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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Giovana Devisate > As nuvens estão a salvo das bombas?
Giovana Devisate

As nuvens estão a salvo das bombas?

Giovana Devisate
Ultima atualização: 15 de março de 2026 às 06:46
Por Giovana Devisate 4 horas atrás
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Giovana Devisate
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A palavra ‘nuvem’ significa “aglomerado de gotas diminutas de água ou de cristais de gelo em suspensão no ar, que dão origem às chuvas” ou “qualquer acúmulo de pó, fumaça etc. no ar” ou “grande quantidade de coisas ou tristeza” ou, entre algumas outras possibilidades, “instalação de computação em rede que fornece serviço de armazenamento e processamento remoto de dados pela internet”, segundo definição do Oxford Language.

São nessas nuvens que abrigamos os nossos dados. Não só os pessoais, mas das nossas empresas, dos nossos projetos, das nossas vidas… Pessoalmente, confiamos nas nuvens as nossas fotos, os registros de família, alguns sonhos, muitos documentos e tantas informações importantes sobre nossas vidas. A gente se acostumou a usar esses espaços digitais para guardar registros cruciais e acreditamos que tudo está seguro “lá em cima”.
Os hospitais, os bancos, os sistemas de segurança, a ciência, tudo acaba por morar nesses espaços também. Até o diploma das universidades hoje em dia é digital! Quando me formei na primeira faculdade, em 2020, recebi aquele tradicional, impresso em papel moeda. Quando concluí a segunda graduação, em 2024, recebi apenas o link com o diploma.
Os órgãos públicos também passaram a ocupar o mundo digital, para que os processos internos fossem mais práticos. A Defensoria Pública, por exemplo, utiliza arquivos digitais e plataformas online para atendimentos, envio de documentos e acompanhamento de casos, através de aplicativos, sites e plataformas específicas.
Falamos de coisas pessoais, mas também do coletivo, da sociedade. Estamos delegando a memória da humanidade para empresas privadas, confiando plenamente que tudo estará seguro para sempre. Porém, me pergunto: onde ficam essas nuvens, como esses dados são mantidos?
Sabemos, claro, que os dados não ocupam um espaço abstrato. Existem galpões com servidores, cabos, grande infraestrutura, logística, necessidade de energia constante e mecanismos de resfriamento de máquinas para manter tudo funcionando perfeitamente. No entanto, onde estão localizados os centros de armazenamento desses dados? O que acontece com o mundo se, com a guerra que vivenciamos, um desses espaços for atingido por uma bomba? Como fica a nossa história?
A memória mundial está nas mãos de grandes empresas, das quais os governos também dependem. A partir disso, penso em como estamos vulneráveis e em como coisas importantes para nós estão desprotegidas. Para além da guerra, de nos preocuparmos com nós mesmos, com o futuro do país e etc, é muito estranho que a gente precise se preocupar com coisas que parecem ser supérfluas, mas que nos levam a uma discussão muito mais profunda…
A humanidade sempre criou arquivos para preservar a sua memória. Pela primeira vez na história, esses arquivos pertencem majoritariamente a empresas privadas. Penso que, nos últimos anos, com o processo de virtualização da vida humana, aconteceu a privatização das informações e da história da humanidade.
Existe uma centralização de poder, visto que tudo está nas mãos de grandes empresas como Google, Amazon, Microsoft e outras e a proteção dos nossos dados não é do interesse dos países envolvidos nesses atuais conflitos. Já que grandes empresas e instituições ligadas ao governo também utilizam esses serviços, os espaços de armazenamento e processamento de dados tornam-se alvo. Isso faz com que esses data centers despertem interesse de invasões e ataques, já que se entende que existem informações valiosas para os países adversários.
Antes, a humanidade se munia de fotos impressas, cartas, arquivos físicos e documentos reais. Entre tantas formas de registro, inclusive os livros, a gente preservava a memória sem precisar pensar tanto sobre ela. Hoje, com tudo virtual, vivemos um momento de grande vulnerabilidade e por isso me pergunto o que acontece se um sistema desaparece. É uma nova fragilidade humana: a da memória transferida aos meios digitais.
Penso que, ainda que não haja ataque direto aos galpões, o digital depende de mineração de metais raros, de um consumo gigantesco de energia, de uso de água para resfriamento e que tudo isso se torna de mais difícil acesso em momentos de guerra. Em caso de falta de qualquer um dos itens fundamentais, por impossibilidade de distribuição ou até mesmo por causa de questões diplomáticas, como seriam mantidos esses espaços e tudo o que depende deles? No fim, ando me perguntando se quem guarda a memória da humana, entende a complexidade disso.
Vivemos uma mudança em relação a forma como a humanidade guarda sua própria memória e registra a vida. Essa vulnerabilidade nos coloca a pensar que, a partir do momento que maquinizamos as vidas, nos tornamos dependentes de uma estrutura mais frágil do que uma nuvem ao vento, que muda de forma e se transforma em outras coisas que preenchem a nossa imaginação. Posto isso, penso que o futuro dos arquivos da humanidade depende dos donos das big techs e de grandes empresários, que centralizam todas essas informações.
O que nos resta é ter esperança e, na medida do possível, salvar as nossas próprias memórias, imprimir documentos e fotos e cuidar para que possamos nos manter vivos no amanhã.

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