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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Araciara Macedo > Uma bicicleta, duas Cibalenas e uma onça de farol alto
Araciara Macedo

Uma bicicleta, duas Cibalenas e uma onça de farol alto

Araciara Macedo
Ultima atualização: 11 de julho de 2026 às 19:41
Por Araciara Macedo 4 horas atrás
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Existem provas de amor que vêm com flores. Outras, com chocolates. E existem aquelas que vêm acompanhadas de uma bicicleta emprestada e uma boa dose de falta de planejamento.
Certa vez, eu estava sofrendo com uma daquelas cólicas menstruais capazes de fazer qualquer mulher reconsiderar todas as escolhas da vida. Meu então marido, cheio de boas intenções e absolutamente convencido de que estava prestes a mudar meu humor, anunciou:
— Vamos passear. Isso vai te fazer relaxar.
Achei lindo. Romântico até.
Quando ele disse que iríamos visitar uma comunidade quilombola, imaginei que pegaríamos uma carona com algum parente. Afinal, o lugar ficava longe. Não sei exatamente quantos quilômetros, mas de carro leva cerca de uma hora.
Doce ilusão.
A carona era… uma bicicleta. Emprestada.
Depois de engolir duas Cibalenas e confiar mais no remédio do que no plano do meu marido, subi na bicicleta. No começo até que a dor deu uma trégua. Quem não deu trégua foi o ciclista. De cinco em cinco minutos, ele parava para descansar.
— Só mais um pouquinho…
E eu pensando que, naquele ritmo, a menopausa chegaria antes da comunidade.
Saímos tarde de casa, sem calcular o tempo. Quando finalmente alcançamos a entrada do ramal, a noite já tinha engolido tudo.
E que noite!
Não havia lua. Nem estrela que resolvesse colaborar. Era um daqueles breus que fazem a própria sombra pedir desculpas por não aparecer.
Agora preciso fazer uma confissão: eu tenho um medo absolutamente irracional de escuro. Não é medo. É pavor. Terror. O tipo de medo que transforma qualquer galho em assombração e qualquer barulho em filme de suspense.
Agarrei no braço dele com tanta força que o pobre não sabia se empurrava a bicicleta ou me carregava.
Foi então que aconteceu.
Olhei para trás e vi dois pontos brilhando no meio da escuridão.
Meu cérebro não pensou duas vezes.
— UMA ONÇA!
Comecei a chorar antes mesmo de a suposta fera decidir se gostava ou não de carne humana.
Os dois olhos brilhantes vinham se aproximando. Meu coração já tinha pedido demissão quando, de repente…
…a onça acendeu o farol alto.
Era um carro.
E dentro dele estava justamente um tio do meu ex-marido, que, por uma coincidência daquelas que só acontecem em histórias engraçadas, passava por ali.
Ele ofereceu carona.
Só havia um pequeno detalhe.
Não cabia a bicicleta.
A solução parecia simples:
— Eu levo você, e ele termina o caminho pedalando.
Olhei para meu marido. Olhei para a escuridão. Lembrei da onça imaginária que, na minha cabeça, continuava morando naquela estrada.
Respondi na hora:
— De jeito nenhum!
Ou nós dois íamos juntos, ou ninguém ia.
Depois de muita conversa, escondemos a bicicleta no mato e seguimos todos no carro.
Nunca que eu deixaria meu maridinho sozinho naquela estrada.
Vai que, justamente naquela noite, a única onça da região resolvesse aparecer…
Hoje, sempre que lembro dessa aventura, dou risada até perder o fôlego.

A cólica passou. O casamento, não. Esse acabou anos depois.
Mas a lembrança da bicicleta emprestada, da noite sem lua e da onça que virou farol continua sendo uma das histórias mais engraçadas da minha vida.
E, pensando bem, talvez aquele passeio realmente tenha servido para aliviar a dor.

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Araciara Macedo 11 de julho de 2026 11 de julho de 2026
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