Todo mundo pensa que o mundo livre venceu em 1989, com a queda do Muro de Berlim.
Mas o que caiu em 9 de novembro de 1989 foi apenas um muro de concreto.
O que não caiu foi a ideologia.
A ideia de que a sociedade é dividida entre opressores e oprimidos. A ideia de que família, tradição, religião, nação, mérito e herança são estruturas de poder que precisam ser desconstruídas. A ideia de que a história caminha para uma igualdade final que justifica qualquer método empregado em sua busca.
O comunismo soviético tinha um problema fatal: podia ser confrontado com a realidade.
Prometia prosperidade e produzia escassez.
Prometia liberdade e produzia muros.
Prometia emancipação e produzia Gulags.
Budapeste em 1956, Praga em 1968, o Arquipélago Gulag de Soljenítsin em 1973, os boat people fugindo do Vietnã em 1979. A cada década a realidade apresentava sua contestação.
Diante disso, a ideologia se transformou e mudou de endereço.
Em 1934, a Escola de Frankfurt, expulsa da Alemanha nazista, instala-se nos Estados Unidos. A crítica econômica do marxismo se torna uma crítica da cultura.
Na década de 1960, Herbert Marcuse propõe que a revolução não dependeria mais do proletariado industrial. O novo sujeito revolucionário passaria a ser formado por minorias, estudantes e grupos marginalizados.
Em 1966, na Universidade Johns Hopkins, Jacques Derrida, Roland Barthes e Jacques Lacan apresentam ao mundo acadêmico americano aquilo que seria chamado de Teoria Francesa.
Foucault diria que conhecimento e poder são inseparáveis.
A batalha deixava de ser econômica. Passava a ser cultural, educacional, linguística.
Se toda verdade é apenas uma construção de poder, então nenhum fracasso histórico é suficiente para refutar a teoria.
A fome, o muro, o Gulag deixa de ser um argumento. A ideologia torna-se imune à realidade.
Entre 1975 e 1985, universidades como Yale, Berkeley e Columbia absorvem essas correntes de pensamento. Elas passam a influenciar departamentos inteiros de humanidades, educação, comunicação e ciências sociais.
Em 1987, Allan Bloom publica O Fechamento da Mente Americana, alertando que algo profundo estava acontecendo dentro das universidades ocidentais.
O alerta foi amplamente ignorado. Então chega 1989. O Muro cai. O Ocidente comemora.
Francis Fukuyama fala no “fim da História”.
Os governos celebram a vitória do capitalismo liberal. Mas a ideologia já não estava mais em Berlim Oriental. Ela havia atravessado o Atlântico anos antes. Vencemos os tanques.
Perdemos as salas de aula. Enquanto isso, a China observava atentamente.
Poucos meses antes da queda do Muro, Pequim esmagava os protestos da Praça da Paz Celestial.
Os líderes chineses concluíram que poderiam abandonar grande parte da economia marxista e preservar o controle ideológico.
O Ocidente fez quase o contrário. Preservou a economia de mercado, mas abriu espaço para a expansão de uma visão de mundo cada vez mais influenciada por conceitos derivados daquela tradição revolucionária.
O marxismo reapareceu em novas formas. A luta de classes transformou-se em luta de identidades.Os exploradores e explorados deram lugar aos privilegiados e marginalizados.
A autocrítica revolucionária reapareceu como mecanismos permanentes de reeducação ideológica. Os antigos comissários políticos foram substituídos por estruturas burocráticas encarregadas de vigiar a linguagem, comportamento e conformidade.
O objetivo deixou de ser a sociedade sem classes. Passou a ser a igualdade de resultados.
A versão contemporânea nao precisa de campos de trabalho forçado.
Ela opera pelo cancelamento, pressão institucional, censura informal, destruição de reputações, morte social.
O Muro de Berlim caiu, mas a ideologia atravessou a fronteira e encontrou abrigo em universidades, meios de comunicação, burocracias, organizações internacionais e centros de formação cultural do próprio Ocidente.
A Guerra Fria terminou. A disputa pelas ideias não.
O grande erro de 1989 foi acreditar que a queda de um muro significava a derrota definitiva daquilo que ele representava.
O muro caiu. A ideologia sobreviveu. E mudou de endereço.

