Neiva era um grande político, tinha espírito público e, sobretudo, um temperamento revolucionário, o que fez com que chegasse ao extremo: quando Brizola criou o Grupo dos Onze, Neiva transferiu seu título do Maranhão para o Rio de Janeiro, acreditando que seria feita uma revolução com o Brizola. Conseguiu apenas ser cassado em 1964 e amargar quinze anos de exílio.
Era uma personalidade em ebulição, mas, acima de tudo, Neiva era um homem correto, honesto e idealista.
Ainda no Maranhão, naquelas lutas políticas sem quartel, fizemos uma conspiração para levantar a Polícia do Estado e derrubar o governador, que, naquele tempo, era interino — o meu colega de faculdade Eurico Ribeiro.
Para isso, contávamos com um oficial da Polícia, Coronel Gondim, que era muito exaltado e foi o escolhido para fazer o ataque, transformando-se no herói da Oposição, embora a rebelião tivesse terminado em nada, só na vergonha de o nosso herói ter saído preso: cumpriu 60 dias de cadeia por indisciplina.
Um dia, estávamos no Jornal do Povo, o Neiva Moreira e eu, quando o Coronel Gondim entrou assustado, pegou uma cadeira e sentou-se num canto da sala. Só ouvimos, do lado de fora, a sua mulher gritando:
— Saia daí, seu covarde, que eu quero te quebrar a cara com este sapato!
Abrimos a porta e vimos a esposa do Coronel Gondim — que o tinha flagrado no cinema com uma moça —, de sapato na mão, querendo invadir a nossa sala e espancar o nosso herói. Este estava amarelo num canto e pedia:
— Segurem a minha mulher! Segurem a minha mulher! Segurem a minha mulher!
Então, quando encerrou o expediente, eu disse:
— Hem, seu Neiva? Veja nossa missão: defender o nosso herói de apanhar da mulher!
Clóvis Sena, grande jornalista e intelectual, diretor de redação do Jornal do Povo, escrevia as manchetes. Nesse tempo, o jornal não era feito: acontecia. As matérias escritas eram compostas à mão nos tipos e montadas na página para serem impressas; página cheia, ia para o prelo. Cabia a mim separá-las e dizer aos leitores: “Segue na página tal.” Notícias internacionais vinham através de um rádio velho, ouvido com dificuldade por Clóvis Sena.
Um dia o nosso concorrente anunciou a queda do rei Faruk, do Egito, e a ascensão do General Nasser, que tanta influência exerceu no Oriente Médio. Neiva Moreira foi a Clóvis Sena.
— Não houve nada internacional que desse no rádio na noite passada?
— Só uns tirinhos ali pelo Egito, disse-lhe Sena.
— Pois é, seu dorminhoco, nosso concorrente dá em manchete a queda do mais antigo Governante da face da Terra, uma monarquia de cinco mil anos, nós não damos nada, e você ainda me diz que foram uns tirinhos no Egito!
Já naquela época o compromisso do jornalismo com a verdade era um problema. De novo, as fake news têm o nome e o descaramento dos que as manipulam ostensivamente.
Odylo Costa, filho, estava no Maranhão quando um velho jornalista, Zuzu Nahuz, publicou que o Senador Vitorino Freire teria sido agredido numa sessão do Senado. Vitorino reagiu com uma certidão de que no dia noticiado não houvera sessão na Casa.
Odylo, perplexo com o desmentido, perguntou a Neiva Moreira:
— O Zuzu é veraz?
Neiva respondeu-lhe:
— Pra cá, é.
E deu a justificativa:
— Essa certidão do Vitorino deve ser falsa!