O Século XX foi do petróleo, que está presente em quase tudo: no asfalto, no plástico, nos combustíveis e até no chiclete. Embora o petróleo continue moldando o Século XXI e a geopolí-tica, a preocupação com a água potável cresce, porque, sem água, não há vida.
Não bebemos petróleo. A água doce potável não é substituível e começa a rarear, no mundo. Embora, em teoria, a água nunca pudesse faltar, já que cobre cerca de 70% do Planeta, desenha-se um quadro grave já para o ano de 2.050, como consta do relatório “Falência Hídrica Global”, lançado em 20 de janeiro de 2026 pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade, das Nações Unidas, braço acadêmico da ONU. Pelo documento, o mundo entrará na era da falência hídrica global, pois rios, lagos e aquíferos estão colapsando, há escassez per-manente de água onde antes só havia secas eventuais, a demanda por consumo está superior à ca-pacidade natural de fornecimento e, em alguns lugares, ocorre contaminação, por patógenos e ní-veis elevados de toxicidade.
Com a falta de água aumentarão os riscos de conflitos. Além disso, a água é um produto difícil de ser transportado a granel. Como é carga líquida, precisa de tanques para o transporte em grandes volumes, os quais exigem rigorosa higienização e não devem ser utilizados para o transporte de outras mercadorias. Isso aumenta sobremaneira o custo do seu transporte, pois de-vem voltar vazios os caminhões ou navios utilizados para levar a água.
A nossa vivência aqui, neste imenso país, que é tão rico em águas e possui grandes rios e bons ciclos de chuva, parece negar essa realidade global. De fato, a nossa situação é incompará-vel aos níveis de poluição e à densidade de pessoas que há, por exemplo, na Índia, China e Ban-gladesh.
Quando se fala em hidrodemocracia, no sentido de democracia do uso da água, não se está focando exatamente no problema. A ideia é boa, mas a realidade contraria a sua viabilidade. Di-ante do que se avizinha, preferimos já falar em aquacídio, servindo o sufixo “cídio” para indicar as ações de matar ou destruir. Matando a água doce potável, mataremos a vida. Matando a água, matamo-nos. Neste sentido, mais do que hidrodemocracia, o foco será na sobrevivência das pes-soas e dos povos e nações, tal qual conhecemos, com as guerras por água tendendo a ser mais vi-gorosas e capazes de alterar a estrutura do mapa global, pois não se tratará de luta por riquezas ou comércio e, sim, pela própria existência. Por isso, é fundamental que a questão seja vista sob lente global, onde os números e parâmetros de aferição são, em muitos sentidos, indicadores de disfunções absurdas.
Apesar dos problemas mais graves estarem longe daqui, não passaríamos imunes às crises globais por água e o que se antevê para a década de 2.050. Os conflitos por água (e a fome) for-çarão o aumento das migrações em massa, que serão capazes de alterar o equilíbrio nos sistemas de saúde e de moradia e sobrecarregar as cadeias produtivas e os preços dos produtos. Em meio a tudo isso, temos a China, crescendo, crescendo e crescendo e tanto poluindo, a ponto de respon-der por cerca de 1/3 das emissões de gases. Parece que Napoleão estava certo quando, em 1.817, disse para deixarmos a “China dormir, pois, quando acordar, o mundo tremerá”.
De toda sorte, dirão alguns que, no passado, em vão ocorreram outros vaticínios negati-vos. Mas foram o aumento da área plantada, os investimentos na agricultura, a maior produção de alimentos e a melhoria no transporte e na conservação da comida que salvaram a humanidade da fome que Thomas Malthus, em 1.798, anunciava para o futuro.
Todavia, a questão da água doce potável é mais delicada. Na prática, em muitas regiões, ela não é mais exatamente renovável pois, apesar de ser passível de purificação pelo seu próprio ciclo, já que a filtração pelo solo e a evaporação são capazes de eliminar os sais e os elementos contaminantes, é perceptível que a poluição acentuada interfere nesse ciclo. Vivemos algo que o Planeta nunca presenciou, com a produção da enorme quantidade de dejetos e indesejáveis eflu-entes químicos, industriais e biológicos, o desmatamento ilegal que assoreia cursos d`água e di-minui a capacidade de infiltração das águas no solo e os poluentes atmosféricos que acidificam as chuvas.
A necessidade faz a hora e é por isso que, no mundo, avançam os processos de apropria-ção de água doce e das suas fontes, num fenômeno que os círculos doutrinários estrangeiros chamam de water grabbing, expressão que é passível de tradução por “Grilagem de Águas” – ob-jeto de estudos e artigos que publicamos desde 2.023.
Para quem acha que os problemas com água ocorrem em áreas desérticas, é bom relem-brar que até na Europa já ocorreram sérias questões com o fornecimento de água, como a seca in-tensa que afetou 1/3 das terras portuguesas, em 2.023. Além disso, importantes estudos indicam que apenas 0,007% das águas do planeta estão disponíveis para consumo, o que reforça que, em 2.050, cerca de 5 bilhões de pessoas podem ter nenhum ou pouco acesso à água potável e dar iní-cio aos processos de migração em massa. Quando se fala nisso, temos que entender a dimensão da questão, pois 5 bilhões é um número absurdamente grande por si só e cujo tamanho fica mais fácil de se perceber quando nós, brasileiros, nos lembramos de que a nossa população é de (ape-nas) 213 milhões de pessoas. Portanto, aquele número é cerca de 24 vezes maior do que o a po-pulação brasileira!
Não tratamos de teoria da conspiração ou pessimismo ou alarmismo. São os fatos e os prognósticos dos estudiosos e pesquisadores que nos trazem números extremamente preocupan-tes, capazes, também, de nos fazer perceber que serão mais cobiçadas as áreas que têm mais água doce potável e espaço territorial para absorver essas massas migratórias e produzir alimentos. Também entra na fórmula da cobiça a existência de bom clima e de matas e florestas hábeis a garantir os mínimos ciclos naturais saudáveis para a água. Não nos esqueçamos de que o degelo dos Andes contribui para a formação das águas de alguns dos rios da América do Sul, como o Amazonas – funcionando como uma fonte perpétua, que se soma à evapotranspiração da floresta amazônica. Ao se juntar cada fator aos demais, temos um conjunto que transforma a América do Sul – e, portanto, o Brasil – em área muito visada.
O mapa do poder está se redesenhando. As guerras em curso são travadas pelo controle dos circuitos do litoral de países da Europa e da Ásia, mas, essas guerras por energia e comércio não serão as únicas. A água doce – vital – entrará no jogo e, portanto, as próximas guerras ten-dem a envolver as áreas internas (dos rios, lagos e aquíferos) pelo controle da água doce potável.
A humanidade precisa encontrar um caminho que a livre da tormenta anunciada. Enquan-to isso, aqui precisaremos redesenhar as nossas estratégias de solidariedade e acolhimento, tanto quanto da segurança territorial e militar, sob pena de tropeçarmos no caminho da guerra, sem ter condições de nos levantar.
O aquacídio se apresenta, diante da utópica hidrodemocracia

