Nunca antes na história deste país tivemos a Suprema Corte desgastada nas páginas dos jornais. A população percebeu isso, quando se noticia a falta de confiança por 51% das pessoas, segundo pesquisa Atlas/Bloomberg. Se a população brasileira é de 221 milhões de pessoas, então os 51% se transformam em 112 milhões de pessoas! Há coisas com preço e outras com valor. Qual o preço de um carro, um fogão, um quilo de picanha? Quanto vale conseguir andar com as próprias pernas, respirar sem o auxílio de aparelhos, se sentir seguro ao caminhar pelas ruas das cidades e a honra, o respeito, a liberdade, a dignidade? “Em Roma tudo está à venda” – disse Salústio, antigo historiador romano, que viveu Antes de Cristo, expressando que, ali, tudo era negociável e baseado em poder e bens materiais, contra a ética e a moralidade desejáveis. Se situação assim contribuiu para a decadência da poderosa Roma, o que poderia fazer conosco? De fato, quando a sociedade tudo permite, nada se salva! Mais ousado e contundente, o Marquês de Maricá (1773-1848), que foi Ministro da Fazenda e Senador, dentre outras elevadas funções, além de escritor e filósofo, escreveu que “um povo corrompido não pode tolerar governo que não seja corruptor”. Talvez a melhor frase a respeito seja aquela que diz que “a cada corrupto que conheci, o ponteiro do relógio dava uma volta, até que hoje virou ventilador”. Isso tudo reflete como o andar de cima opera corrupção por refletir valores comuns à sociedade, algo que também encontra lugar no anedotário, nos pensamentos e nas frases populares, como o “rouba, mas faz”; ser contra a corrupção dos outros; a fala do desafeto que afirmou para o político corrupto que a justiça foi feita, ao que este respondeu que, então, iria recorrer; a fala do político quando perguntado se a prefeitura ficaria livre da corrupção e disse que “sim, mas no próximo mandato”. Fato é que quem muito nos agrada, nos elogia, nos puxa-saco, algo quer de nós. Não existe almoço de graça. Na política, tudo tem interesse envolvido, nobre ou não. E sobre os princípios que devem reger a sociedade e os governos, certamente está o de agir com a impessoalidade e a certeza de que, quem quiser garantir a própria liberdade, deverá lutar até pela dos seus inimigos, pois, do contrário, o precedente alimenta o monstro da corrupção e do arbítrio, que a tudo é capaz de devorar, já que os monstros criados e bem alimentados costumam comer os próprios criadores. Noutras palavras, padecemos do que produzimos, assim como quando elegemos aqueles em quem votamos, pois, a partir daí, quase nada podemos fazer… ficando passivos e impotentes ao olhar estes nomearem aqueles e escolher outros que escolhem outros e outros… O que nos espera, adiante? Assusta-nos o volume de informações que nos chega diariamente, sobre este caso do Master. Mas é só um banco – diriam alguns. Sim, seria só um banco. Mas este banco, noticia-se, tem uma rede, longa, com malha grossa e pequena, que foi pescando e arrastando tudo o que encontrou pelo caminho, como nomes, pessoas, políticos, carreiras, cargos e instituições! Frequentemente se noticia que alguém graúdo estava no telefone com outro. A ou B, C ou D, não importa mais. Isso será investigado e julgado. Todavia, de nomes e nomes e outros nomes e nomes, pode-se chegar a um enredo, uma história, uma causa e um desfecho ou a vários contextos, interligados, entrelaçados e com tudo junto e misturado. Alguns falam por aí que teríamos até um Epstein brasileiro… De tantos nomes, talvez o que mais importe sejam os nomes que NÃO estão ligados ao caso, pois podem demonstrar, pela exclusão, que há um sistema operando. Naturalmente, este sistema seria includente para uns e excludente para outros – tudo, ao mesmo tempo. É um sistema que se confirma pelos nomes que a imprensa divulga e que as investigações e processos revelam. É um sistema curioso, que parece demonstrar que os valores mais elevados e que idealizamos talvez estejam com os NÃO incluídos… os perseguidos, combatidos, questionados, indesejados. Parece