Vivemos em um país onde a água é um recurso abundante. A mor parte da nossa população sequer se preocupa com a origem da água que consome, no momento que se abre uma torneira lá vem a água e ninguém se preocupa em filosofar, simplesmente a usam nas suas diversas utilidades.
Mas isso não ocorre em muitos países, em 5 de agosto de 2026, no início deste verão, um artigo de opinião publicado no Orange County Register, intitulado “Aprendendo a lição certa com o excedente de água dessalinizada de San Diego”. Mas a ‘lição’ apresentada era apenas parcialmente precisa. Transcrevo trechos.
“O que os autores, ambos afiliados ao Centro de Pesquisa sobre Propriedade e Meio Ambiente (PERC), acertaram foi a necessidade de alterar as regulamentações que restringem a capacidade dos agricultores de venderem suas cotas de água para as cidades. Isso está em consonância com a missão do PERC, que é promover o ‘ambientalismo de livre mercado’, os direitos de propriedade e soluções baseadas no mercado para os desafios ambientais. Mas, quando se trata da economia da dessalinização, esses críticos da tecnologia estavam completamente equivocados. Não é preciso um custo exorbitante para que ela se torne economicamente viável. Os altos custos são resultado de escolhas políticas.
A ‘lição’ que devemos tirar dos projetos e propostas de dessalinização na Califórnia até o momento é que as políticas atuais inflacionaram grosseiramente o custo da água do mar dessalinizada aqui por dois motivos: o custo de construção é inflacionado devido ao ambiente regulatório e legal da Califórnia, e o custo operacional é inflacionado porque a Califórnia tem as tarifas de eletricidade mais altas do país.
A estimativa mais recente do custo de construção para dessalinização de água do mar na Califórnia data de 2022, quando a Comissão Costeira rejeitou uma proposta de US$ 1,4 bilhão para a construção de uma usina que produziria 56.000 acres-pés de água doce por ano. Um título de construção com juros de 4% ao ano por um prazo de 30 anos exigiria um pagamento equivalente a US$ 1.446 por acre-pé.
Compare isso aos custos de construção em outros lugares do mundo. Na Arábia Saudita, em um terreno de 18 hectares (45 acres) a cerca de 80 quilômetros (50 milhas) ao norte de Jeddah, no Mar Vermelho, o Projeto Rabigh 4 IWP fornece 177.000 acres-pés de água doce por ano, e o custo total da construção foi de US$ 675 milhões. Sob as mesmas condições de financiamento, isso equivale a um pagamento de US$ 220 por acre-pé.
Em Singapura, a recém-inaugurada Usina de Dessalinização da Ilha Jurong ocupa uma área de 3,6 hectares e produz 40.000 acres-pés por ano. Ela é totalmente automatizada, exigindo ‘apenas 2 a 3 trabalhadores para operar esta usina altamente automatizada’. O custo de construção não foi divulgado, mas a empresa privada vencedora da licitação, Singapore Technologies Marine Consortium, garantiu um preço de US$ 875 por acre-pé. Esse valor cobre financiamento, energia, mão de obra e lucro.
É razoável esperar que os custos inerentes à construção de grandes infraestruturas na Califórnia (materiais, mão de obra e terrenos), em oposição aos custos inflacionados resultantes de escolhas políticas, excedam a média mundial. Mas não é razoável esperar que esses custos inerentes de construção sejam de cinco a sete vezes maiores do que em qualquer outro lugar do mundo. Também não é razoável sugerir que outros locais no mundo tenham uma ‘geografia mais simples’. Ao contrário de qualquer lugar no Oriente Médio, a Califórnia possui fortes correntes marítimas que dispersam a salmoura. E a Califórnia possui vários locais costeiros preexistentes onde usinas de energia estão prestes a ser desativadas. Esses locais estão próximos aos consumidores e já possuem captações de água que podem ser modificadas, bem como conexões de alta tensão.
Isso nos leva à outra fonte do alegado alto custo da dessalinização da água do mar: a eletricidade. A necessidade atual de eletricidade para a dessalinização, a fim de produzir água doce, é de 3.500 quilowatts-hora por acre-pé. Essa necessidade diminuirá ainda mais à medida que novas tecnologias de dessalinização se desenvolverem. Mas, nesse ritmo, e considerando a tarifa comercial de eletricidade da Califórnia, de US$ 0,26 por quilowatt-hora, o custo da eletricidade adiciona outros US$ 910 por acre-pé. Se os californianos pagassem o preço médio nacional da eletricidade comercial, de US$ 0,13 por quilowatt-hora, o custo da eletricidade cairia para US$ 455 por acre-pé.
Então, vamos imaginar que a Califórnia realmente conseguisse reunir os recursos políticos e econômicos para construir uma usina de dessalinização por apenas o dobro do que outras pessoas gastam no resto do mundo e, ao mesmo tempo, conseguisse reduzir o custo da eletricidade para a média nacional. Nesse caso, o custo para financiar a nova construção e pagar pela eletricidade necessária ficaria facilmente abaixo de US$ 1.000 por acre-pé. Atualmente, o preço da água no atacado cobrado pelo Distrito Metropolitano de Água do Sul da Califórnia é de US$ 1.528 por acre-pé, e a previsão oficial é de que esse preço aumente 8,5% ao ano até a década de 2030.
Em nítido contraste com o que alegam os críticos, a dessalinização tem o potencial de ser a fonte de água mais barata para os consumidores urbanos. Os avanços na robótica da construção, juntamente com novos projetos modulares, prometem reduzir o custo de construção de usinas de dessalinização, e os avanços em diversas tecnologias energéticas tornam inevitáveis tarifas de eletricidade drasticamente mais baixas. Quase 40 milhões de acres-pés de água doce são produzidos anualmente em todo o mundo por meio da dessalinização da água do mar. A Califórnia deveria ser líder nesse setor.
Facilitar a venda de água dos agricultores para as cidades faz todo o sentido. Mas cada elemento dessa transferência, desde aquedutos e tubulações até reservatórios e estações de bombeamento, também acarreta custos de construção e operação, financiados, pelo menos em parte, por subsídios governamentais. Os pesquisadores do PERC são, com razão, críticos dos subsídios, mas a única maneira de sermos consistentes é examinar os subsídios envolvidos em toda a infraestrutura hídrica principal, incluindo os sistemas de distribuição.
Talvez aqueles que criticam a dessalinização por supostos motivos econômicos devessem examinar com mais detalhes por que os custos de construção e de energia elétrica são tão grotescamente inflacionados na Califórnia e apoiar uma agenda política para solucionar esse problema. Estariam fazendo um grande favor à Califórnia e a toda a nação”
O que a nossa população acredita quando chega o boleto de agua é que está pagando pela água quando na realidade pagamos o custo da distribuição.
“A água é o veículo da natureza.” Leonardo da Vinci (1452-1519), polímata italiano.
Custo da Água. O Brasil é rico em água.

