Quem mora no Amapá sabe que existe uma unidade de medida de distância que desafia qualquer GPS, mapa ou cálculo científico. Ela não aparece em livros de Geografia, mas é ensinada desde criança. Chama-se “bem ali”.
Se alguém pergunta:
— É longe?
A resposta dificilmente será em quilômetros. A pessoa apenas aponta com os lábios e responde:
— É bem ali.
O problema é descobrir o que significa esse “bem ali”. Pode ser cinco minutos. Pode ser cinco horas. É um mistério amazônico.
Aprendi isso da forma mais divertida possível.
Certa vez, eu, meu ex-marido, nossa filha e nosso filho resolvemos passar um fim de semana no Ariri, um lugar encantador no interior do Amapá. Como nenhum de nós conhecia o caminho, tivemos uma brilhante ideia: colocar nosso filho, Marco Kayke, então com 19 anos, como guia da expedição.
Na época, ele já conhecia o trajeto.
Hoje ele mora no céu, mas continua sendo o único ser humano que conheci capaz de transformar quilômetros em um eterno “já chegou”.
Saímos de casa por volta das sete da noite.
Meia hora depois, o pai perguntou:
— Kayke, tá longe?
Com a maior tranquilidade do mundo, ele respondeu, apontando com os lábios:
— É bem ali, pai.
Seguimos viagem.
Uma hora depois…
— E agora, tá longe?
— Bem ali.
Mais estrada.
Mais curvas.
Mais escuridão.
Mais silêncio.
E, claro…
— Tá longe?
— Bem ali.
A viagem virou praticamente um podcast repetitivo.
— Tá longe?
— Bem ali.
— Ainda?
— Bem ali.
— Tem certeza?
— Bem ali.
Por volta das onze da noite encontramos, finalmente, a entrada do ramal.
O pai respirou aliviado.
— Agora chegou?
Kayke respondeu, cheio de confiança:
— Agora tá pertinho.
Só que esse “pertinho” incluía mais uns quarenta minutos sacolejando pelo ramal e, para completar a aventura, mais meia hora de barco.
Quando finalmente chegamos à casa do nosso amigo, eu já tinha certeza de que, se Noé perguntasse ao Kayke onde ficava a arca, ele responderia:
— Bem ali…
Depois daquela viagem, ele nunca mais teve paz.
Virou piada oficial da família.
Qualquer coisa demorava cinco minutos e alguém já perguntava:
— Kayke… é bem ali?
Se a comida ainda estava no fogo:
— Tá pronta?
— Bem ali.
Se alguém esperava um documento:
— Vai demorar?
— Bem ali.
O “bem ali” do Kayke entrou para o patrimônio histórico da nossa família.
Hoje, quando lembro dessa história, dou risada sozinha.
A saudade continua enorme, porque a ausência nunca deixa de existir. Mas Deus, na sua infinita bondade, permite que algumas lembranças venham embrulhadas em gargalhadas.
E toda vez que alguém me diz que um lugar fica “bem ali”, eu sorrio.
Porque imediatamente vejo aquele menino de 19 anos, tranquilo, apontando com os lábios e convencido de que quarenta minutos de ramal e meia hora de barco eram praticamente a esquina.
Acho que, no fundo, ele tinha razão.
Para quem vive a vida com leveza, carinho e espírito de aventura, tudo realmente fica… bem ali.
O “Bem Ali” Mais Longo da História

