Demorei dois anos para ler o livro A redoma de vidro. Ou melhor, tive duas tentativas de leitura ao longo desse tempo. Primeiro, comecei em 21 de Maio de 2024 e não consegui parar de ler, até que alguma coisa espetou o meu coração e decidi largar o livro. Ficou pesado e doído demais, por alguma razão que não sei descrever.
No final de Maio de 2026, dois anos depois, decidi recomeçar. Dessa vez, finalizei a leitura. Precisei de coragem para realizá-la, mas não me arrependo. Só acho louco me identificar com a personagem em tantos momentos e entender as emoções que Sylvia descreve, através da Esther, como se me olhasse em um espelho. Assim como também acho louco gostar tanto das músicas e letras da Lana del Rey, que inclusive cita a autora em alguns momentos de sua carreira.
Em uma de suas músicas, chamada Hope is a dangerous thing for a woman like me to have, but I have it, Lana diz “Eu estive rasgando a porra da minha camisola, 24 horas por dia, 7 dias por semana, Sylvia Plath. Escrevo com sangue nas paredes porque a tinta da minha caneta não funciona no meu bloco de notas. Não pergunte se estou feliz, você sabe que não estou, mas, na melhor das hipóteses, posso dizer que não estou triste porque esperança é uma coisa perigosa para uma mulher como eu ter”.
Na mesma música, ela também fala que é uma mulher moderna, mas instável, por ter monstros debaixo da sua cama com os quais nunca poderia lutar, mesmo sendo adulta. Eu acredito que existe uma delicadeza brutal nas músicas da Lana e, também, nas passagens do livro. O que Sylvia Plath descreve em A redoma de vidro é uma mulher à frente do seu tempo, que sente não se encaixar e, por isso, adoece. Esther Greenwood, personagem principal, é como um alter ego de Sylvia Plath que, semanas depois da publicação do romance, tira a sua própria vida ao se intoxicar com monóxido de carbono, deitando a sua cabeça no forno, depois de tomar alguns remédios. Ela tinha 30 anos.
No decorrer da história, vemos como ela é uma personagem complexa, cheia de conflitos, que almeja um equilíbrio impossível entre quem ela é, quem deseja ser e quem a sociedade, nos anos 1950, espera que ela seja como mulher.
Inteligente e ambiciosa, Esther escreve muito bem e, por causa disso, é selecionada para um estágio em Nova York, em uma revista de moda. Ainda assim, ela não consegue imaginar um futuro para si e sofre inteiramente com o fato de querer independência e realização profissional, mas viver num período em que as mulheres precisam colocar as próprias vontades em segundo plano, para construir uma família e ter filhos.
Por causa disso, ela questiona fortemente as regras sociais, as posições em que é colocada no trabalho e a forma como os homens a subjugam. Em seu mundo ideal, ela poderia ter uma carreira e construir uma família, sem que um desejo fosse impeditivo do outro.
Conforme a história flui, vemos Esther, que já não via sentido em tantas coisas e já não se sentia ela mesma desde o início da narrativa, se aprofundar em sintomas depressivos. Ela perde por completo o interesse pela vida, passa a não dormir, a não comer, a não tomar banho… até ter pensamentos suicidas e, em certo momento, realizar uma tentativa mal sucedida.
Esther, algumas vezes, é submetida aos famosos eletrochoques, coisa que Sylvia também viveu. A personagem, em certo momento, diz que “alguma coisa dobrou-se sobre mim e me dominou e me sacudiu como se o mundo estivesse acabando. Ouvi um guincho, iiii, ii, ii, ii, ii, o ar tomado por uma cintilação azulada, e a cada clarão algo me agitava e moía e eu achava que meus ossos se quebraram e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio. Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de tão terrível”.
Ela só não era como a maioria das pessoas, mas algumas mulheres que fugiam das normas e demonstravam alguma instabilidade mental, naquela época, eram levadas aos manicômios e eram, inclusive, submetidas aos eletrochoques. Elas não precisavam ter feito nada de terrível.
Acho que muitos leitores se identificam com a personagem porque ela expressa o medo de fazer a escolha errada, a pressão para corresponder às expectativas sociais e da família, a sensação de estar perdida e de não encontrar sentido nem mesmo ao conquistar algo que almejava.
Quase no meio do livro, uma cena importante faz a vida da Esther desandar um pouco mais. A cena não é descrita como uma tentativa explícita de estupro, mas pode ser interpretada como uma violência, já que escancara o medo, a vulnerabilidade e a perda de controle que Esther vive, ao passo que um homem, que ela descreve como misógino, a agarra, a beija à força e até rasga o seu vestido.
Esse vestido ganha um papel importante nas páginas seguintes, já que representava uma imagem idealizada de Nova York, do glamour e do sucesso, tornando-se apenas mais um recorte de todas as vezes que Esther tenta sonhar, mas é levada ao chão. Ela decide jogar o vestido fora, o dando a liberdade de voar pela janela, enquanto ela rejeita aquela versão traumatizada de si mesma e se aprisiona ainda mais em suas dores, se sufocando em sua própria redoma de vidro.
A redoma, inclusive, é algo que muitas pessoas do século XXI conhecem: uma cápsula invisível que nos separa do mundo. Mesmo quando tudo parece bem do lado de fora, nos sentimos presos, sem conseguir respirar ou participar plena e ativamente da própria vida. A personagem, por exemplo, diz que o ar da redoma a comprimia e ela não conseguia se mover, que ela tinha medo de que, ao melhorar um pouco, a redoma de vidro descesse novamente sobre ela, com suas distorções sufocantes.
Acho o livro um pouco cansativo de ler, porque a personagem é confusa. Os assuntos não se encerram, mas são abruptamente mudados. Acredito que isso aconteça porque a autora retrata os acontecimentos traumáticos de Esther da mesma forma que a personagem os vivencia: desorientada, fragmentada, instável, de forma intensa.
No entanto, é um bom e difícil livro, com muitos gatilhos. Sem um fim determinado, imagino possibilidades difusas para o futuro da jovem Esther. Será que o fim dela é o mesmo que o de Sylvia? Ou será que a Esther, ao se ver um pouco livre da redoma, consegue escapar de vez e construir um futuro diferente?
A Esther faz algo que entendo como genial e fundamental nesse processo de cura: ela tenta lembrar a si mesma de quem é, sem nenhuma projeção do futuro ou pensamento sobre o passado. Somos, afinal, no presente, a nossa história completa que se constituiu com todos os passados. Ela repete “eu sou, eu sou, eu sou” e isso me parece uma breve recuperação de consciência, quando ela reconhece que continua existindo, mesmo que não saiba mais quem é, mesmo que tenha se perdido no caminho, mesmo que não se conecte mais com a sua própria identidade.
Ela é, no presente, aquilo que se pode ser. A redoma a faz sentir desconectada do mundo e de si mesma. Quando ela diz, repetidamente, “eu sou”, se concentra apenas no fato essencial de si, da própria existência e, por alguns instantes, isso basta.
Eu sou, eu sou, eu sou

