Estou participando de um clube de leitura. A Mari Chagas, idealizadora do projeto junto da Isa Cecatto, foi minha professora na escola. Nunca perdemos o contato, continuamos por perto, trabalhamos juntas e viramos amigas. A quem interessar, o nome do clube é “Bora ler juntas”, no Instagram.
Ele existe desde o primeiro semestre deste ano e eu só comecei a participar agora, não porque a vida anda mais calma, mas exatamente pelo contrário: sinto que preciso me distrair das minhas próprias tensões ou essas vão ser tantas que o meu pescoço vai dar um nó em si mesmo. Não quero me enforcar. Prefiro me ocupar um pouco das neuroses alheias, deixando que ocupem os espaços que puderem ocupar, para me desocupar de mim.
Em uma vida de trabalho virtual, estar com pessoas vira um bálsamo. Quando o encontro é sobre temas que ultrapassam a rotina, é ainda mais especial, mesmo que também seja online. Digo isso porque as grandes ferramentas democráticas através das quais podemos adentrar um novo universo são um sonho, um livro, um filme, uma música, uma conversa… A leitura e a escuta talvez sejam as mais justas, porque não nos entregam nada suficientemente imagético, o que nos permite viajar por nossas próprias imagens mentalmente construídas. A leitura, então, é a que nos conecta a sentimentos, nos abre caminhos e nos desvenda mundos, antes, inimagináveis…
Uma vez, eu devia ter uns 10 anos, tive um projeto na escola onde os alunos precisavam fazer cartazes sobre os benefícios da leitura. Ganhei em primeiro lugar, com um cartaz vermelho com o título “ler é preciso” e com a música “História de um pensamento”, da dupla Glorinha e Renato, fundamental na minha infância. Pesquisem sobre a música e sobre a dupla depois porque vale a pena! Escrita por Gloria Lattinni, ela diz:
“penso, logo existo e se existo, posso criar / lendo o meu livro eu posso até viajar / posso atravessar o tempo como se atravessa uma porta / ir à idade da pedra e ver um dinossauro de quebra / posso ir à festa de rei e contar-lhe minha lei / tenho que aprender a nadar para viver aventuras no mar / no livro o pensamento voa, às vezes você ri à toa / de vez em quando pode até chorar ou até mesmo se apavorar”
Acho que nunca esqueci dessa letra de tanto que ouvi quando criança! Cresci lendo, com pais que sempre me incentivaram. O meu pai, inclusive, é o maior leitor (e escritor) que conheço… Eu, no entanto, precisei passar a ler menos quando fui chegando na adolescência, por causa da demanda escolar e, depois, por causa da faculdade. Priorizava as leituras solicitadas, que eram muitas!
Na pandemia é que pude retomar esse hábito. Ou reconquistar, que acho que talvez seja uma palavra melhor. Hoje, dificilmente saio sem um livro ou o Kindle na bolsa e, há um tempo, leio dois ou mais livros simultaneamente.
Voltando ao clube de leitura, no último mês de agosto, lemos o livro “Ressuscitar mamutes”, da Silvana Tavano. Foram quatro encontros de muita conversa, onde as mulheres participantes declararam umas às outras os impactos da escrita da autora e como, a cada novo encontro, surgiram novos temas para levar para a terapia.
No último dia, tivemos a participação da própria Silvana, que dividiu conosco um pouco do seu processo de escrita e do seu universo como autora e leitora voraz. Existem ministérios que jamais serão desvendados, mas pudemos perguntar algumas coisas, entre elas, se o livro é uma autoficção.
De antemão, posso afirmar que o livro é cinco estrelas e que, sim, a autora mistura fatos de sua vida com coisas inventadas e cria uma narrativa incrível, que ultrapassa o nosso campo sensível e nos faz iniciar um novo caminho de autopercepção sobre as próprias relações. Eu, que adoro pensar, divagar, ler e escrever sobre o tempo, adorei especialmente a forma como a autora fala e se relaciona com ele.
A escrita de Silvana é sofisticada, delicada, sutil e, nos detalhes, extremamente humana, despida de qualquer prolixidade. É nessa nudez perante o tempo que passado, presente e futuro se encontram e são reinventados. Cada página me impactava mais e as pistas deixadas pela autora, todas arrematadas ao longo da história, me deixaram encantada.
O futuro do pretérito, em determinado momento, foi usado estrategicamente. Talvez, da forma mais inteligente que já vi em um romance. A maneira como ela costura a história da mãe com a dos mamutes é genial, especialmente quando nos damos conta do tanto de coisa que coube em um livro tão curtinho.
Andei pensando inquietantemente sobre o livro e sobre tudo o que senti enquanto o lia e acabei não parando de cantarolar essa música da Glorinha e Renato. Quando somos crianças, a leitura nos leva para conhecer os dinossauros e na vida adulta, tudo muda, porque uma simples leitura vira uma análise, uma reflexão de muitas camadas… Na vida adulta, a leitura nos coloca de frente com problemas diferentes dos nossos…
Eu particularmente aprendi algumas coisas com o livro “Ressuscitar mamutes”. Uma delas, sem dúvida, é que somos o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo, no mesmo instante, que podemos chamar de agora. A junção de tudo que já fui, habita hoje. Por isso penso, existo, leio e crio.

