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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Ivonete Teixeira > INDEPENDÊNCIA OU MORTE?
Ivonete Teixeira

INDEPENDÊNCIA OU MORTE?

Ivonete Teixeira
Ultima atualização: 5 de setembro de 2026 às 21:23
Por Ivonete Teixeira 4 horas atrás
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Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga clínica e institucional, especialista em gestão pública.
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Da margem do Ipiranga à liberdade que ainda não aprendemos a exercer
Há frases que atravessam os séculos. Algumas permanecem nos livros de História; outras transformam-se em símbolos nacionais. “Independência ou Morte!” é uma delas.
Todos os anos, no dia 7 de setembro, o Brasil veste suas cores, hasteia a bandeira, executa o Hino Nacional e recorda a cena tradicional do jovem príncipe às margens do Ipiranga, em São Paulo, declarando a ruptura com Portugal.
Mas talvez seja necessário fazer uma pergunta que ultrapasse a solenidade dos desfiles:
Independência de quem? Para quem? E, principalmente, independência para quê?
A História oficial costuma apresentar a Independência como um grande ato fundador da nacionalidade brasileira. Entretanto, quando retiramos o brilho épico da pintura, da música e dos discursos cívicos, encontramos uma realidade política bem mais complexa.
O Brasil ainda não era, propriamente, uma nação construída em torno de uma consciência cidadã comum. Era um território imenso, socialmente desigual, escravocrata, formado por populações diversas, submetido durante séculos à lógica colonial e governado por uma elite que tinha muito mais familiaridade com as estruturas do poder do que com o conceito moderno de cidadania.
A Independência brasileira foi, em grande medida, uma negociação política, dinástica e econômica.
Antes do famoso grito do Ipiranga, houve o Dia do Fico. Em 9 de janeiro de 1822, Pedro decidiu permanecer no Brasil, contrariando as determinações das Cortes portuguesas que pretendiam seu retorno a Portugal.
“Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico.”
O episódio foi decisivo; meses depois, em setembro, a ruptura seria simbolicamente consagrada às margens do Ipiranga, nascia, então, o Império do Brasil.
Mas o povo brasileiro ainda precisaria nascer politicamente.
E talvez esteja justamente aí uma das grandes ironias de nossa História: o Brasil conquistou a independência política antes de conquistar plenamente a independência social.
A escravidão continuou. As desigualdades continuaram. O poder permaneceu concentrado. Grande parte da população permaneceu excluída das decisões políticas. A independência não significou, imediatamente, liberdade para todos.
E talvez essa seja uma das maiores lições que o 7 de setembro pode oferecer ao brasileiro contemporâneo: a independência de um território não é necessariamente a independência de um povo.
O Brasil independente ainda precisava aprender a ser brasileiro
Mais de dois séculos depois, a pergunta permanece: O que significa ser independente?
Será simplesmente não obedecer a uma potência estrangeira? Será possuir uma bandeira, um hino, um território e um governo próprio?
Ou independência significa algo muito maior: possuir consciência histórica, capacidade crítica, liberdade de pensamento, responsabilidade social e participação efetiva na construção do destino coletivo?
A Constituição brasileira de 1988 estabeleceu, em seu artigo 5º, um extenso conjunto de direitos e garantias fundamentais. A liberdade, a igualdade, a manifestação do pensamento, a consciência e tantos outros direitos estão inscritos na chamada Constituição Cidadã.
Mas uma Constituição pode garantir direitos no papel.
Quem garante que o cidadão conheça esses direitos e saiba exercê-los?
Essa é outra batalha pela independência. Porque um povo que não conhece seus direitos pode tornar-se dependente daqueles que falam em seu nome.
Um povo que desconhece sua História pode aceitar qualquer versão conveniente do passado.
Um povo que abandona a capacidade de pensar pode trocar a antiga submissão colonial por novas formas de dependência.
E elas nem sempre chegam com navios estrangeiros.
O novo colonizador não precisa atravessar o oceano
Talvez o nosso tempo tenha criado formas muito mais sofisticadas de dependência.
Não há mais necessariamente uma autoridade estrangeira determinando, de maneira explícita, o que devemos pensar. Hoje existem algoritmos, plataformas digitais. influenciadores, bolhas ideológicas, desinformação, economias de atenção, inteligência artificial, excesso de informação.
E uma espécie de modernidade líquida na qual as certezas evaporam com a mesma velocidade com que surgem novas narrativas.
O inimigo contemporâneo talvez não tenha rosto.Talvez não esteja além-mar.
Talvez esteja dentro da própria estrutura pela qual consumimos informação, formamos opiniões e escolhemos em quem acreditar.
Isso não significa demonizar a tecnologia. Ao contrário: tecnologia é ferramenta extraordinária de conhecimento e transformação.
O problema começa quando a ferramenta passa a comandar o usuário.
Quando o algoritmo escolhe aquilo que devemos ver.
Quando a opinião substitui o conhecimento.
Quando a repetição transforma uma afirmação em “verdade”.
Quando a ideologia impede a pergunta.
E quando o cidadão deixa de pensar para simplesmente seguir.
Nesse momento, a independência começa a morrer.
Os três poderes, o quarto poder e o poder que quase sempre esquecemos
Costumamos falar nos três poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Também reconhecemos, no cotidiano democrático, a enorme influência da imprensa e dos meios de comunicação — frequentemente chamados de “quarto poder”. Mas existe um poder anterior a todos eles:
