Uma nova fronteira terapêutica para a Reumatologia
A obesidade constitui atualmente uma das maiores epidemias globais do século XXI. Durante décadas foi considerada apenas um problema relacionado ao estilo de vida ou à estética corporal. Entretanto, avanços nas áreas de endocrinologia, imunologia e reumatologia demonstraram que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial, recidivante e associada a um estado persistente de inflamação sistêmica de baixo grau.
Mais de um bilhão de pessoas vivem atualmente com obesidade em todo o mundo. No Brasil, o excesso de peso afeta mais da metade da população adulta.
A obesidade está associada a diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca, apneia obstrutiva do sono, esteatose hepática associada à disfunção metabólica, diversos tipos de câncer, doenças reumáticas inflamatórias, artrose e fibromialgia.
Nos últimos anos surgiu uma nova geração de terapias antiobesidade capazes de modificar profundamente o manejo desses pacientes: os agonistas do GLP‑1, os agonistas duplos GIP/GLP‑1 e, futuramente, os agonistas triplos GLP‑1/GIP/Glucagon, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.
O tecido adiposo como órgão imunometabólico
Hoje sabemos que o tecido adiposo funciona como um órgão endócrino e imunológico ativo. Os adipócitos produzem TNF‑alfa, interleucina‑6, MCP‑1, leptina, resistina e adiponectina.
O excesso de tecido adiposo visceral leva ao recrutamento de macrófagos e outras células inflamatórias, gerando um estado inflamatório crônico associado à resistência à insulina, disfunção endotelial, aterosclerose, hipertensão, síndrome metabólica e agravamento de doenças autoimunes.
Dessa forma, a obesidade deve ser entendida como uma doença imunometabólica.
Obesidade e Reumatologia
Pacientes obesos apresentam maior atividade inflamatória, maior intensidade dolorosa, mais fadiga, pior qualidade de vida, menor resposta terapêutica e maior incapacidade funcional.
Artrite Reumatoide: menor taxa de remissão e maior risco cardiovascular.
Artrite Psoriásica: formas mais graves e menor resposta aos imunobiológicos.
Espondiloartrites: pior função física e menor eficácia terapêutica.
Gota: aumento da hiperuricemia e das crises.
Artrose: sobrecarga mecânica e inflamação metabólica.
Fibromialgia: pior sono, mais fadiga e amplificação da dor.
Evolução das terapias antiobesidade
A descoberta das incretinas modificou profundamente o tratamento da obesidade. Após as refeições, hormônios intestinais sinalizam saciedade ao sistema nervoso central. As novas terapias reproduzem ou potencializam esse mecanismo fisiológico.
Liraglutida (Victoza®️/Saxenda®️): agonista do receptor GLP‑1. Promove aumento da saciedade, redução da fome e perda média de peso entre 5 e 10%.
Semaglutida (Ozempic®️/Wegovy®️): agonista do receptor GLP‑1 de longa duração, com perda média de peso entre 10 e 15% e benefícios cardiovasculares robustos.
Tirzepatida (Mounjaro®️): primeiro agonista duplo GIP/GLP‑1 amplamente utilizado, proporcionando perda média de peso entre 15 e 22%.
Retatrutida: agonista triplo GLP‑1/GIP/Glucagon ainda em desenvolvimento, com perdas superiores a 24% nos estudos iniciais.
Benefícios além do emagrecimento: redução da hemoglobina glicada, melhora da resistência à insulina, redução da pressão arterial, menor risco cardiovascular, melhora da esteatose hepática, redução da gordura visceral, melhora da apneia do sono e redução da inflamação metabólica.
Segurança: os efeitos adversos mais frequentes são náuseas, vômitos, refluxo, constipação, diarreia e distensão abdominal, geralmente transitórios e dose-dependentes.
O que é o EULAR?
O EULAR (European Alliance of Associations for Rheumatology) é a principal organização científica europeia dedicada às doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Anualmente promove o Congresso Europeu de Reumatologia (EULAR Congress), considerado um dos mais importantes encontros científicos do mundo na área da Reumatologia, ao lado do congresso do American College of Rheumatology (ACR).
O EULAR reúne milhares de reumatologistas, pesquisadores, profissionais de saúde e representantes de pacientes para apresentação de estudos inéditos, atualização de diretrizes e discussão dos principais avanços no diagnóstico e tratamento das doenças reumáticas.
A edição EULAR 2026 foi realizada entre 3 e 6 de junho de 2026, no centro de exposições ExCeL London, em Londres, Reino Unido. Entre os temas de maior destaque esteve a relação entre obesidade, inflamação sistêmica e doenças reumáticas, consolidando a obesidade como importante fator modificador da atividade das doenças reumáticas e um novo alvo terapêutico.
O que foi discutido no EULAR 2026?
O EULAR marcou uma mudança conceitual importante. A obesidade passou a ser vista como fator modificador das doenças reumáticas e potencial alvo terapêutico.
- Obesidade como alvo terapêutico.
- GLP‑1 além do emagrecimento: possível efeito anti-inflamatório.
- Artrose: redução da dor e melhora funcional.
- Artrite Reumatoide: melhora da atividade inflamatória e do perfil cardiovascular.
- Artrite Psoriásica e Espondiloartrites: melhor resposta aos imunobiológicos após perda ponderal.
- Lúpus: benefícios metabólicos e cardiovasculares promissores.
- Tirzepatida: molécula de maior impacto clínico atual devido à magnitude da perda de peso e potenciais benefícios indiretos para a Reumatologia.
Conclusão Final
A Reumatologia vive uma mudança de paradigma. O controle da obesidade passou a integrar a estratégia terapêutica moderna das doenças reumáticas.
Os agonistas do GLP‑1 e as novas terapias antiobesidade não devem ser vistos apenas como medicamentos para emagrecer. Representam ferramentas capazes de modificar o ambiente inflamatório, reduzir risco cardiovascular, melhorar a capacidade funcional e potencializar a resposta terapêutica em diversas doenças reumáticas.
O principal legado das discussões recentes do EULAR foi estabelecer que o tratamento da obesidade deve ser considerado parte integrante do cuidado reumatológico contemporâneo.

