Hoje, Dia dos Pais, há que se atinar se tal distinção seria ideia dos corações de filhos ou apenas esperta jogada comercial. No fundo, bem no fundo, tem sentido se questionar. Um bocado bastante bom de filhos sequer aparece e outros se nos compram presentes, antes na moita, nos pedem cartões de crédito; dizendo que é para uma boa causa.
Memória de velho fica tal qual celular de pouca “gigagem”, trava toda hora, tantas são as passagens da vida a serem registradas. E a tais passagens, com a idade, se perdem nos escaninhos que se tornam pequenos para tantas coisas…por isso…
Não me lembro bem, se nestes meios de comunicação, já fiz amostragem de como foi construída nossa vida familiar, só sei que sempre foi gente as pencas. Assim, como a incrível coincidência, que meu tataravô, Pio Machado, vindo de Portugal, para São Braz do Suaçuí, próxima a São João D’el Rei, era garimpeiro. E “brabo” para danar. Mas, o assunto não é genealogia…é quantidade.
Do Pio, filharada de 9, do Võ Machado 12, do meu pai Altino 15, meus 8, dos meus, 14 e dos deles 6. Eita!!! Família que trepa bem, afff. Chegando aos últimos citados a partir do tataravô se vai a quase três centenas.
E posso dizer sem medo de errar, Deus nos deu uma ímpar felicidade e satisfação, linhagem sem vícios, carregada de homens valentes e enérgicas mulheres. Aliás, a exclusividade de autoridades máximas masculinas, sempre foram contidas pelo levantar-se de olhos das companheiras.
Em nossa geração, mãe, “ah mãe”, um poço de cuidado, carinho e severidade, dos doze que teve, “nóis”, aos três ou quatro primeiros era chinelo na bunda dia sim e outro também. E doía “pra” cacete. Com os demais, ela relaxou, mas assim…
Amanhecer com a roupa, com a qual foi dormir jamais. Palavrões, em casa nunca, sentar a mesa para comer sem camisa, boné ou chapéu a cabeça, dava início a temporada de faquirismo de jejum forçado.
Comemorações, festas da família, mesmo reuniões, para tratar de bens materiais do clã, às mesas ou reuniões, tudo separado, genros e noras para lá e filhos para cá. E as explicações eram convincentes, se discussões ou “brigas” acontecessem, entre os irmãos, acabadas as falas, sairiam rindo numa boa e tudo ali se acabava. Ao passo que agregados familiares poderiam tornarem-se magoados de alguma forma levando consigo filho ou filha dela, dando início a dissolução familiar.
Excelente escritora, formada em jornalismo, apesar de toda a severidade, tinha um senso incomum de justiça. E com tudo isso ainda foi presente nas atividades rurais iniciadas por meu pai.
E por falar nele, já que o dia é comemorativo a pais como ele, era um homem do caral…. de formidável dignidade. Militar com respeitoso comportamento aos humildes que se lhe achegavam. Extremamente justo, jamais aceitando intolerâncias, injustiças aos fracos ou covardias a subjugados.
Extremamente forte, musculoso, faixa preta de jiu-jitsu, não abusava de sua força. “Milico” diferente, detestava soluções armadas. Armas então, apesar de ser bom atirador, preferia por não as usar, mas sempre sabia onde elas se encontravam.
Nunca, mas nunca ouvi alguém o chamar de você; sem que jamais impusesse tal tratamento.
Nos convívios sociais, era a nós um castigo andar com ele. Qualquer que o chamasse parava no instante, “pois não” e se a gente o apressasse ele admoestaria dizendo:” de sorte que deixe este senhor terminar de falar o que quer me dizer”. E ainda vinha acompanhado de um indefectível “espere um minutinho”, sempre minutões que ficaram conhecidos cidade afora como o minutinho do Coronel.
Coisas importantes ensinou a nós todos. Nos fazendo chegar a adultos valorizando sempre aquilo que as pessoas têm de bom, relevando sempre suportáveis defeitos. Como ele dizia: “do bom trabalhador, se apenas as unhas dos pés nele prestarem, que apenas a elas observássemos.
E ia por aí com outros tantos ditados. Nunca discutam sem razões, com tolos e jamais mantenham diálogos com aqueles que não querem ouvi-los. Havendo outros de dúbios entendimentos, como:” não deixem nunca seus inimigos saberem que vocês são inimigos deles; pois senão quando precisar eles jamais entrarão em um carro com vocês”.
Até hoje fico a imaginar o que queria bem dizer isso aí.
Militar da sempre revolucionária PM mineira, saiu-se herói da batalha do túnel contra os desassossegados paulistas, de la vindo condecorado, junto a um capitão médico de nome Juscelino Kubistchek.
Também aviador civil, requisitado com seu avião Porter Field pelo exército brasileiro, em companhia do General Falconiére, lhe coube proceder ao traçado da ex Rio Bahia, hoje Br-116, da divisa mineira com o Rio de Janeiro até a divisa da Bahia. Tudo com urgência urgentíssima para evitar ataques de submarinos alemães na área costeira.
Sempre transpirando cheiro de Av-gás, (gasolina de aviação) desde 1929, contaminou a todos nós seus filhos homens a sempre procurarmos a melhor aventura e vida pelos ares; Bem por isso, o aeroporto de Governador Valadares, leva seu nome.
Embora, também como ele, todos nós sempre adoramos as estradas. Razões por que, ceus e caminhos, acabaram por levar meu espírito para a Amazonia; conquanto saudades sempre me trouxessem, em voltas às gostosas mineiridades.
Inspirava muito respeito a tantos que lhe achegava, mas jamais temor. Mas, com tudo isso, nunca, jamais encostou como castigo a mão em um filho seu, considerando também nunca que alguém viesse a fazê-lo enquanto vivesse.
Percorreu ainda a cavalo, por todo leste mineiro até chegar ao avião. Neste estado poucas gerações atrás, muitos e muitos bastantes conheciam o Senhor Coronel Altino Machado D’Oliveira, ou nele ouviam falar.
Mas, um dia ao visitar-me, senti-me orgulhoso e emocionado ao ouvi-lo dizer- “em Minas e nas Gerais, você, por anos, sempre foi o filho do Coronel, mas aqui nesta vastidão amazônica, vejo que sou o pai do JOSÉ ALTINO MACHADO.
Não só neste dia, mas em todos, onde quer que o senhor esteja: “BENÇA” PAI.
BH/Macapá, 09/08/2026
José Altino Machado

