“De janeiro a janeiro” é uma expressão popular que atravessa gerações e carrega em si a ideia de continuidade, permanência e, muitas vezes, de repetição. Ela sugere o fluxo ininterrupto do tempo, mas também denuncia um risco silencioso: o continuísmo inerte, aquele em que os anos passam sem que mudanças reais sejam implementadas na vida prática das pessoas.
Janeiro, culturalmente, ocupa um lugar simbólico. É o mês dos recomeços, das promessas, das listas e dos planos. Contudo, a experiência coletiva mostra que, na maioria das vezes, fevereiro chega e leva consigo as intenções não estruturadas. Falta método, falta clareza e, sobretudo, falta ação sustentada.
Faltando ação sobra reclamação muitas vezes, e daí pro vitimismo é só ladeira abaixo; a procissão das queixas são inúmeras e a mente viciada na mesmice retoma o barco nas mesmas rotas do passado e, mais do mesmo se repete.
Sob um paradigma hermenêutico, janeiro pode ser reinterpretado não como um mês mágico, mas como um marco racional de organização da vida econômica e existencial. Imagine entrar janeiro com, pelo menos, três cestas simbólicas para guardar o que se ganha ao longo do mês — e dos meses seguintes.
A primeira cesta é a do poupar. Não se trata de luxo nem de sobra, mas de consciência financeira. Poupar é um ato político e ético consigo mesmo; é reconhecer que o futuro exige preparo e que o improviso cobra juros altos.
A segunda cesta é a do gastar consigo mesmo, sem culpa. Cuidar da própria saúde, investir em estudo, lazer e bem-estar não é desperdício, é manutenção da própria capacidade produtiva e emocional.
A terceira cesta é a do gastar com a família, entendida aqui como núcleo de responsabilidade afetiva e social. Sustentar, educar e proteger também são formas de investimento.
Essa lógica das três cestas dialoga, por analogia crítica, com a conhecida parábola das três peneiras, frequentemente usada para filtrar palavras antes de serem ditas. Adaptada para uma abordagem racional e econômica, a moral não é espiritualizante, mas prática: o que entra na vida precisa ser organizado antes de sair de forma desordenada. Assim como palavras impensadas geram ruídos, recursos mal direcionados geram estagnação.
Nada muda apenas porque o calendário virou. As coisas só mudam quando agimos com passos novos e propósitos claros. Janeiro não resolve nada sozinho. Ele apenas inaugura um ciclo de doze meses que exigirá constância, disciplina e decisões, muitas vezes, difíceis. Planos de janeiro precisam ser robustos o suficiente para enfrentar os onze meses que se seguirão, com suas crises, imprevistos e tentações de abandono.
É preciso dizer com todas as letras: não é energia positiva pueril que sustenta projetos, tampouco misticismos de virada de ano. O que sustenta mudanças reais é comprometimento, estudo, planejamento e ação contínua. O resto é retórica vazia que conforta, mas não transforma.
Ao final, janeiro nos devolve uma pergunta incômoda, porém necessária:
de janeiro a janeiro, você pretende repetir a mesmice ou transformar esse ciclo em um verdadeiro ponto de virada?
A resposta não está nos astros, nem nas promessas. Está nas escolhas diárias que começam agora — e se confirmam mês após mês.
De janeiro em janeiro: mesmice ou ponto de virada?
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

