Antes que o primeiro ser humano deixasse suas pegadas sobre a terra úmida, o planeta já pulsava vida. Florestas, oceanos, insetos minúsculos e gigantes colossais — como os dinossauros — dominaram eras inteiras sem jamais escrever uma linha de história, mas deixando registros profundos nas camadas do tempo. A Terra existiu, prosperou e se reorganizou inúmeras vezes sem a presença humana. A pergunta que ecoa, então, é inevitável: somos nós o ápice da criação ou o seu maior risco?
Do ponto de vista arqueológico, a espécie humana é recém-chegada. Enquanto os dinossauros reinaram por mais de 160 milhões de anos, o Homo sapiens ocupa o planeta há cerca de 300 mil anos — um piscar de olhos na escala geológica. Antes de nós, outras espécies humanas surgiram e desapareceram, como o Homo neanderthalensis e o Homo erectus, confirmando que a extinção não é exclusividade dos animais ditos “inferiores”.
O darwinismo nos ensina que a vida evolui por adaptação e seleção natural. Nesse processo, não há hierarquia moral, apenas sobrevivência. As formigas, por exemplo, superam os humanos em número, organização e resiliência. Elas constroem sociedades cooperativas altamente eficientes, sem destruir o ecossistema que as sustenta. Os tamanduás, por sua vez, cumprem um papel silencioso e essencial no controle populacional de insetos. Cada espécie, à sua maneira, integra um equilíbrio delicado.
O ser humano, entretanto, carrega um diferencial: a capacidade cognitiva de se reconhecer como presença consciente no mundo, e não apenas como instinto. Somos capazes de abstrair o cosmos, de nos ver dentro e fora dele, de perguntar quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nossa natureza morfogenética — em constante transformação — nos permite criar cultura, ciência, arte, religião e tecnologia. Mas essa mesma capacidade nos conduz a um paradoxo inquietante.
Se somos a espécie mais inteligente, por que nos tornamos o pior predador do próprio habitat?
A teologia acrescenta outra camada a essa reflexão. Nas tradições judaico-cristãs, o ser humano é apresentado como criatura feita “à imagem e semelhança” do Criador, incumbido de cuidar da Terra, e não de saqueá-la. O domínio concedido ao homem jamais foi licença para a destruição, mas um chamado à responsabilidade. No entanto, a história revela uma humanidade frequentemente dominada pelo orgulho, pelo egoísmo e pela ilusão de supremacia absoluta.
Se somos um com a Inteligência suprema, Causa Primeira de todas as coisas somos imortais, porém vivendo uma experiência nesse pequeno e lindo Planeta azul. E, se a vida na Terra começou na água e o homem adâmico veio do pó e ao pó voltará, a eternidade humana não é desta Terra, logo, se teve um começo poderá ter um fim.
Aqui surge a gangorra existencial: de um lado, o homem, criatura dotada de razão; do outro, o Criador, fonte da vida e da ordem. Quando o equilíbrio se rompe, a inteligência se transforma em tolice, o progresso em colapso, e a consciência em negação. O resultado é um planeta exaurido, mudanças climáticas extremas e a ameaça real de uma sexta extinção em massa — desta vez provocada não por meteoros, mas por decisões humanas.
Entre formigas, tamanduás e os fósseis dos dinossauros, a natureza parece nos lembrar que nenhuma espécie é eterna na Terra. A pergunta que permanece não é se a Terra sobreviverá sem o homem — porque isso já aconteceu antes —, mas se o homem será capaz de sobreviver à própria arrogância.
Seremos, afinal, uma espécie inteligente o suficiente para aprender com a história do planeta, ou apenas mais um capítulo encerrado nas camadas da Terra? A resposta não está escrita nas estrelas, mas nas escolhas cotidianas de uma humanidade que ainda precisa decidir se quer ser guardiã da vida ou autora do próprio fim.
Entre formigas, tamanduás e dinossauros: uma análise da presença humana no Planeta Terra
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

