Estava lendo um artigo de Drew Crawford que foi publicado no X, a antiga rede social Twitter, um texto que circulou entre investidores institucionais, gestores de fundos e estrategistas de mercado nos quatro cantos do mundo. Achei o título, em tradução livre, muito provocador, tratava-se de “O Caso Brasil: A Maior Aposta Assimétrica da Terra”. Para situar você leitor amapaense, Crawford não é um entusiasta ingênuo de países emergentes, nem um turista encantado com o Carnaval e o futebol. É um analista sério, com leitores nos maiores centros financeiros do planeta, e o que ele escreveu, decidi expandi-lo e adaptá-lo para a nossa realidade nortistas.
Vamos começar pelo inicio. O Brasil é, por qualquer métrica física concebível, um dos países mais privilegiados que a natureza já colocou sobre a face da Terra. Não se trata de ufanismo. Trata-se de um fato geológico, hídrico, climático e biológico que não tem paralelo em nenhum outro lugar do mundo.
Para exemplificar. O Brasil detém aproximadamente 12% de toda a água doce superficial do planeta. Possui a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, que regula o clima de todo o continente sul-americano e produz o que os cientistas chamam de “rios voadores” correntes atmosféricas de vapor que geram chuva desde o Nordeste até o Sul do país. O solo brasileiro, depois de décadas de desenvolvimento tecnológico da Embrapa, tornou-se um dos mais produtivos do mundo. O cerrado, que parecia terra perdida há cinquenta anos, hoje responde por parcela expressiva da produção global de soja, milho, algodão e café. O agronegócio brasileiro movimenta mais de um quarto do PIB nacional e coloca o país entre os maiores exportadores de alimentos do mundo, e isso, num momento em que a segurança alimentar global virou pauta de geopolítica.
No subsolo, a história não é menos impressionante. O Brasil possui reservas imensas de minério de ferro, as maiores do mundo em alguns segmentos. Detém reservas estratégicas de nióbio, metal essencial para a indústria de aço de alta performance e para tecnologias de próxima geração, que representam cerca de 95% das reservas mundiais conhecidas. Possui ouro, cobre, lítio, manganês, bauxita e, como revelou um estudo da Brazilian Rare Earths publicado em 2025, depósitos de terras raras com concentrações excepcionais, especialmente nas regiões de Bahia e Minas Gerais.
Some-se a isso a costa atlântica extensa, a localização geográfica privilegiada, a biodiversidade incomparável e uma matriz energética que é, em comparação ao restante do mundo, extraordinariamente limpa, baseada em hidrelétricas, eólica e solar crescente. O Brasil não precisa de petróleo estrangeiro, não depende de rotas de abastecimento no Oriente Médio, não tem vizinhos com quem travou guerras territoriais sérias, não está no caminho de nenhum conflito geopolítico estrutural. Numa época em que o mundo se preocupa obsessivamente com segurança energética, segurança alimentar, estabilidade de cadeias de suprimentos e acesso a minerais críticos, o Brasil tem todas as respostas. Tem-nas no solo, no subsolo, nos rios, nas florestas, na costa.
Há uma outra dimensão dessa riqueza física que merece atenção à parte, porque é de uma brutalidade analítica que poucos brasileiros têm coragem de enunciar com clareza. A Amazônia sozinha armazena carbono suficiente para que, a preços regulados de mercado, valha mais do que o PIB de todos os países da América do Sul combinados. Esse ativo está, no balanço econômico do Brasil, registrado como zero. Não como subestimado. Como zero.
A maior floresta tropical do mundo, que abriga cerca de 10% de todas as espécies da Terra, que regula o ciclo hidrológico de um continente inteiro, que produz oxigênio, que armazena bilhões de toneladas de carbono que, se liberadas, acelerariam a crise climática de maneira irreversível, não aparece em nenhuma conta nacional como o ativo estratégico que é. O mercado voluntário de carbono ainda engatinha. Os mecanismos de pagamento por serviços ambientais ainda são incipientes. A precificação do carbono em escala global ainda é politicamente travada pelas nações que mais emitiram nas últimas décadas e que, curiosamente, são as menos dispostas a remunerar o Brasil pelos serviços ambientais que presta ao planeta. Mas o mundo está mudando. À medida que a crise climática se torna mais urgente e mais cara, a disposição de pagar pelo que a Amazônia representa vai crescer.
Para nós amapaenses, essa percepção deveria ser ainda mais aguçada. O Amapá tem 73% do seu território protegido por unidades de conservação e terras indígenas. Mantém 77% de sua cobertura vegetal nativa, uma taxa de preservação que nenhum outro estado da Amazônia Legal consegue igualar. O Amapá é, literalmente, o estado mais preservado da Amazônia brasileira. Isso que parece uma limitação ao desenvolvimento e frequentemente é tratado assim pelos que defendem o desmatamento como via de progresso é, na virada que o século XXI está promovendo na economia global, um ativo raríssimo. A questão é se teremos a inteligência institucional e política para transformar essa riqueza latente em prosperidade real.
