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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > JB Carvalho > A INDÚSTRIA DA MENTIRA
JB Carvalho

A INDÚSTRIA DA MENTIRA

JB Carvalho
Ultima atualização: 18 de julho de 2026 às 20:08
Por JB Carvalho 8 horas atrás
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Nem toda mentira nasce de um mal-entendido. Algumas são cuidadosamente planejadas. São produzidas, financiadas e distribuídas porque servem a interesses maiores.

A mentira não apenas encontra pernas. Muitas vezes encontra asas. E, frequentemente, essas asas são feitas de dinheiro, poder, ideologia ou conveniência.

A primeira grande campanha organizada de desinformação da história cristã acontece justamente na manhã da ressurreição. Mateus registra:
“Deram grande soma de dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: Dizei que os discípulos vieram de noite e o roubaram enquanto dormíamos.” (Mt 28.12-13)

O primeiro ataque ao cristianismo não tenta refutar o milagre. Compra uma narrativa. Não apresentam provas, suborna testemunhas e financiam uma versão alternativa.
Mateus acrescenta um detalhe extraordinário:
“Esta versão divulgou-se entre os judeus até o dia de hoje.” (Mt 28.15)
A mentira atravessou gerações. Foi sustentada porque havia pessoas interessadas em preservá-la.

Poucas décadas depois, Roma oferece outro exemplo. No ano 64 d.C., um enorme incêndio destrói boa parte da cidade. Tácito registra que muitos suspeitavam do próprio imperador Nero. Era necessário encontrar um culpado. Os cristãos eram uma minoria impopular, sem influência política e facilmente transformados em inimigos públicos. A solução foi simples. O Estado precisava de um bode expiatório. A narrativa justificou uma das maiores perseguições da história.

Ao longo dos dois primeiros séculos, novos boatos surgiram. Como os cristãos celebravam a Ceia dizendo: “Este é o meu corpo.” “Este é o meu sangue.”

Espalhou-se que praticavam canibalismo. Como chamavam uns aos outros de irmãos e realizavam reuniões privadas, acusaram-nos de incesto. Como falavam do novo nascimento, circularam histórias de que sacrificavam crianças.

Justino Mártir, Atenágoras, Tertuliano e Minúcio Félix dedicaram páginas inteiras apenas para responder acusações absurdas. Não eram críticas teológicas. Eram campanhas de difamação.

Na Idade Média, judeus foram acusados de sequestrar crianças cristãs para utilizar seu sangue em rituais religiosos. Era completamente falso. Esses boatos provocaram massacres inteiros.

No século XX, os regimes totalitários transformaram a mentira em política de Estado. A propaganda nazista repetiu durante anos que os judeus eram responsáveis pelos problemas econômicos da Alemanha. A repetição constante produziu uma ilusão coletiva. Joseph Goebbels compreendeu que uma mentira repetida milhões de vezes adquire aparência de verdade para quem nunca verifica os fatos. O comunismo soviético aperfeiçoou outro método. Apagava pessoas das fotografias. Reescrevia livros. Alterava documentos. Quem controlava a memória controlava a realidade.

Há hoje mentiras financiadas pelo interesse econômico. Durante décadas, empresas de cigarro contrataram cientistas para minimizar os efeitos do tabaco. A estratégia não era provar que fumar fazia bem. Bastava fabricar dúvida suficiente para impedir decisões. A incerteza tornou-se um produto comercial. Com as redes sociais, nunca foi tão barato fabricar uma mentira. Nunca foi tão fácil impulsioná-la. Os algoritmos recompensam indignação e as redes sociais premiam velocidade, não precisão. A mentira chega primeiro porque normalmente é mais emocionante que a verdade. A verdade exige investigação. A mentira exige apenas compartilhamento.

Em Éfeso, Demétrio reúne os ourives porque o evangelho ameaçava seus lucros (At 19). O problema era econômico, não religioso. No julgamento de Jesus, procuram falsas testemunhas (Mt 26.59-60). O discurso parece jurídico. O problema era preservar poder. Em Nabote, Jezabel contrata testemunhas mentirosas para tomar uma vinha (1Rs 21). O discurso parece legal. O objetivo era confiscar uma propriedade. Em Daniel, os sátrapas manipulam uma lei para eliminar um homem íntegro (Dn 6). O discurso parece administrativo. O objetivo era remover um concorrente. Em cada caso, a mentira possui um patrocinador.

A pergunta mais importante diante de qualquer narrativa deveria ser “Quem ganha se eu acreditar nisso?”

Porque a mentira costuma embarcar em carruagens financiadas por interesses invisíveis.
E, às vezes, suas asas são feitas de cédulas de dinheiro.

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