Agosto chegou. E, com ele, reaparecem antigas frases que atravessaram gerações: “Agosto é mês de azar”; “Agosto é mês de desgosto”; “Agosto é o mês do cachorro louco”. Como se o calendário, por si só, carregasse o poder de determinar o destino das pessoas.
Mas será que os meses possuem sorte ou azar? Ou somos nós que, muitas vezes, revestimos o tempo com nossas crenças, medos, memórias e expectativas?
A história do calendário revela que a maneira como organizamos os dias, os meses e os anos é uma construção humana. O calendário gregoriano, utilizado atualmente em grande parte do mundo, foi instituído em 1582, pelo papa Gregório XIII, como uma reforma do antigo calendário juliano. Seu objetivo principal era corrigir diferenças acumuladas na contagem do tempo e manter o calendário em sintonia com os ciclos solares e com as datas religiosas.
Entretanto, antes do calendário gregoriano, os romanos já haviam organizado o ano de diferentes maneiras. O calendário romano sofreu alterações ao longo dos séculos, e alguns meses foram associados a figuras importantes do poder imperial. Julho recebeu esse nome em homenagem a Júlio César, enquanto agosto foi dedicado ao imperador Augusto, também conhecido como César Augusto.
Curiosamente, agosto não nasceu como um mês de azar. Seu nome está ligado à ideia de grandeza, dignidade e majestade. A palavra augustus, em latim, carregava o sentido de “venerável”, “sublime” e “consagrado”. Portanto, desde sua origem histórica, agosto não foi concebido como um mês de desgosto, mas como um tempo associado à honra e à grandiosidade.
Ainda assim, os povos não vivem apenas de fatos históricos. Vivem também de mitos, símbolos, narrativas e crenças transmitidas de geração em geração, formando a cultura. E muitas dessas histórias embalam o imaginário popular, dando aos meses características que, pouco a pouco, passam a ser aceitas como verdades.
No Brasil, a fama negativa de agosto ganhou força por diferentes acontecimentos históricos, políticos e familiares que marcaram a memória coletiva. Algumas tragédias ocorridas nesse período contribuíram para reforçar a ideia de que agosto seria um mês difícil. Aos poucos, acontecimentos isolados foram reunidos em uma mesma narrativa, e a crença se tornou quase uma sentença: “Em agosto, tudo pode acontecer”.
Mas a educação emocional nos convida a fazer uma pergunta importante: será que os acontecimentos confirmam a crença ou será que a crença nos faz enxergar apenas aquilo que parece confirmá-la?
Quando acreditamos que determinado mês será ruim, podemos iniciar seus dias com medo, ansiedade e expectativa negativa. Passamos a observar mais os problemas, valorizamos os contratempos e, muitas vezes, ignoramos as alegrias que também acontecem. É como se colocássemos uma lente escura diante dos olhos e, depois, concluíssemos que o mundo perdeu suas cores.
As crenças limitantes funcionam dessa maneira. Elas podem nascer de experiências pessoais, histórias familiares, tradições culturais ou frases repetidas tantas vezes que deixamos de questioná-las. Porém, uma crença não é necessariamente uma verdade. Muitas vezes, é apenas uma interpretação que herdamos e continuamos reproduzindo.
E se, neste ano, escolhêssemos olhar para agosto de outra forma?
No grande cardápio da vida, talvez possamos experimentar Agosto a gosto.
A gosto da esperança.
A gosto dos recomeços.
A gosto das novas oportunidades.
A gosto da alegria de aprender.
Agosto é, para muitas crianças, adolescentes, educadores e famílias, o mês do retorno às atividades escolares. É tempo de reencontros, de novos conteúdos, de reconstrução de vínculos e de retomada dos sonhos. A escola volta a pulsar com vozes, perguntas, descobertas e projetos.
É também um período de transição na natureza. No Brasil, agosto anuncia mudanças. Em muitas regiões, surgem sinais de renovação, preparando a chegada da primavera e, mais adiante, do verão. A natureza nos ensina que nenhum ciclo permanece igual para sempre. Depois do frio, vêm novas cores. Depois da pausa, a vida encontra caminhos para florescer.
Agosto também é marcado pela presença do Sol no signo de Leão durante boa parte do mês. Na linguagem simbólica da astrologia, Leão representa brilho, criatividade, generosidade, expressão pessoal e desejo de ser reconhecido. Fala-se também da vaidade leonina, do gosto pelo glamour e da necessidade de ocupar o próprio espaço.
Na natureza, o leão é conhecido, simbolicamente, como o rei das selvas. Seu arquétipo nos recorda a coragem, a força e a capacidade de caminhar com dignidade. Entretanto, talvez a maior lição desse símbolo não seja a de brilhar para ser admirado, mas a de reconhecer a própria luz sem apagar a luz de ninguém.
Brilhar não precisa significar vaidade excessiva. Pode significar colocar nossos talentos a serviço da vida.
Ser visto não precisa significar superioridade. Pode significar ter coragem de existir com autenticidade.
Reconhecer o próprio valor não precisa significar orgulho. Pode significar autoestima saudável.
E, nesse sentido, agosto pode nos ensinar a olhar para nós mesmos com mais amor e menos medo.
A criança pequena talvez seja uma das maiores mestras dessa transformação. Ela vê beleza onde o adulto, cansado, já não percebe nada. Enxerga magia em uma borboleta, alegria em uma poça d’água, mistério em uma nuvem e esperança em uma pequena flor.
A criança não pergunta se o mês têm azar antes de sorrir.
Ela simplesmente vive.
Talvez seja esse o convite de agosto: recuperar os olhos coloridos da infância, não para negar as dificuldades da vida, mas para não permitir que elas roubem nossa capacidade de enxergar o belo.
O tempo não é nosso inimigo. Os meses não conspiram contra nós. O calendário apenas organiza os dias. Somos nós que atribuímos significados às experiências e escolhemos como responder a elas.
Agosto pode ser mês de desgosto para quem alimenta apenas o medo. Mas também pode ser mês de gosto, de encontro, de aprendizagem, de coragem, de renovação e de fé.
Pode ser o mês de abandonar antigas crenças que já não servem.
Pode ser o mês de reescrever histórias.
Pode ser o mês de voltar à escola, aos projetos, aos sonhos e à própria essência.
Pode ser o mês de reconhecer que a vida não é feita apenas de acontecimentos, mas também dos significados que damos a eles.
Por isso, neste agosto, talvez valha a pena trocar a frase “Agosto, mês de azar” por uma nova declaração:
Agosto a gosto.
A gosto da vida.
A gosto da esperança.
A gosto da coragem.
A gosto das novas possibilidades.
A gosto da beleza que ainda existe.
E, acima de tudo, espero que agosto seja a gosto de Deus, porque, quando colocamos nossos dias nas mãos do Criador, compreendemos que nenhum mês é vazio de propósito. Cada amanhecer pode trazer uma nova oportunidade de aprender, amar, servir, perdoar e recomeçar.
Que agosto não seja apenas mais uma página no calendário.
Que seja um tempo de florescer por dentro.
E que, ao final do mês, possamos olhar para trás e dizer:
Agosto passou… e foi a gosto. A gosto da vida e, se Deus quiser, a gosto de Deus.
AGOSTO A GOSTO
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

