Meus amados irmão em Cristo Jesus, “(9) …vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz. (10) Antes, vocês não eram o povo de Deus, mas agora são o seu povo; antes, não conheciam a misericórdia de Deus, mas agora já receberam a sua misericórdia. (1 Pedro 2.9-10).” Devo lembrar que a vida cristã é marcada por espera, escuta e resposta. Esperamos a ação de Deus, ouvimos a sua voz e somos chamados a responder com fé e obediência. No entanto, essa dinâmica não é simples. Muitas vezes esperamos em meio à dor, ouvimos em meio ao barulho do mundo que tenta nos sufocar de desfocar a nossa fé e ainda hesitamos em responder por causa do medo, da insegurança ou do sentimento de indignidade, que é um fato, pois em nós não há dignidade. Nós vivemos pelos méritos de Cristo que vem ao encontro do seu povo. E quem o conhece pela fé pode dizer a exemplo de João Batista: “— Aí está o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”
Os textos bíblicos de hoje nos colocam exatamente nesse movimento. Eles falam de um Deus que age, chama e sustenta; e de um povo que espera, é chamado pelo nome e é convidado a seguir o Cordeiro de Deus. Isto podemos dizer pelo fato que o Salmo 40.1-11, nos apresenta a experiência pessoal de alguém que esperou com paciência e viu o Senhor agir. Por sua vez ao Isaías 49.1-7, amplia o horizonte e fala do chamado do Servo do Senhor, escolhido desde o ventre, para ser luz para as nações. Em 1 Coríntios 1.1-9, o apóstolo Paulo lembra à igreja que ela foi chamada por Deus, sustentada por Cristo e firmada na graça. E, finalmente, no Evangelho de João 1.29-42, ouvimos o testemunho decisivo de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus”, que leva dois discípulos a deixarem tudo para seguir Jesus. Isso precisava acontecer, pois João tinha certeza de que era preciso que Jesus ficasse mais conhecido… João diz em João 3.30: “Ele tem de ficar cada vez mais importante, e eu, menos importante”.
Esses textos nos conduzem a uma pergunta central: quem é esse Deus que chama, sustenta e envia? E, ao mesmo tempo, nos confrontam com outra pergunta igualmente importante: como respondemos ao chamado daquele que tira o pecado do mundo? Temos vários exemplos de pessoas que são chamadas durante o contexto bíblico: Abraão, que devia sair da sua terra e ir para uma terra distante, José que por meio da inveja de certo modo foi chamado ao Egito, para mais tarde sua ida apontar para Cristo que libertaria o povo. Também temos vários chamados de pessoas para serem profetas, os próprios galileus que foram chamados para serem Apóstolos e nós que mediante a pregação do Evangelho de Cristo somos chamados a esperar em Cristo, a continuarmos a escutá-lo e em resposta servi-lo em obediência a sua Palavra por ser ele o próprio Deus. Essa é a vida cristã.
Por isso à luz desses textos, somos convidados a reconhecer que a fé cristã não começa com a nossa iniciativa, mas com a ação graciosa de Deus. Ele nos chama, nos alcança na espera, nos sustenta na fraqueza e nos conduz a seguir Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e o nosso.
Neste sentido o nosso Deus é um Deus que ouve o clamor dos que esperam – Salmo 40.1-11, e o Salmo 40 começa com uma confissão profundamente humana e, ao mesmo tempo, cheia de esperança: “Esperei com paciência pela ajuda de Deus, o Senhor. Ele me escutou e ouviu o meu pedido de socorro.” (Sl 40.1 – NTLH). Aqui não encontramos um herói espiritual que nunca sofre ou dúvida. Encontramos alguém que espera. E essa espera não é passiva, mas marcada por confiança. Esperar pelo Senhor, na linguagem bíblica, não significa cruzar os braços, mas lançar-se nas mãos de Deus quando já não há mais recursos humanos.
O salmista descreve sua situação como um “poço de desespero” e um “brejo de lama” (“Tirou-me de uma cova perigosa, de um poço de lama.” (Sl 40.2)). Essa imagem revela instabilidade, insegurança e perigo. Quantas vezes a nossa vida também parece assim? Situações em que o chão desaparece, em que não sabemos para onde ir, em que a fé é colocada à prova. A beleza da vida literalmente pede o brilho. Murchamos como planta sem água e exposta ao sol.