Se o Brasil tem tudo isso, a pergunta que qualquer analista honesto precisa fazer é: por que os ativos brasileiros negociam com desconto profundo em relação a ativos comparáveis em qualquer outra parte do mundo? Por que uma fazenda no cerrado brasileiro vale uma fração do que vale uma fazenda equivalente no Meio-Oeste americano? Por que empresas brasileiras com fundamentos sólidos negociam a múltiplos que fariam corar qualquer analista europeu?
A resposta é conhecida de qualquer empresário que já tentou investir no Brasil, de qualquer advogado que já assessorou uma empresa estrangeira tentando se instalar aqui, de qualquer produtor rural que já tentou obter uma licença ambiental num prazo razoável. O “custo Brasil” não é uma expressão jornalística vaga. É uma realidade concreta e quantificável que encarece cada transação, cada contrato, cada investimento, cada projeto. A burocracia é kafkiana. O sistema tributário é talvez o mais complexo do mundo, um emaranhado de tributos federais, estaduais e municipais que exige que empresas de médio porte mantenham departamentos inteiros de advogados e contadores apenas para cumprir obrigações acessórias. A insegurança jurídica é endêmica; regulações mudam ao sabor de cada governo; agências reguladoras oscilam entre captura política e excesso de intervencionismo. A infraestrutura logística, especialmente relevante para um país de dimensões continentais e vocação exportadora, é um constrangimento permanente.
Aqui chegamos ao ponto mais importante e mais desconfortável desta coluna. A tese de Crawford é sedutora. Os dados que a sustentam são sólidos. A lógica é impecável. Mas há uma advertência que o analista apenas menciona de passagem e que nós, brasileiros, precisamos encarar de frente, porque ela não é teórica. É histórica. E se passa aqui ao lado.
A Venezuela tem as maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Superou a Arábia Saudita nesse indicador. Possui petróleo abundante, território vasto, população jovem, litoral atlântico e posição geográfica estratégica. Em meados do século XX, era o país de maior renda per capita da América Latina. Imigrantes europeus que fugiam do pós-guerra, italianos, espanhóis, portugueses, escolhiam Caracas, não Buenos Aires ou São Paulo, como destino. O bolívar era uma das moedas mais fortes do continente.
Hoje, a Venezuela exporta refugiados. Mais de sete milhões de venezuelanos abandonaram o país na maior diáspora da história da América do Sul. A hiperinflação destruiu gerações de poupança. O sistema de saúde entrou em colapso. A produção de petróleo despencou a tal ponto que o país com as maiores reservas do mundo passou a importar combustível. A PDVSA, outrora uma das mais eficientes petroleiras do continente, tornou-se um instrumento de controle político e deixou de funcionar como empresa.
O que aconteceu na Venezuela não foi acidente, nem obra do imperialismo norte-americano, nem mera consequência da queda do preço do petróleo, embora todos esses elementos tenham sido invocados à exaustão pelos apologistas do regime para explicar o inexplicável. O que aconteceu foi uma escolha. Uma escolha ideológica, deliberada, progressivamente radicalizada, que substituiu o mercado pela planificação estatal, a propriedade privada pela expropriação, a segurança jurídica pela arbitrariedade do poder, e a geração de riqueza pela distribuição de escassez. Hugo Chávez e, depois dele, Nicolás Maduro, transformaram o Estado venezuelano num aparelho de controle político financiado pelo petróleo. Enquanto o preço do barril estava alto, o modelo pareceu funcionar, como todo populismo parece funcionar enquanto há dinheiro para distribuir. Quando os preços caíram e os recursos escassearam, o que sobrou foi um Estado inchado, uma economia destruída, uma classe empresarial exilada ou empobrecida, e um povo submetido a uma miséria sem relação alguma com sua riqueza natural.
Ainda que saibamos que o Brasil não é a Venezuela. Tem instituições muito mais sólidas, uma economia muito mais diversificada, um setor privado muito mais robusto, uma imprensa livre, um Judiciário ativo e uma democracia que, apesar de todos os sobressaltos, sobreviveu a momentos de tensão severa. A comparação direta seria desonesta. Mas a comparação como advertência é legítima e necessária. Porque o Brasil tem, em seu DNA político, tendências que, quando dominantes, conduzem ao mesmo caminho que a Venezuela percorreu, a saber, a tentação do estatismo, a desconfiança crônica do capital privado, o populismo fiscal que distribui hoje o que será pago amanhã em inflação e estagnação, a visão do Estado como agente onipresente e benevolente que deve coordenar a economia, proteger setores ineficientes, criar campeões nacionais à base de subsídio e favorecer grupos políticos aliados com recursos públicos.
