Mas o de que eu queria falar mesmo é que tenho uma forte memória da II Guerra Mundial. O Maranhão foi uma base aérea, e eu, aos 14 anos, morava em um pensionato, de dona Rosilda Penha, por quem tenho gratidão pela acolhida que me deu. Ali dia de domingo — ela era muito católica — almoçava o reitor do Seminário, Padre Sales, que falava inglês e por isso mesmo fora recrutado pelos americanos para celebrar missa na Base Aérea do Tirirical. Ele me levou como coroinha algumas vezes. Dos soldados ele recebia o presente de um pacote de cigarros Malboro (ele fumava), e eu, duas barras chocolate.
São Luís, tão pacata e muito longe da guerra que se processava na Europa, fora tomada de uma paixão patriótica depois que o Brasil entrara na guerra, em 1942, após o afundamento do navio Baependi, onde morreram centenas de brasileiros. É que o Brasil, que havia flertado com as potências do eixo, pressionado pela opinião pública e pelos aliados, oscilara de posição, e os alemães haviam resolvido afundar navios como pressão brutal.
Como os aviões não tinham autonomia para atravessar o Atlântico, o Brasil passou a ser uma peça-chave para a batalha no norte da África e para a invasão da Itália, que, com Alemanha e Japão, formava o Eixo. Assim o Brasil permitiu bases americanas em Macapá, Belém, São Luís, Fortaleza e Natal para que os aviões, do Rio Grande do Norte, atravessassem o Atlântico, com um pouso na Ilha do Sal. Aqui desembarcavam armas e munições, fazendo uma rota alternativa para a reunião de Teerã entre o Stalin, Roosevelt, Churchill, entre outras de alto nível.
São Luís, de repente, encheu-se de soldados americanos, com suas boinas, que montaram um escritório no centro da cidade, o USO – United States Office.
Foi uma revolução. Aqueles homens loiros, altos, bonitos, apaixonavam as moças de tal modo que um colega meu, Chafir, ao responder em nossa classe àquela pergunta clássica: “O que você quer ser?”, ele respondeu: “Americano.” A professora de inglês namorava o chefe militar americano.
A cidade também se habituou aos muitos voos de dirigíveis, que eram chamados de zepelins, encarregados de patrulhar o Atlântico e afundar submarinos com bombas de profundidade.
A zona do meretrício que, naquele tempo, vivia um momento áureo, era dominada pelas tropas aliadas. Como se, nos Estados Unidos, não existisse mais essa prática dos prostíbulos.
A guerra provocou, através de propaganda, uma enxurrada de retratos do general George Patton e de muitos outros generais, cujos endeusamento foi feito no mundo inteiro, principalmente nas cidades onde estavam localizadas as bases para criar o sentimento de apoio aos aliados.
Uma tragédia que chocou a cidade aconteceu com um jornaleiro italiano que tinha uma banca de jornal na Praça João Lisboa, centro fofoqueiro da cidade, assassinado pelas costas por um fanático que passara a odiar alemães, italianos e japoneses.
Tivemos blecaute para que os submarinos não detectassem a cidade e muitas passeatas exaltando o sentimento patriótico. Criou-se mesmo, nas Forças Armadas, uma pré-serviço militar obrigatório — eu guardo até hoje, entre os meus papéis velhos, este de menino alistado para lutar contra as forças do nazismo quando alcançasse a idade legal.
Outro dia, revendo papéis velhos, encontrei, entre as cartas que fiz para minha mãe, uma em que descrevia o meu medo da guerra, as atrocidades que estavam sendo cometidas na Europa e o meu medo de que essas batalhas chegassem ao Brasil.
“Minha mãe, apegue-se ao manto de Nossa Senhora, reze para o senhor São Bento e Santo Inácio para que essa guerra não chegue a São Luís, nem a Pinheiro, nem a São Bento.
Eu estou na Congregação Mariana rezando por meus colegas um terço todo dia para que acabe a guerra e chegue a paz entre os homens, como pediu Jesus.
Diga à Debun (nome da minha ama) que reze por mim, me tirando o medo dessas almas que mortas na guerra podem vir para cá.”
Tive vontade de rasgar essa carta, mas era tão bonita, tão cheia de fé e religiosidade que a guardei entre os papéis que guardo da minha querida e protetora Irmã Dulce.
Nossa guerra era uma guerra pura, sem bala e sem internet, sem televisão e apenas com a Rádio Nacional dando o boletim noturno de como iam as coisas no front ocidental.
Hoje a gente assiste à guerra em tempo real: a brutalidade com que ela se manifesta, a quantidade de vidas que ceifa, de lares que destrói, de aleijados que cria, de mortos que tiveram o sonho de viver interrompido.
Agora não tolero mais nem olhar jornais televisivos, revoltado com a brutalidade nos conflitos que envolvem países divididos por ódio cada vez mais profundo.