Durante recente viagem aos Andes peruanos, uma sensação era clara: o sol parecia mais intenso, mais próximo, mais “agressivo” à pele, apesar da temperatura amena. Essa percepção tem explicação científica e impacto importante na saúde das pessoas, principalmente naquelas com predisposição para algumas doenças.
No Amapá, vivemos em um estado banhado pelo rio Amazonas e estamos ao nível do mar, na linha do Equador. Essa latitude favorece a incidência de raios solares, em especial os ultravioleta, durante todo o ano. Na Cordilheira dos Andes peruanos nasce o nosso rio Amazonas, a partir do degelo da neve. Logo, trago ao leitor da coluna essa comparação entre dois lugares distantes do nosso continente, mas com ligações geográficas e de saúde.
Nos Andes, dois fatores se combinam:
- Altitude elevada (frequentemente acima de 2.500–4.000 metros)
- Proximidade com a linha do Equador
Essa combinação resulta em níveis extremos de radiação ultravioleta (UV), muitas vezes com Índice UV acima de 11 — considerado risco extremo.
Mas há um ponto importante: o Amapá compartilha um dos principais fatores de risco — a latitude equatorial. Ou seja, mesmo ao nível do mar, a radiação UV na Amazônia é naturalmente elevada durante todo o ano.
COMPARAÇÃO ENTRE REGIÕES - Andes peruanos: altitude elevada + proximidade do Equador → UV extremo
- Amapá: baixa altitude + linha do Equador → UV constantemente alto
- Sul do Brasil (ex: Santa Catarina): maior distância do Equador → menor intensidade média de UV
Moradores do Norte do Brasil vivem sob exposição solar mais intensa do que grande parte do país.
O QUE É RADIAÇÃO UV?
A radiação ultravioleta é uma energia emitida pelo sol ou por fontes artificiais (lâmpadas fluorescentes/halógenas e câmaras de bronzeamento), que atinge a pele. A radiação solar atinge as pessoas: - Diretamente
- De forma dispersa no céu (mesmo com nuvens)
- Refletida na água, areia, concreto e até neve
TIPOS DE RADIAÇÃO UV - UVA: penetra profundamente, causa envelhecimento e aumenta o risco de câncer
- UVB: causa queimaduras solares, está diretamente ligada ao câncer de pele e também tem papel em doenças imunológicas — é uma das radiações mais relevantes do ponto de vista clínico
- UVC: bloqueada pela atmosfera
DOENÇAS AGRAVADAS PELO SOL
Lúpus eritematoso sistêmico:
Pode desencadear lesões na pele, surtos inflamatórios e acometimento de órgãos como rins e cérebro. A radiação ultravioleta piora a doença, e não é raro o diagnóstico ou a ativação após férias em praias, balneários e também após viagens a grandes altitudes.
Melasma:
Manchas escuras que pioram com exposição solar crônica. Existe predisposição genética associada a fatores hormonais e à radiação solar.
Rosácea:
Vermelhidão e inflamação facial desencadeadas pelo calor e pela radiação. É mais comum em adultos entre 30 e 60 anos, principalmente em indivíduos de pele clara, sendo a exposição solar um dos principais fatores de piora.
Herpes labial:
Reativação viral associada ao sol.
Ceratose actínica:
Lesão pré-cancerosa causada por dano solar acumulado ao longo dos anos. Ocorre principalmente em indivíduos acima de 50 anos, de pele clara, com exposição solar crônica, como trabalhadores rurais e populações ribeirinhas.
CÂNCER DE PELE
A radiação UV é a principal causa de:
- Carcinoma basocelular
- Carcinoma espinocelular
- Melanoma
O risco é cumulativo ao longo da vida.
ÍNDICE UV
0–2: baixo
3–5: moderado
6–7: alto
8–10: muito alto
11+: extremo
No Amapá, no Norte e Nordeste do Brasil, assim como nos Andes, frequentemente encontramos níveis altos ou extremos.
PROTEÇÃO SOLAR: COMO FAZER CORRETAMENTE
Protetor solar:
- FPS mínimo de 30 (ideal 50 em regiões equatoriais)
- Deve ser “amplo espectro” (protege contra UVA e UVB)
- Reaplicar a cada 2 horas ou após suor/água
- Aplicar 20 minutos antes da exposição
Quantidade correta:
- Rosto: uma colher de chá
- Corpo: cerca de 30 ml (um copo pequeno)
Tipos de protetor:
- Creme: ideal para pele seca
- Gel: indicado para pele oleosa
- Spray: prático, mas exige cuidado na aplicação uniforme
- Bastão: útil, mas às vezes não oferece proteção uniforme — deve ser usado como complemento
Protetor solar na maquiagem:
- Base com FPS ajuda, mas não substitui o protetor tradicional
- Pode ser usado como complemento ao longo do dia
Protetor para praia:
- Preferir resistente à água
- Reaplicação obrigatória após banho
ROUPAS E ACESSÓRIOS
Roupas:
- Tecidos mais fechados protegem melhor; em pacientes com lúpus, recomenda-se durante o dia o uso de roupas de manga longa e gola alta
- Roupas com proteção UV são ideais
Chapéus, bonés e sombrinhas:
- Preferir aba larga para proteção da face e orelhas
- Sombrinhas são interessantes durante o dia, especialmente para pacientes com sensibilidade solar ou diagnóstico prévio dessas doenças
Óculos escuros:
- Devem ter proteção contra 99–100% dos raios UV
- Protegem contra catarata, lesões oculares e ajudam a aumentar a proteção da face
MAIS DO QUE ESTÉTICA
Proteção solar não é apenas estética:
- Reduz o risco de câncer de pele
- Evita a exacerbação de doenças autoimunes
- Previne o envelhecimento precoce
SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINA D
Pacientes que realizam proteção solar adequada muitas vezes precisam suplementar vitamina D. No entanto, o uso de doses elevadas por tempo prolongado pode ser arriscado. Por isso, é importante que o paciente converse com seu médico a respeito.
A minha experiência nos Andes reforça uma verdade importante:
quanto maior a exposição ao sol — seja por altitude ou localização geográfica — maior o impacto na saúde.
No Amapá, vivemos sob alta radiação UV durante todo o ano. Muitos pacientes vivem em áreas ribeirinhas, onde a radiação se reflete na água, aumentando a exposição. Infelizmente, na maioria dos estados brasileiros não há dispensação de protetor solar para pacientes com essas doenças citadas na matéria.
No caso do lúpus sistêmico, pacientes de baixa renda muitas vezes não utilizam protetor solar, o que pode causar lesões, por vezes irreversíveis, e impedir a remissão da doença.
Proteger-se do sol não é vaidade.
É uma medida de saúde.

