A palavra rebeldia quase sempre desperta uma ideia negativa. Logo pensamos em desobediência, conflito, indisciplina ou oposição. Entretanto, existe uma rebeldia santa, saudável e profundamente transformadora: a coragem de ser quem verdadeiramente somos.
Ser rebelde, nesse sentido, é recusar viver aprisionado pelas expectativas alheias, pelos medos adquiridos ao longo da vida e pelas máscaras que construímos para sermos aceitos. É permitir que nossa essência volte a respirar.
Diversas tradições espirituais e psicológicas apontam para essa necessidade de reencontro consigo mesmo. A tradição conhecida como Huna, no Havaí, de sacerdotes havaianos antigos; essa tradição fala da existência de três dimensões do ser, os “três eus”: o eu inferior, ligado às emoções, à memória e à criança interior; o eu médio, responsável pela razão e pelas escolhas conscientes; e o eu superior, a dimensão espiritual, onde habita a inspiração, a sabedoria e aquilo que muitos chamam de presença divina.
Curiosamente, Sigmund Freud, pela ótica da Psicanálise, também descreveu três instâncias da personalidade: o id, sede dos impulsos e desejos; o ego, que busca equilibrar a realidade; e o superego, representante das normas, valores e da consciência moral. Embora pertençam a sistemas diferentes, ambos nos convidam a compreender que o ser humano é muito mais complexo do que aparenta.
Entretanto, existe uma personagem frequentemente esquecida dentro de nós: a criança interior.
É nela que mora nossa espontaneidade, nossa criatividade, nossa capacidade de sonhar, brincar, confiar e amar sem reservas. Quando essa criança é ferida pela rejeição, pelo abandono, pelas críticas ou pelos traumas da vida, o adulto passa a existir apenas para sobreviver. Vive preocupado, ansioso, rígido e distante da alegria.
Toda terapia verdadeira, independentemente da escola psicológica ou filosófica adotada, possui um objetivo comum: reconciliar-nos com essa criança esquecida. Tipo fazer as pazes, de verdade com sua criança interna de até sete anos.
Curar é permitir que ela volte a sorrir.
Curar é aprender novamente a brincar.
Curar é descobrir que a simplicidade não é pobreza intelectual, mas sabedoria emocional.
Quanto mais complicada se torna nossa existência, mais nos afastamos da essência. E quanto mais retornamos ao coração infantil, mais nos aproximamos da paz.
Foi exatamente isso que Jesus ensinou.
Enquanto o mundo valorizava poder, aparência e religiosidade externa, Ele acolhia crianças, conversava com mulheres desprezadas pela sociedade, tocava leprosos, sentava-se à mesa com pecadores e ensinava que Deus era Pai de todos.
Por isso foi considerado um rebelde. Historicamente falando, Jesus era um rebelde contra o sistema de poder vigente de sua época. César era considerado um deus e ninguém acima dele, o Imperador, ninguém acima de Roma!
Sua rebeldia não consistia em promover revoluções armadas, mas em revolucionar consciências. Ele rompeu paradigmas religiosos, sociais e culturais, colocando o amor acima da lei, a misericórdia acima do julgamento e a dignidade humana acima das convenções.
Não por acaso declarou:
“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.”
Jesus não estava propondo infantilidade, mas sim o resgate das virtudes da infância: confiança, pureza de intenção, humildade, alegria, capacidade de aprender e abertura para o novo.
Milagres começam exatamente aí.
Eles nascem quando abandonamos o peso das máscaras e permitimos que nosso eu mais profundo dialogue com o Divino.
Nossa criança interior acredita.
Nossa mente adulta calcula.
Nosso espírito realiza.
Talvez o maior ato de rebeldia dos nossos dias seja justamente este: escolher viver com leveza em um mundo que insiste em complicar tudo.
Ser rebelde é rir sem culpa.
É chorar quando a alma precisa.
É pedir perdão.
É abraçar.
É brincar com um neto, plantar uma árvore, caminhar descalço, contemplar um pôr do sol, agradecer pelo pão de cada dia.
Ser rebelde é recusar a prisão do ego inflado e permitir que o amor conduza nossas escolhas.
Mas tem algo que impede esses milagres acontecerem: a dúvida. Quem duvida perde toda a maravilha que o eu divino em nós pode realizar quando a criança interior abre as portas para o incrível, o maravilhoso.
No final, toda caminhada espiritual e todo processo terapêutico convergem para um mesmo destino: tornar-nos mais humanos, mais simples, mais alegres e mais próximos daquela criança que Deus sonhou quando nos criou.
Talvez seja justamente essa criança — livre, espontânea e cheia de esperança — que ainda seja capaz de construir os maiores milagres de nossa existência.
A rebeldia que cura a alma
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

