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Patrício Almeida

O Preço Oculto da Caneta: Por Que o Ozempic Está Fazendo Algumas Pessoas Perderem Cabelo (E Por Que Você Não Precisa Entrar em Pânico)

Patrício Almeida
Ultima atualização: 26 de julho de 2026 às 08:57
Por Patrício Almeida 4 horas atrás
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Epidemiologista e Professor Doutor em Engenharia Biomédica | Foto: Arquivo Pessoal
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Você acorda, vai até o banheiro e, ao passar a escova nos fios, nota que ela está um pouco mais cheia do que o normal. No começo, a gente sempre inventa uma desculpa. É o estresse do trabalho. É a mudança de estação. Talvez aquele shampoo novo que não deu certo. Mas aí os dias passam, o ralo do chuveiro começa a acumular um tufo suspeito e a pulga se instala atrás da orelha. A verdade é que, se você entrou recentemente na onda das canetas emagrecedoras, o verdadeiro culpado pode estar guardado na porta da sua geladeira.
Faz um tempo que relatos informais pipocam em consultórios dermatológicos e fóruns na internet. Pessoas que usam medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 — os famosos Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound — começaram a notar uma queda capilar acentuada. Até então, a comunidade médica tratava o assunto com aquela cautela de sempre. Faltavam dados. Sobravam especulações. Mas a ciência, embora demore, costuma trazer as respostas. E uma pesquisa recente publicada no The BMJ, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, finalmente colocou os pingos nos is.
O que descobriram não é motivo para jogar sua medicação no lixo, mas é um alerta fascinante sobre como o nosso corpo reage a mudanças bruscas.
O QUE OS DADOS REAIS NOS DIZEM
Para tirar essa história do campo dos boatos e do “ouvi dizer”, um grupo de pesquisadores decidiu mergulhar nos registros eletrônicos de saúde do Sistema de Saúde da Universidade da Pensilvânia, a Penn Medicine. Eles não pegaram uma amostra pequena. Estamos falando de quase 40 mil pacientes adultos com diabetes tipo 2, acompanhados entre janeiro de 2019 e setembro de 2024.
A sacada do estudo foi a comparação. Eles não olharam apenas para quem tomava os remédios baseados em semaglutida ou tirzepatida. Eles colocaram esses pacientes lado a lado com pessoas que usavam outras duas classes super comuns de medicamentos para diabetes: os inibidores de SGLT-2 e os inibidores de DPP-4.
Pense nesses medicamentos como diferentes rotas para chegar ao mesmo destino, que é o controle do açúcar no sangue. A rota do GLP-1 provou ser incrivelmente eficaz e, de quebra, virou a queridinha mundial por promover uma perda de peso que beira o inacreditável para muitos. Mas parece que essa rota tem uns pedágios inesperados no quesito capilar.
Os resultados mostraram que os usuários de GLP-1 desenvolveram alopecia — o termo médico chique para queda de cabelo — com mais frequência do que a turma que tomava os outros remédios. Após ajustar um monte de variáveis (porque, convenhamos, comparar um paciente de 58 anos com um de 67 exige nivelar o campo de jogo), os números revelaram um padrão claro.
Quem usava GLP-1 teve um risco 37% maior de apresentar queda de cabelo em comparação aos usuários de SGLT-2. Quando a comparação foi com os inibidores de DPP-4, esse risco saltou para 68% a mais.
Lido assim, de supetão, parece assustador. Uma porcentagem de 68% soa como uma sentença de calvície. Mas aqui entra uma nuance que os médicos adoram explicar: a diferença entre risco relativo e risco absoluto. O aumento relativo é alto, sim. Porém, o risco absoluto — ou seja, a chance real de isso acontecer com você no dia a dia — continuou sendo bastante baixo. A taxa ficou na casa de 6 a 7 casos a cada 1.000 pessoas por ano. É um efeito colateral mensurável, real, mas longe de ser uma epidemia de perda de cabelo.
