Desde os primórdios da humanidade, a mulher ocupa um lugar paradoxal na história. Na metáfora bíblica da criação, ela surge como “ajudadora”, formada da costela de Adão, não como serva, mas como companheira — alguém feita da mesma substância humana, destinada à parceria, à cooperação e à continuidade da vida. Contudo, ao longo dos séculos, essa imagem simbólica foi muitas vezes distorcida, e a mulher passou a oscilar entre extremos: ora santificada, ora culpabilizada.
Na narrativa das origens, Eva é associada ao conhecimento e à transgressão. A mesma figura que gera a vida foi também responsabilizada por introduzir o sofrimento no mundo. Essa ambivalência simbólica atravessou a história e ajudou a moldar a forma como as sociedades passaram a enxergar o feminino.
No cristianismo, a figura da mulher é exaltada por Jesus, quando dialoga e até se manifesta em Primeira Mão após sua Ressurreição para uma mulher! A Igreja Católica vai construindo ao longo dos séculos o respeito e a Veneração à Mãe de Jesus como Santa e Imaculada e, pouco a pouco Eva vai sendo substituída por Maria, mas, tanto culpa como santidade são degraus distantes de nossa humanidade como mulher, do equilíbrio entre o masculino e o feminino.
Nas civilizações antigas, especialmente no mundo grego, a mulher ocupava lugares bastante delimitados. Era frequentemente vista como guardadora do lar e reprodutora da linhagem, responsável por gerar guerreiros e manter o patrimônio familiar. Enquanto algumas poucas figuravam como rainhas ou sacerdotisas, a maioria vivia restrita aos espaços domésticos. Entre escravas e princesas, o destino feminino era quase sempre decidido pelos homens e pelas estruturas de poder vigentes.
Mas a história também é feita de resistência silenciosa. Como princesas ou como servas ou escravas, a mulher cumpria seu papel divino de gerar vidas, de proteger a prole, a tribo com alimento e beberagens de cura, com sua maestria em estar ao lado do homem, como está escrito em Gênesis, quando cita que Deus fez a mulher para estar ao lado do homem, companheira e portal de entrada de outros seres na Terra.
Nas tribos originárias que habitam o continente americano há milênios, a força dos guerreiros é orientada pelas companheiras da tribo, num particular colóquio, a mulher é ouvida e participa das decisões da tribo, até nos dias atuais, a Tribo Wãiampi, mantém essa tradição. Na sociedade maçônica, onde a participação efetiva é de homens, quando é convidado um homem casado para fazer parte de uma Loja Maçônica, este só pode adentrar se a sua esposa assim o permitir.
No povo Lakota as mulheres tinham papel decisivo como “Mães de Clã”, as clanmothers, na Confederação Iroquois, que escolhiam os chefes.
Ao longo dos séculos, mulheres enfrentaram guerras, criaram filhos em meio à escassez, transmitiram cultura, fé e valores, sustentaram famílias e, muitas vezes, civilizações inteiras. Mesmo quando invisibilizadas, elas continuaram sendo o coração pulsante da humanidade. De Eva a Maria de Nazaré, a trajetória religiosa assistiu a História de inúmeras mulheres de fé que mantiveram as tradições judaicas e o Povo Hebreu de pé e em marcha rumo a seus ideias e crenças.
Hoje, no século XXI, embora muitos avanços tenham sido conquistados — no acesso à educação, ao trabalho e à participação social, o direito ao voto, entre outros — ainda convivemos com uma dura realidade: a violência contra a mulher continua sendo uma chaga aberta na sociedade. Cotidianamente, vemos notícias de agressões físicas, psicológicas e emocionais praticadas por homens que perderam o senso de humanidade ou que jamais aprenderam o verdadeiro significado de respeito.
É triste perceber que, em pleno tempo de tanto conhecimento, ainda seja necessário lembrar verdades simples. Um antigo provérbio africano ensina com sabedoria:
“Metade do mundo é composta de mulheres; a outra metade é formada pelos filhos delas.” Apesar de ser citado popularmente essa frase é de autoria da educadora e palestrante Efu Nyaki, de origem africana e atua na educação no Brasil. A frase quer destacar o papel da maternidade feminina, geradora de todas as vidas existentes.
Essa frase resume uma verdade incontornável: não existe humanidade sem o feminino.
O conflito no Oriente Médio está trazendo aos meios de comunicação de massa a triste e dura realidade das mulheres torturadas pelas teocracias, como no mundo muçulmano; e aqui é preciso dizer que os avanços nas melhores condições de vida das mulheres existem, mas são minorias aquelas que gozam de respeito e liberdade.
Nas sociedades democráticas onde os discursos de liberdade são mais constantes, não se iludam, o sofrimento feminino é gritante e o feminicídio ceifa vidas femininas de ocidente a oriente do Planeta.
Não se trata de nos afastar do homem de bem, daquele que nos gerou, nos educou e nos encantou quando decidimos construir nossas famílias, é um risco o endurecimento dos corações femininos e o distanciamento da construção de famílias saudáveis. Cuidado! Não se deve colocar todo esse tema em uma vala comum; se trata de despertamento, de se valorizar e de educar meninos para respeitar e amar as meninas.
Existem sim, bons avôs, bons pais, bons maridos, bons filhos, em meio ao sociopatas do mal, existem homens valorosos, varões de fé, soldados do bem e da paz, homens que verdadeiramente dão a sua vida por suas mulheres, sejam elas velhas, novas ou crianças.
Março chega todos os anos como um convite à reflexão. Mais do que flores e homenagens, é um tempo de luta, posicionamento e consciência. Um tempo de políticas públicas de prevenção de qualidade e não apenas de objetivos eleitoreiros. É o momento de reafirmar que nenhuma sociedade pode se considerar civilizada enquanto suas mulheres forem vítimas de violência, silenciamento ou desrespeito.
Ser mulher é carregar muitas identidades ao mesmo tempo. Somos avós, mães, filhas, profissionais, educadoras, líderes, cuidadoras e construtoras de futuros. Somos, ao mesmo tempo, pérolas raras e fortalezas silenciosas, capazes de transformar dor em aprendizado e desafios em caminhos.
Que este mês de março não seja apenas um marco simbólico no calendário, mas um chamado coletivo para que homens e mulheres caminhem lado a lado, construindo uma cultura de dignidade, justiça e respeito.
Porque quando uma mulher é valorizada, toda a humanidade se eleva.
Que as águas de março não levem as mulheres junto, que o feminicídio cesse, que as discrepâncias entre níveis salariais caiam por terra, que uma mulher lute e defenda outra mulher, pois, outra chaga social é a ignorância feminina que aceita ser dominada e morta em nome de ideologias diabólicas.
Março começa com M, M de Mulher livre, representada por outra Mulher, sem ideologias, sem crenças limitantes, sem o abuso e o mal agir de seus companheiros de jornada.
A ordem que está na Bíblia é: Maridos, amem vossas esposas com um amor sacrificial, incondicional e ativo, como Cristo amou a Igreja. (Carta de Paulo aos Efésios 5: 25 – 33). Ou seja, maridos amem suas esposas e dêem suas vidas por elas!
Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Efésios 5:28.
Mulher: entre a costela e a coroa
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

