Semanas de Moda nunca são apenas sobre moda, desfiles ou roupas. A gente, através da moda, fala sobre tantas coisas e, quando ocorrem esses grandes eventos, se fala muito mais. Entre 14 e 18 de Abril, acompanhamos a Rio Fashion Week, após um hiato de 10 anos do evento na Cidade Maravilhosa!
Aproveitando toda a exportação da imagem carioca que vem acontecendo nos últimos tempos, o Rio de Janeiro voltou a ser parte do calendário da moda no Brasil, apostando na movimentação da cultura e na articulação internacional, com o objetivo de fortalecer a imagem do país, da cidade e da moda nacional. O evento aconteceu no Píer Mauá e o calendário incluiu showroom de marcas e rodas de conversa, além dos desfiles.
Não vou entrar nos detalhes técnicos dos desfiles ou analisar marcas específicas. Quero, hoje, falar que acompanhei a repercussão de alguns desfiles nas redes sociais e pude ver o burburinho que surgiu em relação a quantidade de influenciadores convidados, substituindo gente da moda no evento e, claro, modelos em desfiles. Essa discussão já é antiga, especialmente quando falamos sobre a passarela: há muitos anos já vemos influenciadores desfilarem, substituindo modelos profissionais e, muitas vezes, invalidando os seus esforços.
Particularmente, acredito que há espaço para todos e que marcas podem, sim, convidar famosos, influenciadores e artistas para desfilar, mas em momentos pontuais, como aberturas ou encerramentos e não como parte do casting principal. Isso se torna ainda mais sensível no nosso país, que historicamente revela as maiores modelos do mundo! Em um cenário que já apresentou nomes como Gisele Bündchen, Adriana Lima, Alessandra Ambrosio, Isabeli Fontana, Lais Ribeiro, Izabel Goulart e Carol Trentini, parece uma oportunidade perdida deixar de apostar e investir em novos talentos que estão surgindo…
Nesse rumo, muitas pessoas comentaram sobre o desfile da Blue Man, com influenciadores dançando na passarela, o que dividiu opiniões e reacendeu essa questão que já é tema de discussão há tanto tempo. Me lembrei de alguns anos, quando a Gkay lançou a sua marca de roupas e chamou vários influenciadores para desfilar. A Vanessa Lopes dançou na passarela, enquanto o Pedro Sampaio cantava. Na época, a galera da moda não levou o desfile a sério.
No caso da Blue Man, no entanto, acho que substituir modelos por pessoas com uma notoriedade ligada a popularidade nas mídias sociais seja um reflexo da mudança que a marca busca, de se aproximar mais de um público jovem. A Helô Pinheiro, eterna Garota de Ipanema, desfilou aos 82 anos e deixou o nome da marca na boca do povo, com um público emocionado por vê-la novamente na passarela. É um tipo de presença que carrega memória, afeto e história e que, por isso, potencializa o impacto do desfile.
Diferente desse efeito, também houve a escolha de colocar jovens influenciadores dançando e, nesse caso, a atenção se desloca da roupa e não cria uma identificação genuína com a narrativa, sendo negativo para a marca.
Esse movimento expõe uma mudança de estrutura do setor da moda, em que o capital simbólico das redes sociais passa a ser mais importante do que a tradição da moda, o que gera inquietações e questionamentos sobre até que ponto a moda está pronta para se democratizar de verdade. Me pergunto, no entanto, se não estão apenas buscando visibilidade e engajamento.
Outro questionamento que vi sobre a semana de moda do Rio foi em relação à estética apresentada na maioria dos desfiles, como se o que foi desfilado não representasse o país. A gente sabe, incansavelmente, que a mesma indústria que desfila beleza, carrega grandes responsabilidades. O que vemos na passarela é a ponta do iceberg. Antes daquilo que é apresentado, existe uma cadeia invisível, que envolve muitas mãos, mentes e etapas, muitos materiais e processos, muita pesquisa e desejo. A moda brasileira, como sempre falo, não é só roupa, já que ela é um reflexo da nossa cultura, da nossa gente, do nosso tempo.
Em junho de 2025, escrevi um artigo aqui que dizia que existe “o limbo da cultura de quem não ama a arte, mas acha que pode falar sobre” e que isso se estende para a moda também: “enquanto um país acredita que brasilidade é apenas o colorido, a estampa, o tropical, marcas nacionais e independentes não conseguem espaço genuíno…”
Vimos, na temporada, algumas marcas ganhando destaque e mostrando a sua identidade, se permitindo explorar as formas, as texturas, as cores e tudo mais que cabe no contexto da criação de marcas brasileiras, visto que vivemos em um país continental, que tem de tudo! Nesse mesmo artigo, falei que “a gente tem muitos conceitos estéticos genuinamente brasileiros e é necessário enxergar essa diversidade nisso também. A Mondepars não é menos brasileira que a Farm, que a Cris Barros, que a Osklen, que a Isabela Capeto, por exemplo” e cito também outras marcas que recriam a identidade da moda nacional, como Handred, Dendezeiro, Apartamento 03…
A moda não é só um espetáculo, mas um sistema. Por isso me incomoda profundamente a venda de ingressos e a forma como o acesso é aberto a quem não é da área, enquanto profissionais da moda acabam ficando de fora. Não faz sentido tratar o acesso aos desfiles como se fossem shows abertos ao público, com venda de ingresso, quando ainda não se consegue priorizar a presença de quem realmente trabalha no setor. Especialmente porque desfile de moda não deveria ser tratado como show de artista pop.
A Semana de Moda do Rio evidencia o poder da moda como linguagem cultural e pode ser um espaço de criação de desejo. Além disso, esse palco também levantou discussões sobre propósito: quem desfila, por qual razão? Quem vai, por quê? O que realmente sustenta a narrativa de um desfile? Acho que deixar parte da galera da moda de fora é uma estratégia também: quem não entende muito bem, acha qualquer coisa bonita, incrível, grandiosa.
Lembrei do Fashion Revolution, porque estamos justamente na semana das atividades, que desloca o olhar para além da passarela, propondo uma reflexão sobre responsabilidade, cadeia produtiva, futuro da indústria e tantas outras coisas. Com este texto, quero te provocar a pensar sobre as semanas de moda não só como espetáculo, mas como um sistema em que estética, ética, cultura, profissões e decisões precisam caminhar juntas.
Sobre desfiles e narrativas