o povo.
Sem povo consciente, a democracia pode conservar suas instituições e perder sua essência.
O cidadão não deveria ser apenas aquele que vota periodicamente.
Deveria ser aquele que acompanha, questiona, participa, fiscaliza, estuda, compara informações e compreende que liberdade também significa responsabilidade.
Independência não é fazer tudo o que se quer. É compreender por que se escolhe aquilo que se faz, é saber dizer não, saber discordar. É respeitar quem pensa diferente. É não entregar a própria consciência a ninguém — seja político, líder religioso, celebridade, professor, influenciador, partido, grupo ideológico ou algoritmo.
A verdadeira independência começa dentro da consciência.
E os símbolos nacionais?
Talvez seja justamente por isso que a educação histórica e cívica mereça ser retomada.
Não como doutrinação, não como culto cego ao Estado, não como obrigação de transformar personagens históricos em heróis intocáveis. Mas como exercício de memória.
Minha geração aprendeu a cantar os hinos, conhecer a bandeira, reconhecer o brasão, respeitar os símbolos nacionais e compreender que havia uma História anterior à nossa própria existência.
Hoje, muitas crianças e jovens conhecem personagens de séries, celebridades digitais e acontecimentos instantâneos, mas podem desconhecer acontecimentos fundamentais da formação do próprio país.
Não se trata de dizer que o passado era perfeito. Longe disso.
Conhecer História não significa sentir orgulho de tudo o que aconteceu.
Significa ter maturidade para compreender inclusive aquilo que nos envergonha.
Um país que conhece sua História pode criticá-la.
Um país que desconhece sua História fica vulnerável a inventá-la.
E quem controla a narrativa do passado frequentemente ganha poder sobre o presente.
O príncipe soldado
Existe ainda uma curiosidade histórica que merece reflexão.
Em Portugal, Pedro — nosso primeiro imperador e também Pedro IV português — ocupa um lugar muito particular na memória nacional. É lembrado como o Príncipe Soldado, figura ligada à causa liberal e às lutas políticas portuguesas.
No Brasil, porém, sua imagem é muito mais ambígua.
Dom Pedro I foi o homem do Ipiranga, o fundador do Império brasileiro, o jovem príncipe que enfrentou as Cortes portuguesas e assumiu o comando de um país que começava a construir sua identidade.
Mas também foi um homem de seu tempo, com todas as contradições de uma monarquia, de uma sociedade escravocrata e de uma estrutura de poder que estava longe dos valores democráticos contemporâneos. Talvez seja justamente isso que devamos ensinar.
Não precisamos destruir nossos personagens históricos para enxergá-los. Nem precisamos santificá-los.
História adulta não fabrica santos nem demônios. História adulta compreende seres humanos dentro de seu tempo.
Pedro de Alcântara não criou sozinho o Brasil.
O Brasil foi construído por indígenas, africanos escravizados e libertos, portugueses, imigrantes, mestiços, trabalhadores, soldados, intelectuais, mulheres, camponeses, comerciantes e tantos outros homens e mulheres cujos nomes sequer chegaram aos livros.
O grito do Ipiranga foi um momento. A construção do Brasil foi — e continua sendo — um processo.
Independência ou morte: a pergunta voltou
Talvez a frase de 1822 precise ser ressignificada.
Não estamos mais diante de um Portugal que ordena o retorno de um príncipe.
Não precisamos de um novo grito às margens de um riacho.
Precisamos de cidadãos.
Cidadãos capazes de ler, interpretar, de investigar, de discordar, de reconhecer manipulações, de respeitar a Constituição.
De conhecer seus direitos e cumprir seus deveres.
De compreender que democracia não é autorização para cada um fazer aquilo que deseja, mas construção permanente de uma sociedade na qual liberdade e responsabilidade caminham juntas.
Talvez o grande movimento de independência do século XXI não seja contra uma potência estrangeira, mas contra a ignorância, contra a manipulação, contra a intolerância e a dependência intelectual, contra a incapacidade de pensar.
Contra a transformação do cidadão em mero consumidor de narrativas.
Um dia, talvez, nossos descendentes precisem recorrer à História — quem sabe até à arqueologia — para compreender como chegamos até aqui.
E talvez encontrem os vestígios de uma civilização que possuía tecnologia extraordinária, inteligência artificial, comunicação instantânea e acesso quase ilimitado à informação, mas que precisou reaprender algo muito antigo:
pensar por si mesma.
Porque independência não é apenas libertar-se de quem manda. É aprender a governar a própria consciência. Em 1822, um príncipe declarou que ficava. Hoje, talvez seja a vez do cidadão brasileiro declarar que também fica.
Fica na democracia, na História, na responsabilidade, na liberdade de pensar, na defesa de seus direitos, fica na construção de um país melhor.
E, sobretudo, fica consciente de que nenhum poder é verdadeiramente soberano quando o povo abre mão da própria consciência.
Independência ou morte?
Mais de duzentos anos depois, a pergunta continua atual.
Talvez a morte que devamos evitar não seja a de um corpo, mas a morte silenciosa de uma nação que deixa de conhecer sua História, abandona seus símbolos, terceiriza seu pensamento e entrega sua liberdade sem perceber.
Porque um povo pode perder uma guerra e reconstruir-se. Pode perder riquezas e recuperá-las. Pode atravessar crises e sobreviver. Mas quando perde a capacidade de pensar por si mesmo, começa a perder aquilo que torna possível qualquer verdadeira independência.

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Ivonete Teixeira 5 de setembro de 2026 5 de setembro de 2026
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