Em um mundo cada vez mais polarizado, o triunfo de figuras políticas como Jair Bolsonaro no Brasil e Donald Trump nos Estados Unidos levanta questões profundas sobre o papel da filosofia na sociedade contemporânea. O crescimento da extrema direita e a ascensão de líderes com discursos populistas e autoritários evidenciam um cenário onde princípios filosóficos são relegados ao esquecimento em prestígio de ações pragmáticas que desconsideram o bem comum e a reflexão ética. Tal contexto destaca a urgência de revisitar pensadores que alertaram para os perigos sociais advindos da ausência de pensamento crítico.
Um dos principais pensadores que enxergou os riscos da ignorância filosófica foi Hannah Arendt, que em sua obra Eichmann em Jerusalém cunhou o conceito da “banalidade do mal”. Arendt argumenta que atos moralmente atrozes podem ser cometidos não apenas por indivíduos perversos, mas por pessoas incapazes de pensar criticamente sobre as implicações de suas ações. A ascensão de líderes radicais evidencia justamente a falta de reflexão coletiva, onde discursos simplistas encontram terreno fértil em sociedades que negligenciam a educação filosófica. Sem o exercício da dúvida e do questionamento, torna-se mais fácil normalizar discursos que desumanizam o outro ou destroem pilares democráticos.
Outro filósofo essencial para entender o cenário atual é Karl Popper, que em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos alertou para o perigo do autoritarismo e do populismo como ameaças à democracia. Popper enfatizou a importância de uma sociedade aberta, onde o debate crítico e a diversidade de ideias são protegidos. Contudo, líderes populistas frequentemente atacam a imprensa livre, a academia e instituições que promovem o diálogo plural, enfraquecendo os fundamentos democráticos. Esses líderes, ao invés de promoverem o pensamento crítico, incentivam uma retórica de “nós contra eles”, simplificando questões complexas e polarizando as sociedades num jogo de intrigas que o que vale é construir narrativas perversas na tentativa de neutralizar o moralmente aceitável.
Por fim, a contribuição de Sócrates permanece atemporal em tempos de crise. Sua máxima “uma vida não examinada não merece ser vivida” é um chamado à autorreflexão, algo essencial para cidadãos e líderes. A filosofia, ao incentivar o questionamento e o debate, fornece ferramentas para resistir ao apelo do autoritarismo e à simplificação dos problemas sociais. Quando figuras como Bolsonaro e Trump triunfam, isso não é apenas reflexo de suas estratégias políticas, mas também da falência de uma educação que deveria capacitar os indivíduos a pensar de forma independente. A filosofia não pode ser prescindível numa sociedade que se pretende prestigiar a civilidade como instrumento de pacificação social.
Nesse contexto, a filosofia não é um luxo acadêmico, mas uma necessidade urgente. Ela nos ensina a identificar armadilhas retóricas, resistir ao pensamento dogmático e, acima de tudo, a valorizar o diálogo. Em um mundo onde líderes radicais desprezam princípios éticos em favor de pragmatismos destrutivos, retomar o pensamento filosófico é mais do que uma questão de conhecimento: é uma forma de preservar a humanidade e a democracia. A chave é novamente inserir a filosofia como disciplina obrigatória nos currículos escolares e manter viva a resistência contra aqueles que a demonizam.
A Importância da Filosofia em Tempo de Radicalismo
