A humanidade sempre buscou a cura. Desde os antigos curandeiros, passando pelos grandes mestres da medicina, até os modernos avanços científicos, o ser humano continua perseguindo o mesmo ideal: viver com saúde, dignidade e plenitude. No entanto, uma pergunta permanece ecoando através dos séculos: o que, de fato, significa curar-se?
Os médicos alemães Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke, em sua obra A Doença como Caminho, apresentam uma perspectiva instigante. A partir de suas observações clínicas, propõem que a doença pode ser compreendida não apenas como um evento biológico, mas também como um sinal carregado de significado. Segundo essa visão, existe um ponto de mutação em que aquilo que se manifesta como dor pode transformar-se em oportunidade de crescimento. O sofrimento deixa de ser apenas um inimigo para tornar-se um mensageiro, chamando a atenção para aspectos da vida que foram negligenciados.
Nessa compreensão, a dor funciona como uma sineta. Ela desperta, interrompe o automatismo da rotina e convida a pessoa a revisitar escolhas, pensamentos, emoções e relacionamentos. Não significa afirmar que toda enfermidade tenha uma única causa emocional ou espiritual, nem substituir os cuidados médicos necessários. Significa reconhecer que, em muitos casos, a experiência do adoecimento também pode suscitar uma profunda transformação interior.
Ao longo da minha prática terapêutica, de cursos e atendimento de grupos, tenho observado que grande parte do sofrimento humano nasce da forma como interpretamos e reagimos aos acontecimentos da vida. São padrões mentais que, muitas vezes inconscientemente, dirigem nossas escolhas, nossos relacionamentos e até nossa maneira de enfrentar as adversidades.
A síndrome de Gabriela, “eu nasci assim, vou ser sempre assim…” do Romance espetacular de Jorge Amado, GABRIELA, CRAVO E CANELA, de 1958, reflete aquela crença, já consciente de que, a pessoa é assim mesmo não vai mudar e quem quiser que a ature.
Identifico quatro estilos mentais recorrentes que costumam assumir o controle da personalidade quando ainda não desenvolvemos suficiente autoconhecimento. E quando ainda não exercitamos a PNL, Programação Neurolinguística de ir se auto regulando, reprogramando padrões, crenças e atitudes que estão dificultando a convivência com seus pares.
O primeiro é a mentalidade da vítima, que transfere aos outros a responsabilidade pela própria felicidade e permanece aguardando que alguém resolva suas dores. O coitadismo adoece e paralisa a vida de quem vive dessa maneira.
O segundo é o vingador, que alimenta ressentimentos, revive continuamente as ofensas sofridas e acredita que a reparação virá pela punição do outro.
O terceiro é o narcisista, que coloca o próprio ego no centro de tudo, tem enorme dificuldade em reconhecer limites e resiste às mudanças necessárias para o crescimento.
O quarto é o controlador, que tenta administrar todas as pessoas e circunstâncias por medo da incerteza, esquecendo-se de que a vida possui movimentos que escapam ao nosso domínio.
Muitas vezes esses estilos estão presentes e misturados em nossas percepções, compreensões e atitudes reativas.
Esses estilos não definem quem somos. São mecanismos de defesa construídos ao longo da existência e que podem ser reconhecidos, compreendidos e transformados. Quanto maior o autoconhecimento, menor o domínio dessas estruturas sobre nossa vida.
É justamente nesse processo que a saúde começa a florescer. A maturidade emocional não elimina todas as dores, mas modifica profundamente nossa maneira de vivê-las. A pessoa deixa de lutar contra si mesma e inicia um caminho de reconciliação interior. Descobre que paz não significa ausência de problemas, mas presença de consciência.
Vivemos numa sociedade acostumada a procurar soluções externas para conflitos internos. Esperamos que um remédio cure a tristeza, que outra pessoa cure nossos vazios, que o sucesso cure nossas inseguranças. Contudo, há um espaço da existência onde ninguém pode caminhar em nosso lugar.
Todos podem ajudar. Médicos, psicólogos, terapeutas, familiares, amigos, líderes espirituais e educadores desempenham papéis preciosos na recuperação do ser humano. O conhecimento científico, a medicina baseada em evidências, os tratamentos adequados, a escuta qualificada e o afeto salvam vidas e jamais devem ser desprezados.
Entretanto, existe uma etapa da cura que permanece intransferível: a decisão íntima de transformar a própria consciência. Nenhum profissional pode fazer essa escolha pelo paciente. Nenhuma técnica substitui a coragem de olhar para si mesmo.
Curar-se é um verbo reflexivo. É reconhecer que, embora não possamos controlar tudo o que nos acontece, podemos transformar a maneira como respondemos aos desafios da existência.
Talvez a verdadeira saúde comece exatamente quando deixamos de perguntar apenas: “Como faço para eliminar esta dor?” e passamos a perguntar: “O que esta experiência está me convidando a aprender?”
Nesse instante, a doença deixa de ser apenas um obstáculo e pode tornar-se uma mestra silenciosa. A dor perde parte de seu poder destrutivo e converte-se em possibilidade de crescimento.
A cura, então, deixa de ser apenas a ausência de sintomas e passa a ser um estado de reconciliação consigo mesmo, com a vida e com o propósito de existir.
Porque, no final, todos podem estender as mãos para ajudar. Mas a travessia mais importante acontece no interior de cada ser humano. É ali que nasce a verdadeira cura. Uma cura íntima, consciente, autorrealizável e, sobretudo, intransferível.
Cura-se a si mesmo
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

