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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Giovana Devisate > O pra sempre, sempre acaba?
Giovana Devisate

O pra sempre, sempre acaba?

Giovana Devisate
Ultima atualização: 21 de junho de 2026 às 07:49
Por Giovana Devisate 6 horas atrás
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Giovana Devisate
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Quase todos os meus amigos são tatuados. Eu também sou. No entanto, nos últimos anos, tenho observado uma mudança curiosa: as gerações mais jovens parecem menos interessadas em marcar o corpo de forma permanente. Ou melhor: elas estão menos focadas no que é duradouro. Para elas, o “pra sempre” não existe.
Eu comecei a me tatuar aos 18 anos, com uma bem pequena e, aos poucos, fui fazendo algumas maiores. Tem anos que não faço uma tatuagem nova e a última, inclusive, foi bem pequena, feita em uma festa open bar que fui em São Paulo. O ano era 2022 e decidi, no evento, junto com uma amiga de infância, tatuar um aviãozinho de papel.
Adoro todas as minhas tatuagens, especialmente a gigante que cobre a parte externa do meu braço direito. Feita em 2019, esta tatuagem reúne a Medusa e a Vênus de Milo. O trabalho, realizado pelo tatuador Bernard Klein, levou quase nove horas para ser concluído. Ele é um verdadeiro artista.
Na época, as pessoas se assustaram ao me ver com o braço quase fechado por uma tatuagem tão grande e escura. Num geral, elas achavam que a tatuagem não combinava comigo, porque sou muito pequena e delicada, porque cresci no ballet e algo assim não estaria de acordo com a minha imagem ou por qualquer outro motivo… Hoje em dia, no entanto, quem me conhece e convive comigo acha que ela combina demais com a minha personalidade, que ela consegue representar algumas partes de mim que não são tão óbvias, mas que estão em equilíbrio com todo o resto.
Essa reação sempre me fez pensar sobre o papel que o corpo ocupa na construção das identidades, especialmente em como a tatuagem é um artifício de comunicação tão eficiente. Partindo disso, confirmamos que o corpo é social: ele ocupa um lugar de produção de identidade, funcionando como matéria de discurso. Isso acontece de diferentes maneiras, desde os primeiros grupos sociais, quando signos foram desenvolvidos como linguagem através de pinturas, vestes, próteses e ornamentos, dentro das culturas específicas nas quais as pessoas estavam inseridas.
Por pinturas, consideramos os grafismos dos povos indígenas, por exemplo, mas também maquiagens e tatuagens. Essas coisas modificam a nossa aparência e imprimem, no corpo, para a sociedade, os gestos, os gostos, os desejos, as fantasias, as escolhas, tanto como a moda por si só é capaz de fazer. É a partir da construção da própria imagem que expressamos as subjetividades.
Lipovetsky e Serroy, em A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista, dizem que “o individualismo se manifesta com muito mais visibilidade hiperbólica nas práticas contemporâneas da tatuagem e do piercing” já que, desde a antiguidade, o corpo foi “tatuado, ornado, escarificado de acordo com práticas mágicas e religiosas que inscreviam o pertencimento social e assinalavam a entrada dos jovens na idade adulta”.
Svendsen, em Moda: uma filosofia, diz que as tatuagens são um fenômeno paradoxal de moda, porque “enquanto em sociedades não ocidentais elas desempenham em geral um papel como identificadores de grupos, nas sociedades ocidentais modernas são interpretadas, ao contrário, como uma afirmação da identidade”.
Isso tudo nos indica como a escolha da tatuagem é algo pessoal, atrelada ao que se é, ao estilo, à personalidade, à estética de quem tatua e é tatuado. O que é registrado no corpo diz muito sobre o que somos, ainda que seja nos detalhes. Cada característica entrega um pouquinho mais sobre nós e, através disso, percebemos que o corpo é considerado parte da linguagem do indivíduo e da sua identidade pessoal, porque o estilo é a essência que transborda, é o jeito que se traduz o modo de cada um enxergar e habitar o mundo, para si e diante do outro.
Quando eu era mais jovem, a tatuagem parecia ter mais espaço na externalização de si. Isso vem mudando, possivelmente em razão do crescente conservadorismo e da necessidade cada vez maior de pertencimento aos grupos sociais. A imagem, hoje, expressa a subjetividade de uma forma distinta da que conhecíamos, visto que, como já falei em outros artigos, as pessoas estão perdendo um pouco o interesse em ser diferentes e individualmente autênticas.
Acho que as redes sociais estão incentivando uma espécie de pasteurização, de neutralização da personalidade, causando uma estética mais homogênea, o que faz com que as pessoas, especialmente os jovens, queiram se infiltrar e se parecer com o grupo, com o todo, buscando se camuflar entre os outros, através das tendências de comportamento e de consumo de massa.
Na academia, observo as meninas mais novas. Todas carregam a mesma garrafa branca da Stanley, vestem variações da mesma roupa, usam as mesmas marcas e compartilham referências visuais semelhantes. Nenhuma tem tatuagens ou piercings. Acho que, no máximo, fizeram o segundo furo. Fico pensando no que essa uniformidade diz sobre o nosso tempo.
O curioso é que isso acontece exatamente quando observamos um aumento do conservadorismo. Ao mesmo tempo, penso que, para a nova geração, nada pode ser definitivo. Acredito que exista uma relação diferente com o tempo, com uma geração que busca por pertencimento e não por destaque ou diferenciação.
Lipovetsky e Serroy falam que “ao não jogar o jogo da versatilidade da moda, mas, ao contrário, o da duração do ‘para sempre’, a tatuagem se torna o instrumento da singularização pessoal, da extrema personalização da aparência individual” e esse registro explica como essa tendência recente das pessoas se desinteressarem pela tatuagem se dá.
Talvez o crescimento dos procedimentos de remoção de tatuagens revele menos um arrependimento individual e mais uma mudança na forma como nos relacionamos com o próprio corpo. Em uma época marcada pela atualização constante da imagem, até aquilo que antes simbolizava permanência passa a ser percebido como algo transitório.
Em uma época em que o corpo passou a ser visto como espaço transitório e de transformação, a tatuagem perde espaço, porque o definitivo não é a primeira escolha. Para quem se tatuou, o ‘para sempre’ pode acabar, com a possibilidade da remoção das tatuagens. Para as novas gerações, o ‘para sempre’ nem existe. Uma parcela das pessoas que têm tatuagem, passa a desejar apagar. Uma parcela das pessoas que não têm, não deseja fazer. Enquanto isso, as gerações mais novas, que se espelham com tanta força nas redes sociais, estão perdendo a chance de serem elas mesmas.
Se o corpo sempre foi um espaço de construção da identidade, me pergunto o que acontece quando passamos a evitar tudo aquilo que nos diferencia, através do corpo, do consumo, da moda e, também, do pensamento, das ideias e das atitudes?

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