeto Jarí, prosperasse. Certamente até no Brasil da pior mediocridade se orgulharia.
Porém, tenho para mim, que se Mr. Ludwig tivesse lido a história de outros Titãs aqui pelo Brasil de Mauá a seu compatriota Percival Facquar, não teria não é tomado café comigo, mas nem de avião passaria por cima.
De Facquar então, que tristeza, que vergonha. Da iluminação do Rio de Janeiro, assim como construção da Madeira-Mamoré, cumprindo trato com bolivianos pelo Acre, o homem era um gigante empreendedor. Por ele e por inveja a ele, pariram o velho slogan de “yank go home”. E ele não foi, ficou logo ali no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro regressando em 1954, apenas para morrer em sua terra natal.
Embora parecesse dizer, “só saio daqui morto”, saiu, por não confiar muito no que haveriam de fazer seus maldosos detratores, em seu funeral.
Da bem a perceber que, exacerbados nacionalistas e apagados populistas mandatários, repudiam não só vitoriosas empreitadas, assim como também sentem perigos em proximidades com a inteligência alheia. Ainda mais se muito brilham.
Talvez, talvez, por isso, esse senhor Loirão das Américas, tenha preferido a força das armas para tratar com a insignificância que tem imperado.
Que Deus, apesar de nada a ver com isso, disso nos livre…
BH/GV/Macapá-22/03/2026
Jose Altino Machado