ter, mesmo, razão Aristófanes, que disse: “O povo tem medo de quem lhe deseja bem e adula quem lhe faz mal”. Voltamos a ouvir falar em quebra de sigilo, CPI, convocação de políticos, decisões judiciais que soltam e outras que prendem e liminar que suspende a quebra de sigilo de um ou outro. Junto a isso tudo, alguém foi anunciado como morto, por ter tentado suicídio. Se foi anunciado como morto, o suicídio não teria sido tentado, mas consumado. No dia seguinte, parece que a morte não se confirmou… A quem interessaria dar alguém como morto antes da morte? Me lembra até aquela história envolvendo o Juscelino Kubitschek que, sabemos, morreu num acidente de carro na Via Dutra, no dia 22 de agosto de 1976, embora a sua morte já tivesse sido noticiada antes (!), em 07 de agosto, quando se falou que teria morrido num acidente de carro na estrada, próximo à sua fazenda, em Goiás. Teriam “testado” a reação popular? Teria sido só um erro ou “fake news”? No caso do suicídio tentado e que se anunciou como consumado, teria ocorrido algo semelhante? Será que foi algum tipo de “recado” para alguém? Será que investigadores e julgadores têm com o que se preocupar na apuração dessas coisas todas? Será que nós, pessoas comuns, temos mais com o que nos preocupar? Em meio ao caos, a população parece perdida. Em quem confiar? Qual é a narrativa segura, onde está a verdade, onde está a senda do bem, onde estão as armadilhas? Talvez nos unamos como povo – com unidade, no orgulho da nossa nacionalidade – se a fatalidade de uma guerra mundial vier a nos cobrar a conta. Talvez, diante de um inimigo externo, que, de fato, não conhecemos na nossa história nacional, possamos compreender como a unidade do povo se forja na memória de grandes ocorrências históricas. Nos unir sob o comando do presidente da república para nos defender pode significar muita coisa, como o orgulho de se cantar o hino nacional e de se defender os símbolos nacionais e a pátria amada, percebendo que só com resistência e luta se pode ter a dignidade salva e que negociar corruptamente a liberdade de um povo significa condená-lo a se ajoelhar ante a expansão de outro país. É chegada a hora dos valores que precisam ser enaltecidos. É chegada a hora da honra, do foco, do cuidado com as finanças públicas, com o armamento da defesa do país, da proteção às questões estratégicas como o petróleo, os minérios de ferro e as terras raras, de se debruçar sobre os livros de história e entender como alianças reais por identidade e valores comuns se constituíram e deram certo, no lugar de acordos casuais e de interesses por valores menores, como o saque, a corrupção, o poder pelo poder, a imposição de ideologias e a subjugação de povos e nações. Nem tudo está à venda. Nem tudo é negociável. Nem tudo se compra com dinheiro. Algumas coisas se conquista com trabalho, fidelidade, amor à pátria, aos filhos, à família, à cidade e ao país. Essas são as coisas que valem à pena. Existem coisas comuns, coisas importantes, coisas relevantes e coisas fundamentais – sem as quais sequer existimos. Que as agendas por coisas comuns cedam às importantes, estas às relevantes e fundamentais. Triste é perceber, contudo, que tudo isso possa estar comprometido, pela torta realidade que nos impõe esse contexto trágico que envolve o banco e os seus tentáculos pela sociedade e pelo poder e instituições, pois acaba embotando a nossa energia e funcionando como cortina de fumaça a atrapalhar a visão dos elevados interesses estratégicos e de defesa nacional diante do mundo em iminente convulsão. Fazer de conta que não é conosco pode significar a ruína. A preparação é parte fundamental do jogo e ela passa por valores que estão presentes em cada um de nós, nos trabalhadores, nos sustentáculos da vida nacional. A Rita Lee cantou versos bem apropriados para estes tempos: “Como vai você? / Assim como eu / Uma pessoa comum / Um filho de Deus / Nessa canoa furada / Remando contra a maré / Não acredito em nada / Até duvido da fé”. Não percamos a esperança…

