Um trabalhador rural de 65 anos foi resgatado de uma situação análoga à escravidão em uma fazenda localizada no interior da Estação Ecológica Terra do Meio, em Altamira, no sudoeste do Pará. O homem vivia completamente isolado da sociedade havia oito anos, em uma região de difícil acesso, cercado por floresta, sem água potável, alimentação adequada, assistência médica ou condições mínimas de dignidade.
A operação de resgate foi coordenada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, com a participação do Ministério Público do Trabalho no Pará e Amapá (MPT PA-AP), da Polícia Federal (PF) e da Defensoria Pública da União (DPU).
Devido ao isolamento da propriedade, foi necessário o uso de um helicóptero da Polícia Federal para que as equipes chegassem ao local. O voo entre a sede de Altamira e a fazenda durou cerca de duas horas. O acesso terrestre é praticamente inexistente, sendo possível chegar apenas por via aérea ou fluvial.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, o trabalhador vivia em um alojamento improvisado que era compartilhado com os próprios animais da fazenda. Bovinos e suínos circulavam livremente dentro da habitação, tornando o ambiente ainda mais insalubre.
O idoso contou aos auditores-fiscais que passava as noites em vigília para espantar morcegos que atacavam os porcos. A escassez de alimentos era tamanha que ele dividia parte das piranhas que pescava em um rio próximo com os próprios animais.
Além da convivência diária com o rebanho, ele permanecia exposto a diversos riscos. Durante o período em que viveu na propriedade, foi picado duas vezes por cobras da espécie jararaca dentro do alojamento e sofreu outras duas ferroadas de arraias no rio utilizado para banho.
Outro fator de preocupação identificado pelos fiscais foi a constante presença de animais silvestres na região, especialmente onças, que representam um risco permanente para quem vive isolado na floresta.
As imagens registradas durante a fiscalização revelam um cenário de extrema precariedade. O trabalhador morava em um barraco de madeira, com piso parcialmente de chão batido, frestas nas paredes, sem banheiro e sem qualquer sistema de abastecimento de água.
A cama onde dormia estava coberta por detritos e dividia espaço com lixo acumulado dentro da residência.
A água utilizada para beber, cozinhar e tomar banho era retirada diretamente do Rio Pardo. Ela era armazenada em recipientes reutilizados de óleo lubrificante de motor. Antes do consumo, o trabalhador aguardava a decantação do barro, mas a água permanecia turva e imprópria para consumo.
De acordo com a Auditoria-Fiscal do Trabalho, o homem vivia em situação de insegurança alimentar.
Ele fazia apenas uma refeição por dia e raramente consumia carne, pois esse tipo de alimento não era fornecido pelo empregador. Durante a fiscalização, os auditores identificaram sinais de desnutrição.
Embora o empregador continuasse efetuando o pagamento de salários e encaminhando mantimentos por meio de encarregados, o Ministério Público concluiu que os alimentos fornecidos eram insuficientes para garantir uma nutrição adequada, agravando o quadro de insegurança alimentar e hídrica.
Analfabeto, com severa deficiência auditiva e problemas de visão, o trabalhador enfrentava ainda a completa ausência de assistência médica.
Em uma ocasião, ao sentir fortes dores nos rins, precisou caminhar aproximadamente 27 quilômetros por cerca de um dia e meio, atravessando a mata fechada, até chegar ao local onde residia outro trabalhador que pudesse ajudá-lo.
Segundo a fiscalização, desde 2018 ele permanecia completamente isolado, sem acesso regular a serviços públicos, meios de comunicação ou atendimento de saúde.
Mesmo vivendo em condições degradantes, o trabalhador era responsável por diversas atividades na propriedade.
Entre suas atribuições estavam a manutenção e conservação da fazenda, a vigilância do local, a manutenção da pista de pouso, o manejo dos animais e o cultivo de pequenas lavouras destinadas à própria subsistência.
O Ministério Público informou que a propriedade foi sendo gradualmente abandonada após fiscalizações ambientais que retiraram grande parte do rebanho existente. Ainda assim, o trabalhador permaneceu na fazenda cuidando dos poucos bovinos e suínos remanescentes, motivado também pelo receio de perder seus direitos trabalhistas.
Após o resgate, o idoso foi inserido na rede de proteção socioassistencial de Altamira. Ele recebeu atendimento médico e psicológico, foi acolhido em um abrigo temporário e, posteriormente, encaminhado para retornar ao município onde vivem seus familiares.
Como resultado da atuação dos órgãos de fiscalização, foi firmado um **Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)** prevendo o pagamento de **R$ 120 mil**, valor destinado ao pagamento das verbas rescisórias e à reparação por danos morais decorrentes das condições degradantes de trabalho às quais o trabalhador foi submetido durante oito anos.