Mas o centro do salmo não está no poço, e sim na ação de Deus, o salmista diz: “Tirou-me de uma cova perigosa, de um poço de lama. Ele me pôs seguro em cima de uma rocha e firmou os meus passos.” (Sl 40.2 – NTLH). Deus é aquele que desce até onde estamos e nos coloca em lugar firme. A resposta do salmista é louvor e testemunho: “Ele me ensinou a cantar uma nova canção, um hino de louvor ao nosso Deus.” (Sl 40.3 – NTLH).
Esse louvor não é apenas individual. Ele se torna testemunho público “Quando virem isso, muitos temerão o Senhor e nele porão a sua confiança. (Sl 40.3 – NTLH).” A experiência pessoal da salvação se transforma em anúncio da graça de Deus. O salmo também deixa claro que Deus não se agrada de um culto vazio, desconectado da vida: “(6) Tu não queres animais oferecidos em sacrifício, nem ofertas de cereais. Não pediste que animais fossem queimados inteiros no altar, nem exigiste sacrifícios oferecidos para tirar pecados. Pelo contrário, tu me destes ouvidos para ouvir, (7)e por isso respondi: “Aqui estou; as tuas instruções para mim estão no Livro da Lei.” (Sl 40.6 – NTLH).
Meus irmãos, Deus deseja obediência, confiança e um coração disposto. Essa disposição prepara o caminho para compreendermos o chamado do Servo do Senhor em Isaías e, finalmente, a revelação plena em Jesus Cristo.
Por meio do profeta Isaias, nós conhecemos um Deus que chama desde o ventre e faz do fraco um instrumento – Isaías 49.1-7. Em Isaías 49 ouvimos a voz do Servo do Senhor, que declara: “Nações distantes, escutem o que eu, o servo de Deus, estou dizendo; prestem atenção, todos os povos do mundo! Eu ainda estava na barriga da minha mãe, quando o Senhor Deus me escolheu; eu nem havia nascido, quando ele me chamou pelo nome.” (Is 49.1 – NTLH).
Aqui vemos que o chamado de Deus antecede qualquer mérito humano. Deus tem um plano que é eterno. E um dos aspectos é: Deus quer o seu povo com Ele, e faz isso mediante a Obra Redentora de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. Antes de qualquer ação, já há eleição. Antes de qualquer resposta, já há graça. O Servo não se apresenta como alguém autossuficiente. Pelo contrário, ele confessa sua sensação de fracasso: “Mas eu pensei: “Todo o meu trabalho não adiantou nada; todo o meu esforço foi à toa.” Mesmo assim, eu sei que o Senhor defenderá a minha causa, que o meu Deus me recompensará.” (Is 49.4 – NTLH).
Essa confissão é profundamente consoladora. Mesmo o Servo do Senhor experimenta o sentimento de inutilidade e cansaço. Ainda assim, ele confia: “O Senhor defenderá a minha causa, que o meu Deus me recompensará.” (Is 49.4 – NTLH).”
Deus responde reafirmando o chamado e ampliando sua missão: “O Senhor me disse: “Você não será apenas o meu servo que trará de volta os israelitas que ficaram vivos e criará de novo a nação de Israel. Eu farei também com que você seja uma luz para os outros povos a fim de levar a minha salvação ao mundo inteiro.”” (Is 49.6 – NTLH).
O Deus bíblico não pensa pequeno. Sua salvação não se limita a um grupo, mas alcança os confins da terra. Esse texto aponta claramente para Cristo, o Servo rejeitado e, ao mesmo tempo, exaltado: “O Senhor, o Santo Deus de Israel,
o seu Salvador, fala com o seu servo… O Senhor diz ao seu servo:
“Reis e príncipes verão o seu poder; eles virão e se ajoelharão aos seus pés em sinal de respeito…Pois eu, o Senhor, cumpro as minhas promessas; eu, o Santo Deus de Israel, escolhi você para ser o meu servo.”” (Is 49.7 – NTLH).
O Servo sofre rejeição, mas Deus o glorifica. Essa dinâmica se cumpre plenamente em Jesus, o Cordeiro de Deus, que é rejeitado, crucificado e exaltado para a salvação do mundo.
