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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Giovana Devisate > Das viagens à Lua à fantasia do autocuidado
Giovana Devisate

Das viagens à Lua à fantasia do autocuidado

Giovana Devisate
Ultima atualização: 9 de agosto de 2026 às 10:30
Por Giovana Devisate 9 horas atrás
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Giovana Devisate
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Recentemente, ouvi algo que passou a ocupar grande espaço em minha mente: a gente primeiro foi para a Lua, para depois querer conhecer o nosso corpo. Acho humanamente impossível ouvir algo assim e não ser impactado!
Quem disse isso foi o Fábio Monnerat, em uma palestra que assisti, promovida pelo Rio Ethical Fashion, no Rio Innovation Week. O tema era “Moda e esporte: performance, estilo e propósito” e participavam, além do Fábio, que é especialista em branding, o Felipe Metsavaht, da Osklen, o Lucas Rodrigues, da Kenner e a Rafaela Pinah, da Coolhunter Favela.
Isso me fez perceber que todas as palestras que assisti no evento, neste ano, falaram sobre temas diferentes, mas que, no fundo, giravam no meio eixo: o autocuidado e como isso impacta o consumo e o mundo.
No esporte, isso anda de mãos dadas. Cuidar da saúde, hoje, é sinônimo de autocuidado e o universo wellness ganha muito com o fato de estarmos alinhados com o propósito de vivermos melhor, por mais tempo, com mais saúde e disposição.
Na quarta, no mesmo evento, assisti a uma palestra com Thais Farage, Flávia Alessandra e Marina Roale, sobre “Consumo feminino na geração X”. Muito do que foi falado também aborda esses assuntos.
Depois de quinta, ao deixar o evento, com a frase do Fábio ecoando em minha mente, comecei a me perguntar se é tão mais fácil assim irmos para a Lua do que mergulharmos em nós mesmos. Contudo, me questiono se estamos olhando para dentro de verdade.
Emagrecer nunca esteve tão na moda. A estética magra de agora é ainda pior do que a estética que achávamos extrema, nos anos 90, com as modelos da era heroin chic. Andei comparando a Kate Moss daquela época com fotos de atrizes de Hollywood atuais e a diferença é discrepante. A estética da magreza está tão absurda que até o visual daquela época parece saudável…
Ariana Grande, recentemente, virou alvo de grandes discussões na internet por causa do seu novo clipe, no qual aparece tão magra, que aparenta não estar saudável. Eu já havia falado sobre isso em Junho, em um artigo chamado “O looping do excesso” e poderia citar o nome de muitas mulheres de Hollywood que também estão com essa mesma aparência preocupante.
Eu sei que não devemos falar sobre o corpo de ninguém, mas a partir da premissa de que essas pessoas influenciam outras milhões, é fundamental que possamos alertá-las de que algo não anda bem.
Hoje, já temos dados que mostram que as canetas emagrecedoras passaram a impactar nas grades de roupa das lojas. Têm saído mais PP e P do que tamanhos grandes! Também estamos tendo impacto em outras áreas: já falaram, por exemplo, sobre a economia de combustível que as canetas emagrecedoras estão promovendo para as empresas aéreas, visto que os aviões estão ficando mais leves. Já observei, ao sair para comer, que alguns restaurantes já estão dando a opção de porções menores, para os usuários das canetas.
O universo do bem estar está ganhando cada vez mais espaço, mas ainda me pergunto a que custo. Atividades físicas em excesso também podem se configurar como transtorno alimentar e, muitas vezes, confundimos os nossos limites com os limites dos outros, porque tudo fica mais confuso, comparativo, fácil de ser visto com as redes sociais.
Recentemente, vi um vídeo de uma jovem contando sobre ter ingerido ovos de tênia para emagrecer. Sim, tênia, um verme que também chamamos de solitária. Ao procurar sobre isso, descobri que tem tido notícias recorrentes sobre o assunto, com alertas de vários médicos sobre os riscos da ingestão do verme.
Existe uma história sobre esse comportamento: historiadores relatam que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, algumas pessoas recorreram deliberadamente à ingestão de tênias para emagrecer. O fato desse comportamento, de certa forma, sobreviver até hoje, é a prova que ainda é grotesca a maneira como nos relacionamos com nós mesmos. Aceitamos todos os riscos para chegar perto de um ideal de beleza que muda a cada tanto e nos faz viver em uma corrida que não tem fim.
A ideia de abrigar voluntariamente um parasita para perder peso parece tão absurda que produz, ao mesmo tempo, incredulidade e curiosidade. O espanto, entretanto, talvez venha menos da prática em si do que da confortável ilusão de que pertencemos a uma época mais racional, com mais acesso à informação e, por isso mesmo, menos vulnerável às promessas fáceis. Por isso, para mim, é tão difícil entender por qual razão algumas narrativas continuam atraindo seguidores.
Cada época inventa seus próprios rituais de pertencimento. Durante séculos, o corpo feminino foi comprimido por espartilhos capazes de deformar costelas e limitar a respiração em nome de uma cintura considerada elegante. Em diferentes momentos históricos, cosméticos continham compostos químicos que, atualmente, sabemos que são tóxicos. Cigarros, há 100 anos, chegaram a ser anunciados como auxiliares no controle do peso.
Hoje em dia, existem muitos outros artifícios que ainda são nocivos. Mudaram os instrumentos, sofisticaram os discursos, ampliaram os recursos tecnológicos, mas a lógica de que o corpo deve ser continuamente corrigido, aperfeiçoado e aproximado de um modelo cuja principal característica é permanecer sempre um pouco além do alcance, continua a mesma.
Entendi que vamos continuar indo para a Lua, até para Marte, talvez, mas ainda não vamos estar cuidando bem o suficiente da gente.

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Giovana Devisate 9 de agosto de 2026 9 de agosto de 2026
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