O CORPO COMO UM ECONOMISTA IMPLACÁVEL
A grande pergunta que fica martelando é: por que um remédio que imita um hormônio intestinal para regular a insulina e a fome faria o cabelo cair? O estudo do BMJ não foi desenhado para descobrir a causa exata. Ele apenas apontou que o fenômeno existe. Mas a biologia humana nos dá pistas excelentes do que está acontecendo nos bastidores.
O nosso corpo é um economista extremamente pragmático. Quando as coisas estão indo bem, há energia e nutrientes de sobra para investir em “projetos de luxo”. E, para o seu organismo, cabelo é um luxo. Ele não serve para bombear sangue, não ajuda a respirar e não filtra toxinas. É apenas estética e um pouco de proteção térmica.
Agora, imagine o que acontece quando você começa a tomar uma medicação como o Ozempic ou o Mounjaro. O seu apetite despenca. Você passa a comer muito menos. O peso começa a derreter rápido. Para o seu cérebro primitivo, você não está fazendo um projeto verão; você está passando por um período de fome e crise. O corpo entra em estado de alerta.
O que um economista faz em tempos de crise? Ele corta o financiamento de áreas não essenciais. O corpo faz exatamente o mesmo. Ele puxa o freio de mão no ciclo de crescimento capilar para redirecionar energia e nutrientes para órgãos vitais como o coração, pulmões e cérebro.
Esse fenômeno é conhecido nos consultórios dermatológicos como eflúvio telógeno. É uma queda aguda que geralmente acontece uns três ou quatro meses depois de um trauma físico, uma cirurgia, um parto ou… uma perda rápida e drástica de peso. Os fios que estavam na fase de crescimento (anágena) são empurrados precocemente para a fase de repouso e queda (telógena). De repente, aquele punhado de cabelo no travesseiro começa a fazer todo o sentido biológico.
O BURACO NUTRICIONAL
Além do choque metabólico da perda de peso em si, há o fator prato vazio. Quando a fome some, a qualidade da alimentação muitas vezes cai junto. É muito comum que pacientes usando GLP-1 não consigam bater suas metas diárias de proteínas, vitaminas e minerais.
O cabelo é feito basicamente de proteína (queratina) e depende de uma orquestra de micronutrientes para crescer forte. Ferro e zinco são os maestros dessa orquestra. Se você está comendo apenas algumas bolachas e um pedaço de queijo porque a medicação te deixa enjoado diante de um prato de comida de verdade, suas reservas de ferro e zinco vão despencar. E adivinha? A deficiência desses dois minerais é uma das causas mais documentadas de queda capilar no mundo.
Há também a questão hormonal. O tecido adiposo — a nossa gordura corporal — não é apenas um estoque de energia inerte. Ele é um órgão endócrino ativo que produz e regula hormônios, incluindo o estrogênio. Quando você perde uma quantidade massiva de gordura em pouco tempo, o equilíbrio hormonal do corpo balança. E qualquer mulher que já passou pelo pós-parto ou pela menopausa sabe muito bem o que flutuações hormonais fazem com o volume do cabelo.
A BOA NOTÍCIA QUE VOCÊ QUERIA LER
Se você chegou até aqui imaginando que vai precisar comprar uma coleção de chapéus, pode respirar aliviado. O detalhe mais reconfortante dessa pesquisa toda está escondido em um termo médico específico: alopecia não cicatricial.
Os pesquisadores notaram que o aumento do risco estava ligado a esse tipo exato de queda. O que isso significa na prática? Significa que o folículo piloso — a “raiz” do cabelo, a fábrica que produz o fio — permanece intacto e vivo debaixo da pele. Não há cicatriz, não há destruição permanente.
O solo continua fértil. A semente só está dormindo.
