A entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva à TV Globo deixou uma impressão que vai muito além do desempenho de um candidato diante das câmeras: quando as perguntas chegam ao território espinhoso das investigações envolvendo aliados, amigos e pessoas próximas ao poder, a realidade parece ganhar diferentes interpretações.
Lula foi à Globo preparado para falar de governo, economia e propostas. Mas encontrou perguntas sobre corrupção, investigações e personagens que orbitam seu entorno político. E foi justamente nesse terreno que surgiram algumas das respostas mais controversas da entrevista.
A mais emblemática talvez tenha sido a respeito de Roberta Luchsinger.
Questionado sobre a lobista, Lula afirmou que não a conhecia e chegou a dizer que nunca havia conversado com ela. O problema é que existem registros públicos que mostram o presidente ao lado de Roberta. Checagem publicada pelo Aos Fatos identificou pelo menos dois registros públicos dos dois juntos.
É perfeitamente possível que um presidente tire fotografia com alguém que não faça parte de seu círculo pessoal. Políticos, celebridades e autoridades são fotografados diariamente com inúmeras pessoas.
Mas existe uma diferença entre dizer “não tenho relação com essa pessoa” e afirmar que nunca a viu.
Quando a fotografia existe, a explicação passa a ser necessária.
E é justamente aí que a política brasileira frequentemente tenta substituir a realidade pela narrativa.
Quando a “ilação” vira argumento para tudo
Outro momento revelador ocorreu quando Lula foi questionado sobre as investigações que atingem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O presidente classificou determinadas acusações como “ilações” e defendeu o filho, embora tenha afirmado que as investigações devem prosseguir.
Defender um filho é compreensível. O que não pode ser compreendido como regra republicana é a tentativa de desqualificar antecipadamente qualquer investigação que alcance pessoas próximas ao poder.
Investigação não é condenação.
Mas também não é “ilação” simplesmente porque incomoda.
Se há indícios, investigue-se. Se houver provas, responsabilize-se quem tiver cometido ilícitos. Se não houver provas suficientes, arquive-se o procedimento. Esse é o funcionamento normal do Estado Democrático de Direito.
O problema começa quando a presunção de inocência é utilizada seletivamente: como escudo para aliados e como exigência que só deve valer para os adversários.
Jaques Wagner: a régua muda quando o investigado é amigo?
E então chegamos a outro momento especialmente significativo da entrevista: Jaques Wagner.
O senador baiano, antigo aliado e amigo de Lula há décadas, foi questionado sobre sua situação no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.
A resposta presidencial foi previsível para quem acompanha a política brasileira: Lula declarou acreditar na inocência de Wagner e afirmou que não poderia colocar em dúvida sua relação com o senador por causa de uma “ilação”. Também invocou o princípio de que todos são inocentes até prova em contrário.
Aqui é preciso fazer uma distinção importante.
Jaques Wagner não está condenado. E qualquer cidadão tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.
Mas uma investigação da Polícia Federal não deixa de ser relevante porque o investigado é amigo do presidente.
Segundo informações divulgadas pela própria imprensa, Wagner foi alvo de busca e apreensão no contexto das investigações envolvendo o Banco Master. O caso está sob apuração, e as suspeitas ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades.
Portanto, a pergunta que deveria ser feita não é se Lula tem o direito de acreditar na inocência de Wagner.
É claro que tem.
A pergunta é outra: por que a confiança pessoal do presidente deveria ter qualquer peso na apuração dos fatos?
Se Wagner é inocente, ótimo. Que a investigação demonstre isso.
Se não é, que as provas apareçam e que a Justiça faça seu trabalho.
A amizade de 45 anos entre Lula e Wagner não pode ser critério jurídico para absolver ninguém — assim como uma fotografia com Roberta Luchsinger não pode, sozinha, provar crime algum.
O problema é a seletividade
E talvez essa seja a grande questão que ficou exposta na entrevista.
Quando se trata de adversários, a política brasileira costuma exigir respostas definitivas.
Quando a investigação chega aos aliados, surgem expressões como “ilação”, “perseguição”, “vazamento”, “narrativa” e “não há provas”.
É uma lógica perigosa.
Porque o mesmo princípio que protege Lula deve proteger seus adversários. A mesma presunção de inocência que beneficia Jaques Wagner deve beneficiar qualquer cidadão investigado. E a mesma exigência de provas feita contra opositores deve ser aplicada aos aliados.
Democracia não funciona com dois códigos de conduta.
E os números?
A entrevista também apresentou outras afirmações que foram contestadas por checagens independentes.
O Aos Fatos, por exemplo, apontou declarações de Lula consideradas falsas ou enganosas, inclusive relacionadas à fome e ao crescimento econômico.
Isso importa porque o problema de uma informação equivocada dita por um cidadão comum é uma coisa.
Quando a informação é apresentada pelo presidente da República, candidato à reeleição, diante de milhões de brasileiros, a responsabilidade é incomparavelmente maior.
Presidente não pode ter o privilégio de uma “memória política”.
Os fatos precisam permanecer fatos independentemente de quem os conte.
O eleitor precisa desconfiar de todos — inclusive de quem admira
Talvez a principal lição da entrevista de Lula seja justamente esta: o eleitor precisa aprender a desconfiar de todos os políticos.
Não importa se é Lula, Bolsonaro, Tarcísio, Ciro ou qualquer outro.
Não devemos acreditar porque gostamos.
Não devemos desacreditar porque não gostamos.
Devemos verificar.
Uma fotografia pode ser verificada.
Um dado econômico pode ser verificado.
Uma declaração pode ser confrontada com documentos.
Uma investigação pode ser acompanhada.
Uma acusação pode ser provada ou descartada.
Essa é a essência de uma democracia madura.
O problema brasileiro não é apenas a existência de corrupção. É também a capacidade que a política desenvolveu de transformar suspeitas em condenações quando interessam ao adversário e em “ilações” quando atingem os próprios companheiros.
Lula tem todo o direito de acreditar na inocência de Jaques Wagner.
Wagner tem todo o direito de se defender.
Roberta Luchsinger tem direito à ampla defesa.
Lulinha também.
E qualquer adversário político de Lula tem exatamente os mesmos direitos.
Mas ninguém — absolutamente ninguém — deveria ter o direito de exigir que a sociedade abandone as perguntas simplesmente porque as respostas são desconfortáveis.
Afinal, uma fotografia não desaparece porque alguém diz que não conhece a pessoa fotografada.
Uma investigação não deixa de existir porque o presidente confia no investigado.
E uma pergunta não deixa de ser legítima porque a resposta politicamente conveniente é chamar tudo de “ilação”.
No fim das contas, a democracia não precisa de versões convenientes. Precisa de fatos.
E, quando o poder começa a escolher quais fatos devem ser lembrados e quais devem ser esquecidos, cabe ao jornalismo, às instituições e, sobretudo, ao eleitor fazer exatamente aquilo que o poder muitas vezes não quer: perguntar, conferir e cobrar respostas.
Porque, em uma República, amigo não é sinônimo de inocente.
Aliado não é sinônimo de culpado.
E fotografia não é sinônimo de crime.
Mas nenhum desses fatos pode ser apagado simplesmente por uma narrativa política.
Os fatos continuam existindo — mesmo quando a memória de um político parece não os acompanhar.
LULA NA GLOBO: ENTRE A MEMÓRIA SELETIVA, AS “ILAÇÕES” E A FIDELIDADE AOS AMIGOS

