Há dias em que a vida parece caminhar normalmente. O café continua quente, o sol nasce no mesmo lugar, as pessoas seguem com pressa. Mas basta um perfume, uma música ou uma fotografia para o tempo parar. E, nesses instantes, meu coração volta a um lugar onde mora um menino chamado Marco Kayke.
Quem acompanha minhas crônicas sabe que gosto de escrever sobre as trapalhadas da vida. Gosto de rir das ironias do cotidiano, das aventuras que renderam boas histórias e das situações que, depois do susto, acabam virando motivo de gargalhada.
Hoje, porém, quero falar de outra coisa.
Quero falar de saudade.
Mas não daquela saudade que machuca sem deixar respirar. Quero falar da saudade que o tempo ensinou a transformar em ternura. Da saudade que ainda faz os olhos marejarem, mas também faz brotar um sorriso.
Meu filho, Marco Kayke, partiu cedo demais.
Era um garoto bonito, de sorriso fácil, cheio de planos e sonhos que ainda estavam começando a ganhar forma. Tinha um jeito único de iluminar qualquer ambiente. Era o palhaço oficial da família. Bastava ele chegar para as conversas mudarem de tom, porque sempre inventava uma brincadeira, uma imitação, uma piada sem graça que, curiosamente, fazia todo mundo rir.
Ele tinha esse dom raro de espalhar alegria.
Sua vida foi interrompida de maneira brutal. Um motorista embriagado e sob efeito de drogas o atropelou e roubou sua presença física deste mundo. Nenhuma mãe, nenhum pai, nenhum irmão está preparado para receber uma notícia assim. Há dores que não encontram palavras suficientes para serem descritas.
Mas existe uma verdade que o tempo foi me ensinando.
O amor não morre.
A morte leva o corpo, mas jamais consegue apagar a essência de uma alma bonita.
Marco Kayke continua vivo em cada lembrança, em cada história contada à mesa, em cada gargalhada que ainda ecoa quando alguém recorda alguma de suas travessuras. Seu jeito leve continua perfumando nossos dias, porque existem pessoas que passam pela Terra deixando muito mais do que lembranças: deixam amor.
E amor não conhece cemitérios.
Hoje, quando a saudade bate à porta, ela já não chega vestida apenas de lágrimas. Ela também traz gratidão. Gratidão por ter sido mãe de um filho tão especial. Gratidão pelos anos em que pude abraçá-lo, ouvi-lo rir e vê-lo crescer.
Tenho fé.
Uma fé serena, silenciosa e inabalável.
Acredito que a vida não termina na última batida do coração. Acredito que somos espíritos em caminhada e que a morte é apenas uma passagem para outra dimensão da existência. Essa certeza não elimina a saudade, mas muda completamente o seu significado.
Já não digo “adeus”.
Digo “até logo”.
Porque sei que um dia, quando também concluir minha jornada por aqui, encontrarei novamente aquele menino de sorriso largo, provavelmente fazendo alguma piada antes mesmo de me abraçar.
Até esse dia chegar, sigo vivendo, escrevendo, sorrindo quando consigo e chorando quando preciso. Levo Marco Kayke dentro de mim, não como uma ausência, mas como uma presença invisível que continua iluminando meus passos.
A saudade permanece.
Mas agora ela tem perfume.
O perfume da alma de um filho que o tempo jamais conseguirá apagar.
A saudade que aprendeu a sorrir