Isso quer dizer que a condição é, na esmagadora maioria das vezes, totalmente reversível. Uma vez que o peso do paciente estabiliza, o corpo entende que a “crise de fome” acabou. Quando a ingestão de nutrientes volta a um patamar adequado e o metabolismo se ajusta à nova realidade, a fábrica de cabelo reabre as portas e volta a operar normalmente. Os fios voltam a crescer. Pode demorar alguns meses, exige paciência, mas o cabelo volta.
O QUE A CIÊNCIA AINDA NÃO SABE
Como todo estudo observacional, esse também tem seus pontos cegos. Os registros médicos eletrônicos são ótimos para ver o panorama geral, mas péssimos para os detalhes íntimos. Um médico pode ter digitado “queda de cabelo” no prontuário do paciente, mas não anotou se caíram 50 fios por dia ou 300. Não anotou se o paciente ficou com falhas visíveis ou se era apenas uma perda de volume global.
Outro ponto que os dados da Penn Medicine não conseguiram responder com precisão foi o acompanhamento a longo prazo. A pesquisa não conseguiu rastrear de forma sistemática se o cabelo dessas pessoas voltou a crescer após pararem a medicação ou após o peso estabilizar, embora a natureza não cicatricial da queda sugira fortemente que sim.
Ciência de dados médicos tem dessas coisas. Você vê a fumaça, sabe que tem fogo, mas às vezes não consegue medir a altura exata das chamas. Os próprios autores do estudo foram super transparentes sobre isso. Eles não podem afirmar com 100% de certeza que foi a molécula do remédio que causou a queda diretamente. Pode ter sido exclusivamente a perda de peso. Pode ter sido uma mistura dos dois. Fatores não medidos sempre podem entrar de fininho nos resultados.
Ainda assim, o trabalho é robusto. Usar dados de 40 mil pessoas reais, vivendo vidas reais, traz um peso enorme para a discussão. Isso tira a queda de cabelo do campo da “anedota de consultório” e a eleva ao status de um efeito adverso sistemático e reconhecido.
MUDANDO A CONVERSA NO CONSULTÓRIO
No fim das contas, o que essa descoberta muda na vida de quem precisa tratar o diabetes tipo 2 ou a obesidade?
Honestamente, não deveria mudar a decisão de tratar a doença. Os benefícios de perder 15%, 20% do peso corporal e colocar o açúcar do sangue nos eixos superam, de longe, o incômodo temporário de ver mais fios no ralo. Estamos falando de reduzir riscos de infarto, derrame, problemas renais e apneia do sono. O impacto na longevidade é brutal.
Mas muda, e muito, a forma como o tratamento deve ser conduzido. A informação é o melhor antídoto contra o pânico. Se um paciente senta na cadeira do médico e é avisado de antemão: “Olha, você vai perder peso, sua saúde vai melhorar muito, mas daqui a uns três meses pode ser que seu cabelo caia um pouco. Não se assuste, é normal e vai passar”, a experiência é completamente outra.
Isso também reforça uma tecla que nutricionistas e endocrinologistas vêm batendo incansavelmente: o uso de GLP-1 não pode ser um voo cego. Não basta aplicar a caneta e esquecer da vida. O acompanhamento nutricional é inegociável. Se o paciente vai comer pouco, o pouco que ele come precisa ser incrivelmente denso em nutrientes. Suplementação de proteínas, exames periódicos para checar ferro, ferritina, zinco e vitaminas do complexo B deixam de ser um capricho e passam a ser parte essencial do tratamento.
O emagrecimento moderno trouxe ferramentas que parecem mágica, mas a biologia não aceita atalhos sem cobrar um pedágio. O corpo humano é um sistema complexo, interligado, onde mexer em uma engrenagem faz outras três girarem em ritmos diferentes. Entender esses ritmos, sem alarmismo e com base em dados sólidos, é o que nos permite usar a ciência a nosso favor, mantendo a saúde em dia e, com um pouco de paciência e cuidado, os cabelos na cabeça.

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Patrício Almeida 26 de julho de 2026 26 de julho de 2026
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Por Patrício Almeida
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Epidemiologista e Professor Doutor em Engenharia Biomédica
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