Este mesmo Deus que sustenta a igreja na graça – 1 Coríntios 1.1-9, por isso ao escrever aos coríntios, Paulo começa lembrando que a igreja não é fruto de um projeto humano, mas do chamado de Deus: “Eu, Paulo, que fui chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Cristo Jesus” (1Co 1.1 – NTLH).
A vida cristã existe porque Deus chama. E esse chamado vem acompanhado de promessas: “Eu sempre agradeço ao meu Deus por causa da graça que ele tem dado a vocês por meio de Cristo Jesus.” (1Co 1.4 – NTLH). Paulo reconhece os dons da igreja, mas não os separa da fidelidade de Deus: “vocês não têm deixado de receber nenhum dom espiritual” (1Co 1.7 – NTLH). O centro não são os dons, mas Cristo: “Cristo vai conservá-los firmes até o fim” (1Co 1.8 – NTLH). A base da segurança cristã não está na perfeição da igreja, mas na fidelidade de Deus: “Deus é fiel” (1Co 1.9 – NTLH).
Essa afirmação é fundamental. A igreja vive entre falhas e conflitos, mas permanece sustentada pela graça. Assim como o salmista foi tirado do poço, como o Servo foi sustentado na aparente inutilidade, assim também a igreja é mantida firme não por sua força, mas pela fidelidade de Deus revelada em Cristo.
Isso pelo fato que Jesus é “O Cordeiro de Deus” – João 1.29-42a. Neste sentido todos os textos de hoje encontram-se no Evangelho de João. João Batista aponta para Jesus e declara: “Aí está o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29 – NTLH). Essa frase concentra toda a teologia do Evangelho. Jesus é o Cordeiro, aquele que se oferece em sacrifício, cumprindo as promessas do Antigo Testamento. Ele não apenas cobre o pecado, mas o tira. João reconhece que sua missão é preparar o caminho: “Eu vi isso e por isso dou testemunho de que ele é o Filho de Deus” (Jo 1.34 – NTLH).
O testemunho de João gera movimento. Vejamos, dois dos seus discípulos ouvem e seguem Jesus. O encontro é simples, quase cotidiano. Jesus pergunta: “O que é que vocês estão procurando?” (Jo 1.38 – NTLH). Essa pergunta ecoa até hoje. O que buscamos? Segurança? Sentido? Perdão? Vida nova? A resposta de Jesus é um convite: “Venham e vejam” (Jo 1.39 – NTLH). Seguir Jesus não começa com todas as respostas, mas com um passo de confiança. André, ao encontrar o Messias, não guarda a boa notícia para si: “Achamos o Messias” (Jo 1.41 – NTLH). A pergunta para você é: O que você vem buscar na igreja? Deus permita que teu coração confesse: Busco o Messias, meu Salvador! Pois, o encontro com o Cordeiro gera testemunho, assim como no Salmo 40.
Por isso, imagine alguém preso em um pântano. Quanto mais se debate, mais afunda. Gritar parece inútil, esperar parece desesperador. Mas, de longe, alguém ouve o clamor. Essa pessoa se aproxima, estende uma corda firme, pisa em solo seguro e puxa com força. O resgate não depende da força de quem está preso, mas da firmeza de quem puxa.
Assim é a ação de Deus nesses textos. O salmista estava no poço, o Servo se sentia inútil, a igreja de Corinto era frágil, os discípulos estavam procurando sentido. Em todos os casos, é Deus quem toma a iniciativa. Ele chama, sustenta e conduz até Jesus, o Cordeiro de Deus, que nos puxa para fora do pecado e nos coloca sobre a rocha firme.
Conclusão
Os textos de hoje nos mostram um Deus que age antes de nós, por nós e conosco. Ele ouve o clamor dos que esperam, chama desde o ventre, sustenta a igreja na graça e aponta para Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Diante disso, somos convidados a confiar, mesmo quando estamos no poço; a servir, mesmo quando nos sentimos fracos; a permanecer na comunhão, mesmo em meio às falhas; e, sobretudo, a seguir Jesus.
Que possamos, como os primeiros discípulos, ouvir o testemunho, responder ao convite de Cristo e dizer com a vida e com as palavras: nós encontramos o Cordeiro de Deus. Amém.
“EIS O CORDEIRO DE DEUS: CHAMADOS PARA CONFIAR, SERVIR E SEGUIR”
Pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Macapá – Congregação
Cristo Para Todos; também atua como Missionário em Angola e Moçambique

