Às vezes tenho a sensação de que a vida fica em suspenso. Nesses momentos, tenho entendido que o mais adequado é recuar, respirar, tentar enxergar o que, por algum motivo, não consigo ver com tanta clareza.
O mundo anda uma loucura e viver está muito difícil. Já disse isso outras vezes e odeio ter que repetir, porque pareço ser alguém sem esperanças (e não sou!), mas tento falar da realidade, a partir do que percebo, a partir do que vejo, a partir do que me cabe. Se eu fosse uma mera crítica de jornal (como talvez eu devesse ser), jamais poderia trazer assuntos e percepções tão pessoais assim.
Não controlei este meu destino. Quando vi, estava aqui e estava amando. Fiz duas faculdades, planejei um futuro diferente e me vi escrevendo enquanto não chegava onde queria. A minha escrita é intuitiva e, de certa forma, se torna confessional. Se você me acompanha, sabe ao que me refiro: eventualmente escrevo algo que me mostra vulnerável, desarmada, entregue, sem medo, desnuda. Acho que é assim que gostaria de levar a vida como um todo.
Insisto, por aceitar esse destino, em sempre escrever na primeira pessoa. Dependendo do tema, é difícil, porque academicamente isso não existe, então esse formato mais ensaístico foge do que fiz (e continuo fazendo) por tanto tempo. Só que não me vejo como a crítica de arte ou qualquer outra coisa assim, que me institucionaliza. Me vejo como pessoa, como pensante, como alguém que tem muitos pensamentos por minuto e, por isso, precisa escrever.
Acredito que é por isso que não gosto das distâncias que me colocam acima de ninguém, até porque não quero ocupar esse lugar. Me interesso muito mais em abrir diálogos, olhar no olho, trazer reflexões e não impor as minhas opiniões e percepções só porque estudo tantos temas há mais de dez anos, especialmente a moda e a arte.
Há um tempo, escrevi um texto sobre esse ato de escrever e intitulei de “Páginas em Branco”. Em um determinado trecho, digo que “não tenho como desvencilhar o meu olhar do que produzo visto que, aqui, o meu escrever é artístico, pessoal e ensaístico”, que o que você lê é “a minha percepção e ela, por sua vez, é a minha bússola.”
Pode passar quanto tempo for e isso vai continuar sendo inteiramente verdade. Acho que não sei viver sem escrever. Acho que nunca soube. Para mim, a escrita é me permitir entregar-me ao inesperado. Talvez, além da dança, escrever seja o momento no qual mais me permito o desnudar da alma.
Acho que é por isso que amo tanto dançar (ou porque foi a minha primeira paixão na vida, apesar de acreditar que tenha sido a arte, considerando a dança um dos seus desdobramentos). De qualquer forma, acredito que, com certeza, é por isso que gosto tanto de escrever. Nesse raciocínio, a dança e a escrita têm o mesmo efeito: me mostrar vulnerável, ainda que eu esteja, em parte, consciente dos movimentos.
O texto não era sobre escrita, foi mal. Queria mesmo era falar sobre o inesperado. A escrita, na minha realidade, ocupa um pouco esse lugar. Dificilmente sei o que vai nascer, mas consigo confiar que vai ser, no mínimo, algo importante (porque escrever é importante para mim).
Viver exige muito e é por essa razão que, em determinado momento, as coisas desandam: a gente não aprende a controlar tudo, porque é humanamente impossível. É esquecendo a janela aberta que a gente sente o vento gostoso entrar. É abaixando a guarda que conseguimos fazer novas amizades, conhecer novas pessoas, sentir, odiar, amar, se apaixonar… É abrindo mão do controle que a leveza bate na porta.
Como falei no início, a vida em suspenso nos mostra algo. Eu, particularmente, acho que é um indicativo de que a gente anda vivendo a vida no modo automático. Semana passada eu falei sobre a tentativa incansável de nos colocar em caixinhas. A questão sobre a qual fiquei refletindo a partir de então é um desdobramento disso. Não caber em caixinhas significa não se enquadrar, significa, especialmente nos dias de hoje, um sinal de rebeldia.
Tenho tentado escolher a rebeldia sobre mim mesma, escolher a espontaneidade, pensar fora da caixinha (e acho que isso eu sempre fiz!). O inesperado é que nos permite renascer e perceber que a vida acontece nessas brechas, nas incertezas, nos desvios de rota, nas conversas que não eram previstas, nos encontros inesperados e nos planos que deram errado e nos obrigaram a fazer movimentos diferentes dos que foram planejados para a vida.
A tentativa constante de controlar tudo é a tentativa de evitar o risco, o sofrimento, mas também é isso que nos afasta da surpresa, do espontâneo, da vida na sua maneira mais divertida. Será que é impossível ser feliz evitando essas surpresas? Será que ainda existe espaço para o inesperado? Vale a pena evitar todos os riscos?
Falar do desnude da alma, enquanto edito o que postar, talvez seja se contradizer de certa forma. Só que o inesperado, penso, precisa partir da vida. Enquanto, a mim, cabe continuar vivendo, escrevendo, dançando, deixando as janelas abertas sem querer e curtir o vento que, por ventura, entrar.
Existe espaço para o inesperado?

