O Carnaval é uma das festas mais emblemáticas da humanidade. Muito antes de se transformar em samba, fantasias e desfiles monumentais, sua origem remonta às antigas civilizações pagãs, como as Saturnálias romanas e os rituais dionisíacos gregos, marcados pela inversão da ordem, pelo excesso e pela celebração dos instintos. Era o tempo do “vale tudo”, quando máscaras escondiam identidades e a permissividade simbolizava uma fuga momentânea das regras sociais.
Com a consolidação do cristianismo, a festa não foi extinta, mas ressignificada. Surge então o Carnaval como o período que antecede a Quaresma — os quarenta dias de recolhimento, penitência e preparação espiritual para a Páscoa. Comer, beber e festejar antes do jejum. Daí a própria etimologia atribuída à expressão carne vale — “adeus à carne”. Um paradoxo histórico: uma festa tolerada, mas não celebrada pela Igreja, que passou a coexistir com ela como um contraponto moral.
No Brasil, o Carnaval encontrou terreno fértil para florescer. Misturou-se à herança africana, ao batuque dos tambores, à criatividade popular e à irreverência do povo. Das marchinhas inocentes que ecoavam nos salões e ruas do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador — cheias de humor, crítica social e alegria singela — evoluímos para os grandes espetáculos dos sambódromos, verdadeiras óperas a céu aberto. Ali, a arte atinge seu auge: coreografias milimetricamente ensaiadas, alegorias monumentais, costura, música, poesia e história contadas em forma de samba-enredo.
Não há como negar os prós do Carnaval. Ele movimenta a economia, gera milhares de empregos temporários, fomenta o turismo, impulsiona a indústria criativa e dá visibilidade a comunidades inteiras que, durante o resto do ano, permanecem à margem. É arte popular viva, é identidade cultural, é expressão coletiva.
Mas seria intelectualmente desonesto ignorar seus contras. Ao lado da arte, caminha a luxúria; junto da celebração, a dor; ao lado da liberdade, a perda de limites. Em muitos casos, os quatro dias de folia tornam-se palco de excessos: alcoolismo, violência, exploração do corpo, banalização da sexualidade e uma egolatria exacerbada, onde o “eu” se sobrepõe a qualquer valor transcendente. A máscara, que antes era símbolo lúdico, passa a esconder feridas emocionais, vazios existenciais e silêncios gritantes.
O Carnaval brasileiro, assim, é contraditório como o próprio ser humano: mistura cultura e deboche, beleza e exagero, riso e lágrimas. É furacão para uns, refúgio para outros. Há quem o viva no barulho ensurdecedor dos trios elétricos; há quem o atravesse em silêncio, recolhimento e oração.
E talvez aí esteja o melhor do Carnaval: a possibilidade de escolha. Escolher festejar com consciência. Escolher apreciar a arte sem se perder no excesso. Ou escolher não participar, honrando a Deus acima de todas as coisas — inclusive do Carnaval. Porque fé também é liberdade, e espiritualidade não se impõe; se vive.
Quando chega a Quarta-feira de Cinzas, as serpentinas se desfazem, os confetes varrem-se das ruas e resta a pergunta que ecoa além da folia: o que fizemos de nós mesmos enquanto celebrávamos? Entre a máscara e a alma, cada um sabe onde pisa. E isso, mais do que qualquer desfile, é o verdadeiro espetáculo da existência.
Carnaval: entre a máscara e a alma
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