Para os leitores que me acompanham, informo que esse debate não é abstrato. O Amapá é, de muitas formas, a síntese mais concentrada de tudo que o Brasil representa como potencial inexplorado. Nosso estado possui jazidas de manganês, ferro, ouro, nióbio, silício, tantalita, cassiterita e cromita. Possui reservas de madeira certificável, biodiversidade de valor científico e farmacológico imenso, potencial para o mercado de créditos de carbono que ainda mal começou a ser explorado, e, segundo anúncios da Petrobras, perspectivas de exploração de petróleo na margem equatorial, na fronteira com a Guiana Francesa. Os pedidos de pesquisa mineral no Amapá cresceram 60% entre 2020 e 2025, segundo dados do setor, refletindo o crescente interesse do capital privado nacional e estrangeiro na riqueza do subsolo amapaense. E, no entanto, o Amapá continua sendo um dos estados de menor desenvolvimento econômico do Brasil. Sua economia é extraordinariamente dependente de transferências federais. O setor privado local é raquítico em relação ao potencial existente. A ausência de uma rodovia que conecte o estado ao restante do país.
A pergunta que o Amapá precisa responder é a mesma que o Brasil precisa responder: como converter riqueza física em prosperidade humana? A resposta não é socializar os recursos, estatizar as empresas, criar programas assistenciais que perpetuam a dependência ou regular a economia com tamanho peso que o investidor privado desiste antes de começar. A resposta é construir um ambiente institucional que atraia capital, respeite contratos, simplifique a vida do empreendedor, forme mão de obra qualificada e garanta que a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais – feita de forma responsável e sustentável, é claro – se converta em receitas que melhorem serviços públicos, educação, saúde e infraestrutura. É o modelo norueguês, e não o venezuelano, que deve servir de inspiração. A Noruega tem petróleo. Criou um fundo soberano que hoje é o maior do mundo, avaliado em mais de um trilhão de dólares, e que pertence ao povo norueguês. Mas criou esse fundo dentro de um ambiente de liberdade econômica, propriedade privada, Estado de Direito e disciplina fiscal que são o oposto do que o chavismo representou. O Chile, com seu cobre, fez algo similar por décadas e colhe os frutos em indicadores de desenvolvimento humano que são os melhores da América do Sul. A diferença entre a Noruega e a Venezuela não está no recurso natural. Está no modelo de governo.
O debate que precisamos ter, com honestidade e sem eufemismos, é sobre as instituições. Precisamos de um Estado que seja forte onde deve ser forte, na garantia dos contratos, no funcionamento da Justiça, na segurança pública, na provisão de infraestrutura que o mercado não provê sozinho e enxuto onde deve ser enxuto na intervenção na economia, na criação de tributos, na regulação que sufoca o empreendedor. Precisamos de uma cultura política que entenda que não há distribuição de riqueza sustentável sem geração de riqueza prévia. Que o Estado não cria valor facilita ou dificulta que os agentes privados o criem. Que o investidor estrangeiro que olha para o Brasil com interesse.
Para encerrar, Crawford fez uma aposta no Brasil. Uma aposta fundamentada, racional, baseada em dados e em análise de longo prazo. Ele acredita que a física vence, que os fundamentos são tão sólidos que eventualmente as disfunções institucionais serão corrigidas e que o Brasil realizará o seu potencial. Eu também acredito nisso. Mas, diferente de Crawford, que pode fazer sua aposta de Nova York ou Londres e aguardar o resultado à distância, nós não temos essa opção. Para nós, brasileiros e especialmente para nós, amapaenses, que vivemos no coração da Amazônia, sobre um dos solos mais ricos do planeta, ao lado de reservas minerais que o mundo vai precisar cada vez mais, o resultado dessa aposta é a nossa vida, a vida dos nossos filhos e a dos nossos netos.
Não podemos nos dar ao luxo de ser passivos nessa equação. Não podemos deixar que ideologias que já falharam em toda parte onde foram testadas e que falharam de forma especialmente cruel aqui ao lado, na Venezuela sejam adotadas, ainda que de forma gradual e com boas intenções declaradas, como o caminho para transformar nosso potencial em prosperidade. A história é clara. A riqueza natural não é suficiente. A Venezuela prova isso. A Noruega e o Chile provam o contrário, que, com as instituições certas, com liberdade econômica, com respeito à propriedade privada e aos contratos, com um Estado disciplinado e funcional, a riqueza natural se transforma em prosperidade real e duradoura.
O Brasil tem o potencial. O Amapá tem o potencial. A questão é se teremos a lucidez política para não desperdiçá-lo. A física está do nosso lado. As próximas décadas dirão se as instituições também estarão.
BRASIL: A MAIOR OPORTUNIDADE MAL APROVEITADA DA HISTÓRIA

