Há episódios na política que duram o tempo de uma manchete. Outros começam como constrangimento e terminam produzindo exatamente o contrário: uma narrativa de vitória.
Foi o que aconteceu com o senador Randolfe Rodrigues, o presidente Lula e a criação da Universidade Federal da Fronteira Norte, em Oiapoque.
Tudo começou com um ralho.
Randolfe, líder do governo no Congresso Nacional, apresentou o projeto de criação da universidade a partir da transformação do campus da Universidade Federal do Amapá em Oiapoque. A proposta avançou no Congresso e foi aprovada.
Havia, porém, uma questão constitucional: a criação de uma universidade federal, por envolver a estrutura administrativa da União, é matéria cuja iniciativa compete ao Poder Executivo.
Lula chamou a atenção para isso e anunciou que vetaria o projeto.
Politicamente, o episódio caiu como uma luva para os adversários de Randolfe. A oposição explorou a reprimenda presidencial como demonstração de fragilidade do senador, justamente diante do governo do qual é líder no Congresso.
Parecia uma derrota pronta para ser explorada na próxima campanha.
Randolfe, entretanto, fez uma escolha inteligente: não fugiu do ralho. Apropriou-se dele. Disse que estava disposto a levar todos os ralhos necessários se, ao final, pudesse ver nascer a universidade de Oiapoque.
A frase mudou o sentido da história.
O que parecia um problema de ego tornou-se uma questão de objetivo.
Maquiavel ensinou que a política se move entre a fortuna, aquilo que as circunstâncias nos impõem, e a virtù, a capacidade de agir sobre elas. Randolfe não podia apagar o episódio, mas podia decidir o que fazer com ele.
E fez.
Lula, por sua vez, poderia simplesmente vetar o projeto e encerrar o assunto sob o argumento constitucional. Preferiu corrigir o caminho sem abandonar o destino.
E então veio a cena que virou o jogo.
Ao assinar o ato que concretizava a criação da Universidade Federal da Fronteira Norte, o presidente dirigiu-se ao senador:
“Randolfe, estou lhe devolvendo a sua universidade.”
O ralho virou realidade.
A imagem que antes servia aos adversários para apresentar Randolfe como desautorizado passou a mostrar o senador ao lado do presidente da República no momento em que uma antiga aspiração do Amapá se transformava em decisão de governo.
Hegel via na contradição uma das forças do movimento da história. Guardadas as proporções, há algo de dialético nesse episódio: aquilo que parecia negar uma conquista terminou impulsionando sua realização.
E a Unifron possui significado que vai muito além da disputa eleitoral.
Oiapoque é uma das regiões mais estratégicas do Brasil. Ali encontramos a Guiana Francesa e, por consequência, uma fronteira com a União Europeia. É uma região onde se cruzam Amazônia, povos indígenas, biodiversidade, ciência, integração internacional e as novas perspectivas econômicas da Margem Equatorial.
Uma universidade naquela fronteira é presença do Estado brasileiro.
É conhecimento produzido a partir da Amazônia, e não apenas sobre ela.
É oportunidade para milhares de jovens e uma ponte acadêmica entre o Amapá, o Brasil, a França e o Caribe.
Naturalmente, o episódio terá consequências políticas.
Randolfe caminha para buscar seu terceiro mandato no Senado e ganha uma história poderosa para contar: apresentou o projeto, enfrentou o obstáculo constitucional, recebeu a reprimenda presidencial, afirmou que suportaria outros ralhos pelo mesmo objetivo e terminou vendo o próprio presidente transformar aquela ideia em realidade.
Na política, nem sempre vence quem nunca escorrega. Muitas vezes vence quem sabe o que fazer depois do escorregão.
A oposição comemorou cedo demais.
Randolfe percebeu que a música ainda estava tocando.
E, em vez de permanecer no chão explicando a queda, levantou-se no movimento seguinte.
Fez do escorregão um passo de tango.
No final, ficou o ralho.
Mas ficou, sobretudo, a realidade
Mcp, verão de 2026.

