Poucos alimentos geram tantas discussões atualmente quanto o leite de vaca. Enquanto durante décadas ele foi considerado um dos pilares da alimentação saudável, mais recentemente passou a ser alvo de questionamentos nas redes sociais, sendo acusado de provocar inflamação, alergias, ganho de peso e até diversas doenças crônicas. Mas o que realmente diz a ciência?
Em 2023, a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) reuniram especialistas para analisar as melhores evidências científicas disponíveis sobre o consumo de leite e seus efeitos na saúde humana. A conclusão foi bastante clara: para a grande maioria das pessoas, o leite continua sendo um alimento seguro, nutritivo e associado a diversos benefícios para a saúde.
O leite acompanha a história da humanidade há milhares de anos. Ao longo da evolução, diversas populações desenvolveram adaptações genéticas que permitiram a digestão da lactose durante toda a vida adulta. Essa capacidade transformou o leite em uma importante fonte de proteínas, cálcio, vitaminas e outros nutrientes essenciais.
Do ponto de vista nutricional, poucos alimentos oferecem uma combinação tão favorável de nutrientes. Um simples copo de leite fornece proteínas de alto valor biológico, contendo todos os aminoácidos essenciais necessários para a manutenção dos músculos, além de quantidades significativas de cálcio, mineral fundamental para a saúde óssea.
O cálcio merece destaque especial. Embora esteja presente em diversos alimentos, o leite combina alta concentração desse mineral com excelente absorção intestinal. Em termos práticos, seria necessário consumir grandes quantidades de vários vegetais para obter a mesma quantidade de cálcio efetivamente absorvida presente em um copo de leite.
Os benefícios do consumo de leite podem ser observados em todas as fases da vida. Na infância e adolescência, contribui para o crescimento adequado, desenvolvimento ósseo e saúde dentária. Na vida adulta, estudos demonstram associação com melhor controle da pressão arterial e redução do risco cardiovascular. Nos idosos, auxilia na prevenção da osteoporose e da sarcopenia.
Quando analisamos populações com elevada expectativa de vida, observamos que o consumo regular de leite e derivados costuma fazer parte do padrão alimentar. A Itália, por exemplo, um dos países mais longevos do mundo, mantém uma forte tradição de consumo de leite, iogurtes e queijos dentro do contexto da dieta mediterrânea.
No Brasil, Minas Gerais é outro exemplo interessante. O estado possui uma das mais fortes culturas de consumo de leite e derivados, com seus tradicionais queijos artesanais reconhecidos internacionalmente.
Por outro lado, em muitas comunidades ribeirinhas da Amazônia, incluindo regiões do Amapá e do Pará, o consumo de leite tradicionalmente é menor. Embora a osteoporose seja multifatorial, a baixa ingestão de cálcio pode contribuir para maior risco de perda óssea e fraturas por fragilidade.
As fraturas osteoporóticas representam hoje um dos maiores desafios da saúde pública mundial. Uma simples queda da própria altura pode resultar em fraturas de quadril, coluna ou punho, frequentemente levando à perda da independência funcional e aumento da mortalidade em idosos.
Outro mito bastante difundido é a ideia de que o leite seria um alimento inflamatório. As evidências científicas atuais não sustentam essa afirmação. Pelo contrário, diversos estudos demonstram que o consumo de leite e derivados pode estar associado à melhora de biomarcadores inflamatórios em indivíduos saudáveis.
A principal exceção ocorre nos pacientes portadores de alergia à proteína do leite de vaca (APLV). É importante não confundir alergia com intolerância à lactose. A intolerância decorre da dificuldade em digerir a lactose e, na maioria dos casos, não exige a exclusão completa dos laticínios.
Também não há fundamento científico para o receio frequentemente manifestado em relação ao leite UHT, o popular leite “longa vida”. O processo de ultrapasteurização aumenta a segurança microbiológica e o tempo de conservação sem prejuízo nutricional relevante.
Diversas sociedades científicas defendem o consumo adequado de leite e derivados como parte de uma alimentação equilibrada. Entre elas estão a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) e a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).
Entretanto, diante das evidências científicas disponíveis atualmente, parece justo afirmar que o leite continua sendo muito mais um aliado da saúde do que um vilão.
LEITE DE VACA: VILÃO OU ALIADO DA SAÚDE?

